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Quero sair correndo como Delacroix

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Deve-se sair correndo de leão. De preferência, para dentro de um Land Rover. Assim como deve-se sair em dispararada de vespeiro cutucado. De urso, dizem os andarilhos da trilha dos Apalaches, não devemos correr. É preferível ficar deitado e fingir-se de morto. Haja coragem para levar uma cafungada de urso marrom - Leonardo DiCaprio que o diga.

De ladrão é melhor não correr. Se correr, é melhor que seja em ziguezague para dificultar o covarde tiro pelas costas. É melhor entregar o celular e a carteira. Alguns dias sem Facebook não matam.

Na guerra, não adianta nada correr, dizem que as balas sempre encontram os melhores soldados. Talvez seja melhor ser um mau soldado, cama desarrumada, bota ofuscada pela falta de graxa. Melhor ainda é correr da guerra, como fizeram os hippies durante a do Vietnã.

Pode-se correr para manter a forma. Correr no parque, em torno do lago, acompanhado pelo mar. Pode-se correr depois de nadar e de pedalar. Juro que um dia desses me torno um triatleta.

Já pedalo, corro e nado, mas nunca junto. Sempre um de cada vez. Vale?

Ultimamente, tem dado vontade de sair correndo. Cada milhão tungado na Lava Jato é um incentivo para correr uma milha. Cada merenda roubada, cada nova pedalada, cada licitação de carta marcada. A cara do Cunha me dá vontade de sair correndo. Sobre sua careca.

Sobre o Temer é diferente: a vontade é de botar o interino para correr. É roubalheira demais. Coisa para fazer de todo brasileiro um Forrest Gump em disparada do Oiapoque ao Chuí. Espero que corram muitos para Brasília, para terminar a faxina. O ideal mesmo é que a gente corra de maneira acelerada à novas eleições. Quem ficar em primeiro leva a presidência e ganhamos fôlego novo.

E Delacroix? Delacroix é pintor francês, aquele que retratou a famosa república francesa de seios de fora, empunhando a bandeira tricolor. Dizem que Delacroix ficou tão fascinado ao ver um quadro de Gericault, que saiu correndo pelas ruas de Paris.

O quadro? A Jangada da Medusa, que hoje mora no Louvre. Uma composição clássica com gente comum, com náufragos à deriva, no exato momento que enxergam a salvação. Passaram quase um mês no mar, eram cento e cinquenta homens e apenas quinze foram resgatados. Beberam a própria urina, se amotinaram, se mataram, comeram a carne dos mortos para sobreviver. Dois dos sobreviventes contaram sua versão para Delacroix, um marceneiro fez uma réplica da jangada. O naufrágio de 1816 se torna a obra seminal em 1819.

O episódio de terror é retratado com tal perfeição que bota Delacroix para correr. Quero correr como Delacroix. Por um livro, um filme, por um quadro, por uma boa propaganda. Botem-me para correr, por favor.

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