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Dilma Rousseff, Janaína Paschoal e a racionalidade

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DILMA JANANA
Reuters
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No final de agosto foi confirmado, via votação no Senado Federal, o impeachment de Dilma Rousseff. Às vésperas da decisão, uma extensa defesa foi feita pela ex-presidenta e, na mesma ocasião, Janaína Paschoal discursou e argumentou ao lado da acusação, ela que foi co-autora da denúncia sobre crimes de responsabilidade pelos quais Dilma foi impedida de exercer a presidência.

Pude acompanhar ao vivo diversos momentos desse dia histórico para o Brasil, juntamente com a reprodução de trechos editados nas redes sociais e a repercussão das notícias e seu público. Pude perceber um interessante movimento nos pólos de discussão, envolvendo falas de Dilma e Janaína.

Se por um lado, nos portais alinhados um pouco mais à direita, era possível acompanhar edições focadas em trechos de falas confusas de Dilma, com comentários que a definiam como uma louca burra, por outro, nos portais alinhados um pouco mais à esquerda, apareciam vídeos com falas enfáticas de Janaína, com comentários que a definiam como uma louca possuída.

Como o rótulo de loucas nos cai tão facilmente?

Há algum tempo, escrevi sobre o movimento sufragista e hoje me peguei lembrando da resistência que as sufragetes sofreram para conseguirem o direito de participar politicamente e exercer sua cidadania. Os argumentos que tiveram que ouvir e que revelam tão explicitamente estereótipos que hoje se perpetuam implicitamente. Entre os argumentos contra sufrágio feminino, que podem ser encontrados nos discursos de parlamentares de 1906 no Reino Unido, estavam alguns que me marcaram:

  • As mulheres já são representadas pelos seus maridos (assim, como se elas fossem extensão deles e não não existisse a possibilidade de terem opiniões diferentes);
  • Se as mulheres se envolvessem na política, eles iriam parar de casar, ter filhos, e a raça humana morreria (lembra em algum nível o argumento contra o casamento gay?);
  • As mulheres não lutam por seu país por isso não deveriam ter voz política (explicitando assim a ideia de que a única maneira possível de se lutar pelo país é via participação militar, como se a manutenção social e substituição de mão de obra masculina por feminina em tempos de guerra não fosse uma forma de luta e manutenção da nação);
  • As mulheres são criaturas emocionais, e portanto incapazes de tomar decisões políticas racionais (o estereótipo emocional como impedimento para o raciocínio lógico).

Todos esses são pontos interessantes de serem analisados, mas quero focar hoje no mito da racionalidade intrínseca masculina e na irracionalidade intrínseca feminina. A ideia de mulher como ser emocional, irracional e susceptível à crises de histeria devido à sua estrutura biológica e hormonal tem sido reproduzida e perpetuada através de nossa socialização. Digo isso porque a diferença biológica é usada como argumento para essa visão, embora a definição sobre o que seria uma crise de histeria ou simplesmente um sermão necessário para impor respeito depende do julgamento de quem está acompanhando, no caso de como a sociedade vê cada uma dessas ações.

É recorrente a associação entre atitudes enfáticas femininas no trabalho, por exemplo, e a TPM ou o fato de serem mulheres. Tão quanto é recorrente a associação entre atitudes enfáticas masculinas e a virilidade, imposição de respeito e demonstração de poder. As definições de racionalidade e irracionalidade então parecem estar pautadas mais nas características do locutor do que no conteúdo de sua fala.

Ao acompanhar os dias de discussão no Senado e a repercussão em vídeos editados em redes sociais e whatsapp notei evidentendemente a tentativa de descaracterização de ambas, Dilma e Janaína, por ambos os lados sob o argumento da irracionalidade e incapacidade de representar decisões e raciocínios políticos.

Em vídeos recortados de Dilma se viam falas pausadas, confusas e com foco na aparência de esquecimento ou burrice. E eu digo aparência de burrice, por exemplo, porque um dos vídeos mostra a ex-presidenta explicando uma conta de porcentagem sobre porcentagem nas definições de uso dos recursos do pré-sal.

Há uma porcentagem de receita da exploração do pré-sal a qual Dilma se referia, porém a Petrobrás teria direito a uma parcela dessa parcela e pode até soar confuso, mas o teor matemático está sim correto. Vamos checar?

Se você colocar na calculadora verá que:

30% de 25% = 7,5% e
30% de 30% = 9%
Ambos entre 7,5% e 12,5%.

Portanto, a conta está corretíssima, mesmo assim o vídeo vem com a legenda "Que?" para denotar confusão ou erro, juntamente com um pedido de doação para o MBL, e foi compartilhado incansavelmente por whatsapp e facebook.

Em outras versões do youtube o vídeo aparece ainda com títulos como "Dilma não sabe conta de porcentagem". Além de textos associando falas erradas de Dilma, em meio a mais de 15 horas de defesa no Senado, com a irracionalidade de um surto, como por exemplo: Dilma surta, gagueja, fica nervosa e chama Lewandowski de senador

De outro lado, em vídeos recortados de Janaína se viam falas efusivas, enfáticas em gesticulação e tom de voz, com foco na aparência de histeria ou loucura religiosa. E digo aparência de loucura religiosa, por exemplo, porque um dos vídeos mostra a advogada relacionando o processo de impeachment a deus, com a justificativa de que ele seria o responsável por tudo ter se encaminhado.

Um vídeo anterior à votação do Senado mostra Janaína se referindo ao governo PT como República da cobra, e a encenação ganhou contornos de perda de controle e 'posse pelo diabo'. Gerando também títulos associados à loucura como:

Deu a louca na Janaína, vídeo mostra autora do impeachment possuída pelo Diabo.

Longe de uma alucinação religiosa ou uma possessão demoníaca, Janaína Paschoal estava sim explorando politicamente seu público alvo, o grupo de cristãos pró impeachment. Ao relacionar deus e o processo, Janaína aproxima o interlocutor da noção de lado correto da história, porque apoiar o trabalho de deus é dever daquele que crê. No trecho da república da cobra há um tom pastoral, como se ela estivesse pregando e dando uma personalidade vil (relacionada à cobra) para o governo petista. Nada de irracional nisso, outra escolha lógica de encenação para seus seguidores.

Da mesma forma que os pequenos trechos de Dilma ignoraram longos e coerentes trechos de argumentação teórica, histórica e política, esses trechos da Janaína ignoraram a motivação primária para o uso de alegorias com animais peçonhentos e retórica religiosa.

Quando se ouve falar de figuras de poder no espectro político de Dilma, como Lula por exemplo, no discurso de opositores não vemos a associação direta com loucura. Ao invés disso, vemos a associação do ex-presidente com 'o cérebro' da quadrilha, um ladrão esperto que passou longos anos saqueando o Brasil.

No caso de Janaína, que apesar de advogada exerceu seu posicionamento político dentro do processo de impeachment, mesmo que relacionássemos seu discurso mais enfático com o de políticos pastores, por exemplo, veríamos que figuras como Pastor Malafaia não são chamados de loucos por sua oposição. Antes sim de fascistas, homofóbicos ou autoritários, mas dificilmente chamados de loucos.

Quando se deparar com uma situação de aparente loucura, surto ou perda de controle feminina, pare e pense:

  1. Quais são as motivações desses rótulos? Você estaria dizendo a mesma coisa se fosse um homem (pense em exemplos, como eu citei aqui)?
  2. Há versões mais completas sobre o fato retratado para se analisar? (vídeos editados dificilmente ajudarão)
  3. Se estamos falando de política, não seria racional supor que há interesses políticos em seus discursos? Que duvidar de uma fala confusa pode ser erro de quem ouve e não de quem falou, dado que podemos supor também a preparação intelectual de uma política numa defesa no Senado? Que os portais de notícias e páginas em redes sociais vão explorar trechos em que possam jogar a pecha de burrice ou loucura nessas mulheres porque muitas vezes não está em seus objetivos explicar, mas sim gerar oposição o mais rápido possível?

Gostaria de fazer aqui um manifesto pelo diálogo não estereotipado sobre as mulheres na política, na verdade eu gostaria de ver isso em todas as esferas por isso convido todos a refletirem sobre os impactos dessa associação tão espontânea entre mulheres e a irracionalidade.

Esses estereótipos contribuem para a perpetuação de visões machistas bem antigas sobre as mulheres, como mostrei acima na questão do sufrágio feminino, e se reproduzem implicitamente sob a aparente igualdade de direitos de participação política. Busquemos contrapor os argumentos e analisar a motivação e uso de de determinados discursos pelas mulheres, ao invés de subestimar suas capacidades de raciocínio.

As mulheres possuem racionalidade, estratégia e preparação para diversas posições, e enquanto perpetuarmos tão facilmente a ideia de serem loucas ou de 'perderem o controle' estaremos reproduzindo uma concepção machista que nos prejudicou historicamente e nos prejudica diariamente no exercício de nossas profissões.

LEIA MAIS:

- A desigualdade de prêmios no esporte e a lógica econômica que tenta justificar a diferença

- Por que chamar Dilma e Janaína de 'loucas' é um retrocesso para as mulheres

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