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Estudantes iniciam campanha contra Homofobia no Colégio Técnico da UNICAMP

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Estudei no Colégio Técnico da UNICAMP durante meu ensino médio. Lá passava meus dias inteiros, entre aulas da grade convencional e matérias do técnico em eletroeletrônica. Por ser integral as relações interpessoais e a unidade que acabava surgindo entre os alunos eram muito importantes para nós.

Nessa semana tive a feliz descoberta de saber que alunos do meu saudoso COTUCA estão se mobilizando contra a punição seletiva a um casal gay, o qual a direção fez passar por conversas repressoras e ameaçou delatar a orientação sexual deles aos pais, gerando ainda mais constrangimento.

Me lembrei de como esse assunto não era tratado 11 anos atrás, de como ainda eram fortes os preconceitos entre os alunos, o suficiente para manter meus amigos no armário até que entrassem na universidade. Tenho muito orgulho de ter estudado nesse lugar, mas reconheço que muita coisa precisava mudar e me sinto muito feliz em saber que os adolescentes de hoje estão lutando para transformá-lo num lugar mais receptivo para todas as pessoas.

Por isso estou cedendo meu espaço hoje para que suas vozes sejam ouvidas, para que a mensagem de respeito se espalhe e, de alguma maneira, possa contribuir para o diálogo entre alunos e escola. Para que os alunos possam ser eles mesmos desde cedo!

"O COTUCA é um colégio que alega existir liberdade de expressão e respeito aos alunos. Entretanto, essa sensação não permanece quando se foge dos parâmetros considerados "normais" para a gestão da instituição. Ou seja, quando se possui um visual alternativo, um jeito distinto do "amém a tudo" de lidar com as imposições da direção, e até mesmo, quando não se é heterossexual, nomeado como "normal" !

Alunos da comunidade LGBT são alvos do conservadorismo e do preconceito de funcionários de todos os escalões do COTUCA, desde os terceirizados até os altos cargos da Direção! Existiram casos nos quais alunos homossexuais foram levados ao SOE (serviço de orientação educacional) por estarem apenas de mãos dadas! E as orientadoras os intimidaram, trataram como se tivessem tendo relações sexuais no meio da escola e aberto ao público. Como se o constrangimento de estar lá por nada, e ser obrigado a ouvir que é errado - e constrangedor a quem vê - estar com quem se gosta, não fosse suficiente para casos como esses, a maior parcela do SOE esteve sempre a forçar a exposição da orientação sexual dos alunos LGBTs, não se preocupando com o contexto de cada situação, não se importando com o motivo dos alunos não terem contado à família que não são heterossexuais, motivo este que muitas vezes é a homofobia presente no próprio lar! E foi o que ocorreu nessa quinta feira (15/09): a direção queria expor a orientação de dois alunos que possuem pais homofóbicos!

O que mais destaca a homofobia, nesse caso, é que os meninos estavam totalmente de acordo com o manual do aluno do Cotuca, em lugar público, sala com portas aberta e sem exageros e com outras pessoas no local, inclusive um casal hétero que, caso se fosse considerar o exagero na troca de carinhos do casal homoafetivo, estavam exagerando também!

Como podemos pensar que contar a pessoas homofóbicas que seus filhos são homossexuais é a melhor conduta a se tomar em qualquer tipo de situação em que tenham envolvimento?! Ainda mais quando a situação não se passa de um carinho discreto trocado como um selinho ou um beijo?! A escola deve rever suas formas de orientação educacional! A conduta do Colégio técnico de Campinas foi totalmente contrária ao que eles pregam no manual do aluno, já que, logo no início do Manual, a escola destaca seus valores em tópicos, e o primeiro que aparece é "o respeito a todas as diferenças".

Alunos do Colégio de variadas orientações sexuais se indignaram com a atitude do Colégio e criaram um grupo de mobilização nas redes sociais, e isso teve repercussão chegando ao conhecimento de antigos alunos do Colégio. Estes também se indignaram e deram depoimentos alegando que a posição homofóbica da escola não é de hoje. Nos diversos depoimentos, os ex-alunos admitem terem sofrido também discriminação por parte do colégio, na época que lá estudavam, e que os limites que a escola emprega para heterossexuais e pessoas da comunidade LGBT têm uma discrepância notável.

A escola deve rever o que tem definido por "exagero". Uma vez que o considerado excessivo se altera de acordo com o perfil dos envolvidos, torna-se necessário restringir a amplitude do que pode ser englobado como impróprio e exagerado para um ambiente no qual permanecemos uma média de 10 horas diárias!

A desigualdade na forma com que tratam os casos homoafetivos em relação aos heterossexuais é gritante! Enquanto contatam pais de alunos homossexuais por estarem beijando, os casais "tradicionais" não precisam se preocupar em ser pegos estimulando o prazer um do outro no ginásio, pois estão em fase de se descobrirem! Ou seja, se você é da comunidade LGBT, terá que esconder-se para abraçar ou beijar seu parceiro, entretanto, se você é hétero, não se preocupe, pode estimular o parceiro até mesmo no ginásio da escola que seus pais não serão contatados e você não precisará temer a qualquer atitude da sua família ultraconservadora!

A atitude que a direção queria tomar nos faz pensar na falta de informação e conscientização que eles têm, aparentemente não sabem que o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais segundo ONG internacional Transgender Europe. Quantos casos como de Alex André, Adriele Camacho, Luana, Rafael Barbosa, Sergei Casper e o da Travesti espancada com a irmã no Rio de Janeiro, terão de se repetir para que a LGBTFOBIA seja discutida nas escolas?! Precisamos conscientizar o máximo de pessoas na sociedade, mais ainda as que conviverão com tantas diferenças como é o caso de funcionários de colégios! Para isso precisamos do apoio da escola, entretanto ela não nos ouve tanto quanto alega publicamente ouvir!

Após a escola ter sido questionada sobre suas atitudes pelos alunos a resposta foi a seguinte " é que tem Maria querendo ser João, e João querendo ser Maria ". A escola tem uma posição totalmente dogmática quando mesmo os alunos mostrando não terem quebrado nenhuma regra da escola, ela insiste em expor os alunos.

Nós alunos estamos cientes de que os casos, não só de homofobia mas também de preconceito à qualquer diferença, continuarão, mas vamos lutar para que a situação mude de rumo, não queremos que a escola concorde conosco, mas apenas nos respeite como nós somos.

A partir de uma situação constrangedora e abusiva, gerada pela própria administração da escola, após uma série de atividades dos alunos, a direção precisou ser pressionada por professores para que percebesse a barbárie que estava preste a cometer! É lamentável que precisemos de intermédio de professores para que nossas pautas sejam ouvidas e levadas a sério.

Nós, alunos do movimento "Homofobia NÃO!", exigimos ser ouvidos pela gestão do COTUCA, temos voz e vamos usa-la quando sentirmos que estão nos lesando de alguma forma. Portanto não nos deixaremos enganar novamente por palavras vazias de nenhuma origem, como ocorreu na Reunião entre alunos e Direção!

Propostas de mudanças :

1) Palestras de orientação para os funcionários e alunos sobre a presença da diversidade no Colégio e a importância do respeito, sendo estas palestras abertas aos pais e responsáveis;

2) Acrescentar ao manual do aluno uma especificação mencionando que beijos, abraços e deixar a cabeça no colo um do outro não são exageros em um relacionamento e sim demonstrações de carinho e afeto.

Alunos de Colégio Técnico da UNICAMP"

Os alunos também criaram a página Por Um Cotuca Melhor :)

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