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Neil Gaiman é provavelmente a pessoa mais interessante que você vai conhecer

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NEIL GAIMAN
Chris Pizzello/Invision/AP
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Alto, magro, ligeiramente descabelado e sempre vestido em preto, ele parece um personagem de seu universo fictício, como disse um de seus seguidores no Twitter recentemente. Neil Gaiman é provavelmente a pessoa mais interessante que você vai conhecer.

Quando o escutei na Flip de 2008, lendo um trecho de Os Treze Relógios, de James Thurber, pensei: todos os contos do mundo deveriam ser lidos assim. Gaiman superou a língua presa da infância com a ajuda de uma professora exigente, e hoje os seus áudio books são prova de que a sua voz foi mesmo feita para contar histórias.

Em seu novo livro, a coletânea de não ficção The View from The Cheap Seats (A Visão dos Lugares Baratos, em tradução livre), há semanas na lista dos mais vendidos nos Estados Unidos, podemos conhecer um pouco mais sobre o homem por trás da voz. Ele conta sobre diferentes momentos de sua vida e carreira, e as pessoas que encontrou pelo caminho: Terry Pratchett, Stephen King, Diana Wynne Jones são alguns dos nomes.

The View ainda não tem previsão de lançamento aqui no Brasil, mas uma nova versão do seu romance Lugar Nenhum acaba de sair pela Intrínseca, com o conto Como o Marquês recuperou o seu casaco.

No segundo semestre de 2017, a editora deve trazer para o Brasil seu terceiro volume de histórias, Trigger Warning que, ainda sem título em português, saiu nos Estados Unidos e Reino Unido no início de 2015.

Quando nos encontramos para essa entrevista, ele estava hospedado numa casa construída sobre uma antiga ponte, na parte central de Londres. Da janela, uma paisagem idílica: o canal com dois ou três cisnes e um barco onde a vizinha escrevia, bebericando vinho branco, no início da noite.

Ele mostrou o caderno que usa (para contos ou romances, já que os roteiros são criados diretamente no computador) - um Leuchtturm clássico com capa de couro e páginas numeradas - e autografou alguns livros com uma Sharpie e sua caneta tinteiro.

Então saímos em direção à rua Hanway, onde antigamente ficava o Troy Club, em que Clube Diógenes de Hora de Fechar é baseado. Lá, entramos em um de seus restaurantes japoneses favoritos na cidade, o Kikuchi.

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Numa conversa regada a sushi, chá verde e um delicioso black cod, Neil falou sobre Terry Pratchett, Sandman, seus novos projetos e contos favoritos e por que não volta ao Brasil há oito anos.

HuffPost Brasil: Neil, no que você está trabalhando no momento?

Neil Gaiman: Estou escrevendo o quinto episódio da adaptação de Belas Maldições para a televisão. Não era algo que eu esperasse fazer um dia, pois Terry Pratchett e eu sempre dizíamos que faríamos juntos qualquer coisa relacionada ao livro. Então, oito meses antes de morrer, ele me escreveu um e-mail dizendo: Você precisa fazer isso. Eu quero muito ver e o único jeito de isso acontecer é se você o escrever. Ele morreu antes de eu começar. Então entrar nesse projeto foi uma coisa triste e estranha. Mas me diverte muito. São episódios de uma hora. E têm muita história. Criei algumas coisas novas, e esta é parte mais difícil, pois cada vez que invento alguma coisa, quero mostrar para Terry. E não posso.

Como era a dinâmica de vocês dois?

Aquilo de que mais sinto falta em Terry era a sua mente para histórias. Quando a narrativa trava, tudo o que quero fazer é entregar para ele, pois sei que vai dar um jeito, e aí tudo vai parecer óbvio. E sempre que escrevo algo inteligente, também quero mostrar para Terry. Eu era a sua plateia. Ele sempre foi a minha. Ele escrevia para me fazer rir. Eu escrevia para fazê-lo rir. É um presente post-mortem.

São tantos projetos ao mesmo tempo... Pode falar um pouco deles?

Deuses Americanos está em filmagem no momento. É impressionante. Alguns dias atrás, vi Gillian Anderson como Lucy. "Você quer ver os seios de Lucy?", me perguntaram. Foi algo que imaginei em 2001. O filme de Jon Cameron baseado em meu conto Como falar com garotas em festas já está em fase final de edição. A história é a primeira meia hora do filme, o primeiro ato. Então se torna algo mais. Uma das garotas alienígenas segue um dos meninos até em casa e a história vira um Romeu e Julieta com alienígenas e punks. Elle Fanning está absolutamente incrível. E temos Nicole Kidman, que faz a rainha punk. Alex Sharp interpreta Enn, o punk jovem.

Você é provavelmente um dos principais escritores multimídia da atualidade. Como se sente em relação a isso?

Tenho a chance de me maravilhar. Adoro poder fazer algo como Sandman Overture e então um romance, ou um roteiro para a TV. Ninguém parece se importar que o meu último livro era um graphic novel e que este é um volume de ensaios, discursos e introduções.

Na Flip, em 2008, quando Edney Silvestre perguntou por que fazia tudo isso, você respondeu: "Porque eu posso".

É verdade. Da última vez em que vi Tom Stoppard, ele falou sobre a Flip e sobre como eu perdi o jantar dos autores porque fiquei na fila de autógrafos. Havia todos aqueles escritores famosos, David Sedaris, Tom Stoppard, Richard Price, uma lista incrível, e ninguém tinha mais do que 20, 30 pessoas na fila. Então eu cheguei e tínhamos 1200 pessoas, vindas de São Paulo, do Rio de Janeiro... E eram todos adoráveis. O Brasil tem as pessoas mais adoráveis (não apenas porque te dão caipirinhas na chegada) e as segundas mais barulhentas do mundo (os filipinos vêm em primeiro lugar).

Nunca tive tanto medo de uma plateia como no Brasil em 1996, na minha primeira grande viagem ao país. Estava em São Paulo, tinha ido a uma adaptação de Sandman no teatro. Então percebi que algumas centenas de pessoas da plateia vinham em direção ao palco. Quando me dei conta disso, um dos seguranças me levantou e entregou a outro segurança, como se fosse um garoto. Foi a minha primeira experiência a la Beatles no país. Depois teve a famosa noite de autógrafos na FNAC. O Brasil faz caos melhor do que qualquer outro lugar no mundo. Um tipo especial de caos: com entusiasmo. Caos e alegria.

E por que não voltou até hoje?

Tempo. Por um lado, é fácil dizer, nossa, você faz tanta coisa, como consegue? Em parte consigo porque não voltei para a Rússia ou para o Brasil e nunca fui para a Índia. Recentemente criaram a hashtag #tragaGaimanparaaÍndia (#bringGaimantoIndia), e eu falei, bom me mandem o tempo para ir para a Índia e o tempo para escrever e eu estarei aí num segundo. Gostaria de ir para o Brasil se possível com Amanda (Palmer, sua esposa). Ela ama o Brasil e nunca conheceu o país. Sempre fala sobre como as Dresden Dolls são conhecidas por lá.

Uma das coisas que as pessoas perguntam é se haverá mais histórias de Sandman...

Acho que sempre haverá mais histórias de Sandman. Mais uma vez, é tudo uma questão de tempo. Adoraria escrever nada além de Sandman, mas aí nada mais seria feito. Passei um bom tempo entre 2012 e 2015 escrevendo Sandman Overture. E adorei a experiência.

Você me disse que a sua história favorita de Sandman era Ramadan. Por quê?

Uma das razões por que gosto tanto é que Craig Russel é um gênio. Juntos, conseguimos dizer algumas verdades sobre o Oriente Médio. O abismo entre memória e história. Ramadan é de 1993. Na época as pessoas reclamavam que Sandman não era um HQ engajado. E adoro o fato de que dez anos depois, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, a história foi reimpressa e vários jornais ao redor do mundo disseram que era. Pensei: só levei dez anos para me tornar engajado.

Será que um dia leremos um conto de Sandman?

Há tanto que eu poderia fazer. A próxima coisa que quero escrever é um romance. Faz bastante tempo que escrevi O Oceano No Fim do Caminho, e de qualquer forma, ele foi acidental...

Mas os seus contos também são maravilhosos. De quais contos seus você gosta mais?

Em Trigger Warning, me sinto especialmente orgulhoso de The Thing About Cassandra e Black Dog. São histórias em que não sabia aonde queria chegar até o fim. Há histórias que considero inteligentes: Neve, Vidro, Maçãs, Mistérios Divinos, Um estudo em esmeralda. A verdade é uma caverna nas montanhas negras tem arte.

Na introdução de Trigger Warning, você diz que toda vez que reúne contos em uma coletânea, aprende sobre o que escreveu nos últimos dez anos. O que aprendeu dessa vez?

Acho que aprendi que estou ficando mais profundo e estranho. Em Trigger Warning, uso menos o estilo de outros escritores. Aprendi também a ser menos chamativo. Olho para as histórias em Fumaça e Espelhos e, se estou fazendo algo perspicaz, quero que o leitor saiba. Ei! Olha para mim.

Já em Trigger Warning, em momentos assim, eu digo, ei...

É como truques de mágica. Mágicos jovens gostam de deixar óbvio que estão fazendo um truque. Mágicos mais velhos fazem milagres em silêncio. E você pensa: o que ele acabou de fazer? Eu vi as cartas o tempo todo e não tenho a menor ideia de como fez isso. Mais jovem, eu não tinha a autoconfiança para fazer algo assim sem me gabar. Tinha receio de que se eu não dissesse: olha, posso fazer algo inteligente, o leitor não perceberia...

neil gaiman

Em The View, você cita Einstein, falando sobre a importância de ler contos de fada para as crianças. Qual é o seu favorito?

Acho que muda bastante. É sempre aquilo que me obceca no momento. Atualmente, acho que a favorita ou a que mais me fascina é a história dos Seis Cisnes. Os irmãos transformados em cisnes e a irmã que não pode falar até que eles sejam libertados. É uma história tão, tão poderosa de sofrimento masculino e feminino e o que nós faríamos por amor e por dever. Adoraria um dia recriá-la.

Gostei muito de fazer João e Maria, que para mim teve muito que ver com refugiados, guerra e fome (Neil faz parte da campanha global das Nações Unidas #StandwithRefugees).

Em A Bela e a Adormecida, fingi que escrevia um conto de fada. São duas histórias juntas que te levam a lugares que você acha que conhece e quando percebe, chegou a um destino totalmente diferente.

Juntas elas trazem à discussão o tema empoderamento feminino.

Era um de seus objetivos. Foi por que decidi fazê-lo.

***

Na saída do restaurante, gravamos uma mensagem aos fãs brasileiros (infelizmente, a qualidade está longe de ideal. Afinal, era Londres à meia noite).

De lá, ele foi para Edinburg receber seu título honorário de Doutor de Letras e, 72 horas depois, já estava a caminho de Nova Iorque, para participar do programa de entrevistas com Seth Meyers na NBC.

Neil anunciou recentemente o seu novo livro, Mitologia Nórdica e disse também que está escrevendo um romance.

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