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O quarto bloqueio do WhatsApp e a nossa dependência tecnológica

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Dependência. Estado ou qualidade de dependente; subordinação, sujeição. Depender de algo é não conseguir viver sem. Nos assustamos quando falamos sobre dependência química e alcoólica, mas a dependência que atinge cada dia mais a população e que precisa ser urgentemente discutida é a dependência tecnológica.

Pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e divulgada em maio deste ano diz que o Brasil tem cerca de 168 milhões de smartphones em uso. Atualmente, o nosso país tem pouco mais de 204 de milhões de habitantes, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A projeção da população brasileira para o ano de 2020 é de 209 milhões de pessoas, segundo um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). A de smartphones, para 2018, será de 416 milhões de aparelhos. Isso significa que cada pessoa terá dois smartphones em um futuro não tão distante.

O avanço tecnológico dos últimos anos, principalmente na telefonia (chamar de telefonia faz cada vez menos sentido...), modificaram totalmente a comunicação -- seja ela pessoal ou impessoal. Seja para compartilhar a vida nas redes sociais ou para se informar.

É inegável que, para os meios de comunicação -- sobretudo sites de notícias -- esse avanço transformou a forma como trabalham para melhor. O texto que chama a matéria é um no Facebook, outro mais objetivo no Twitter. E o repórter se conecta mais rapidamente com a redação enquanto está em uma cobertura na rua.

E se para os jornalistas aplicativos como o WhatsApp facilita suas vidas, para profissionais de outras áreas também. Pedir pizza, marcar salão de beleza, agendar revisão do carro são alguns dos serviços que podem ser feitos através do aplicativo de mensagens instantâneas mais popular do mundo -- no Brasil, cerca de 100 milhões de pessoas utilizam o serviço (mais da metade da população brasileira).

Sim. Quase 60% da população brasileira utiliza o WhatsApp. E se não é para vender ou contratar um serviço, é para participar de grupos e/ou conversar com amigos.

Aproxima quem está longe e afasta quem está perto

Foi em 2007 que as três principais operadoras de telefonia do Brasil (Vivo, Claro e TIM) conseguiram obter cobertura 3G nacional. Com o serviço as mãos e a concorrência forte, logo ter internet móvel já não era tão difícil e caro assim. Mas o vício ao qual nos referimos só é "solidificado" em 2009, ano em que o queridinho WhatsApp foi criado.

É clichê. Mas, como todo clichê, a frase do intertítulo acima não deixa de ser verdade. A interação através do WhatsApp tornou-se rotineira. Começa no 'bom dia' e às vezes nem termina no 'boa noite' porque vara a madrugada. As pessoas acordam dando 'bom dia' nos grupos, pegam ônibus respondendo 'whats'; trabalham respondendo 'whats'.

Dirigem respondendo 'whats'. Levam o celular para o banheiro para responder 'whats'. Smartphone se tornou indispensável e a internet móvel? Dependência. E se você não é um desses que se sentem nus quando não estão como celular -- ou sem internet -- de certo conhece alguém assim.

Não se trata do uso do aplicativo, afinal, ele tem muitos benefícios. Trata-se do excesso de utilização, principalmente quando se trata de pessoas que usam o app para conversar com outras, esquecendo muitas vezes o que se passa em volta.

Inclusive, sobre trabalhar respondendo 'Whats': você sabia que apenas 2,5% da população consegue fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo sem queda de desempenho em uma das atividades?

A informação é da Universidade de Utah, dos EUA. Já Christian Barbosa, o maior especialista em gerenciamento do tempo e produtividade pessoal do país, afirma em diversos estudos que fazer mais de uma tarefa ao mesmo tempo te faz perder de 20% a 30% do seu tempo, isso sem contar redes sociais -- contando, o percentual passa facilmente os 30%. E acumular tarefas faz, também, com que seu QI diminua em 10. A experiência foi comprovada pela Hewlett Packard (HP).

As pessoas encontram pessoas no ônibus, no trabalho, em casa. Mas se falam pelo celular. Uma mãe está na sala e manda um 'whats' para o filho, no quarto. Um grupo de amigos que não se vê há anos vai ao bar, e ficam no celular conversando com outros amigos, aproximando assim quem está longe e afastando assim quem está perto.

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Na última terça-feira, 19 de julho, eu vi pessoas conversando. O assunto?

- Cara, o WhatsApp vai sair do ar de novo.

- De novo?

- De novo. Uma determinação da Justiça lá do Rio. Esse povo não tem o que fazer, né?

- Não tem. Como eu vou ficar sem Whats?

(Como essas pessoas viviam antes de 2009?)

"Não, mas eu nem sou viciado". Assim como o dependente químico e/ou alcoólico, o dependente tecnológico não se reconhece como um viciado. Chega-se ao ponto de reclamar e até surtar quando algo como o WhatsApp é tirado do ar, algo como uma abstinência nessa 'rehab' involuntária.

O quarto bloqueio do aplicativo realizado nesta semana no Brasil quase nada tem a ver com esse texto -- ao passo que ninguém está aqui para julgar se a decisão judicial tem fundamento ou não -, mas vem para reafirmar, pela quarta vez em dois anos, em sete anos de vida de WhatsApp,que o brasileiro cada vez mais acredita que está rodeado de gente, quando na verdade está preso em uma redoma onde o real importa cada vez menos.

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