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O que Dilma Rousseff me ensinou

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DILMA ROUSSEFF
Brazil Photo Press/CON via Getty Images
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Como se esperava, o Senado aprovou o impeachment. Dilma Roussef é, oficialmente, ex-presidente do Brasil. Muito já se falou sobre o tema, de diversos prismas e certamente com vozes mais qualificadas do que a minha. No entanto, após acompanhar o debate dos últimos dias e, sobretudo, a defesa feita pela própria Dilma, em um exaustivo interrogatório de quase 14 horas, há, sim, uma ideia que eu gostaria de expor.

Precisamos, no âmbito da democracia que queremos manter, ainda que esteja duramente abalada, restaurar um mínimo de respeito não apenas pelo contraditório, mas pelas pessoas. Pode parecer estranho escrever isso no momento em que parte do País quer linchar todos os políticos, mas trata-se de premissa básica.

Assistindo a então presidenta responder de forma minuciosa a dezenas de questionamentos, vários repetidos, outros acusando-a de desonestidade e incompetência, não conseguia deixar de me impressionar com a firmeza de Dilma. Assim como me impressionei, posteriormente, com a incapacidade de inúmeros - quase todos - os que a criticam, em humanizá-la. E não me refiro aos políticos, mesmo os da oposição, os quais achei até respeitosos, ainda que esse respeito formal esconda uma ação violenta. Refiro-me a cidadãos comuns e a tantos e tantos colunistas. Vi referencias a uma Dilma alienada da realidade, professoral, mal humorada. E só.

Me veio então uma pergunta: seria realmente necessário esse grau de demonização? Porque a discordância política ganhou tamanho amargor, tamanho ressentimento, mesmo no dia da vitória desses críticos?

Não achei perfeito o depoimento da ex-presidenta. Acredito que falta, sim, alguma autocrítica. Houve e há fortes componentes externos nas dificuldades brasileiras - o que geralmente se tenta esquecer -, mas houve também erros de gestão. Dilma, em minha resumida opinião, foi centralizadora em excesso e não soube nem conduzir a política parlamentar nem se aproximar das grupos sociais responsáveis pela sua eleição. Acabou sendo mais popular e incisiva após ter sido deposta.

Entretanto, como é possível negar a coragem e a capacidade de luta que ela demonstrou? Como é possível obliterar das análises que se trata de uma mulher que há décadas se dedica à causa pública, sem disso ter tirado, segundo seus próprios adversários, qualquer proveito pessoal? Vimos alguém que entrou na vida adulta lutando contra a ditadura militar e quase morrendo por isso, muito mais do que podem alegar 90% de nós, de direita, esquerda, centro. Que sobreviveu à tortura para trabalhar pelo que acreditava ser o melhor para as classes menos favorecidas. Que assumiu uma candidatura à presidência sem ser política e tendo de se adaptar a uma linguagem que sempre lhe foi - e é - estranha.

Uma mulher que, agora, encarou de frente, sem demonstrar nenhuma fraqueza, aqueles que a retiram do poder. Que foi serena e dura. Que não reclamou de nada - ao contrário do Michel, que surta com vaias e ataques meia boca - diante de todo tipo de acusação. Mais importante até. Alguém que impôs a seus acusadores a dignidade que carrega. Ninguém conseguiu rebaixá-la ou desqualificá-la. Mesmos os mais agressivos críticos no Senado - incluindo a mítica Janaína Paschoal - baixaram o tom diante da figura da presidenta. Porque sabiam - e se não sabiam viam-se compelidos pelas evidências - que ali estava uma mulher digna.

Sinto muito, mas não é necessário concordar com ela, não é necessário nem mesmo ser contra o impeachment, para reconhecer isso. Trata-se do mínimo numa democracia. O respeito pelo adversário. Tenho amigos e tenho familiares que de mim discordam profundamente, na seara política. Isso não me impede de aceitar que eles também podem ser bem intencionados. Também podem ser pessoas decentes. Não preciso desconstruí-los para enfrentar as ideias que eles defendem.

Por isso não consigo entender os que dizem - ainda mais quando mulheres o fazem - que Dilma foi impessoal e não demonstrou emoção. Ora, é possível acreditar que não existe machismo nessa visão? E veja bem, eu não me ponho à parte nesse processo porque, oriundo da sociedade em que vivo sou certamente machista. Dilma é uma mulher forte. Que já enfrentou coisa pior. Vamos agora criticá-la por isso? Ela deveria então se mostrar frágil para angariar simpatia? É isso que esperamos de nossos líderes?

Achando-se o que se quiser achar, ela foi fiel a si mesma, do começo ao fim. E isso precisa ser louvado, qualquer que seja nossa posição política. Porque é isso que devemos esperar e exigir dos nossos representantes. Não é tudo e não é garantia de eficiência administrativa. Mas é muito.

Votei em Dilma e a critiquei duramente. Me senti insatisfeito em diversos momentos com a incapacidade da presidenta em desarmar as bombas que obviamente visavam sua destruição e a destruição de um projeto de governo. Mas nunca senti tanto orgulho do meu voto quanto ao assisti-la no Senado Federal. Teria sido capaz de reconhecer e louvar tal dignidade mesmo num adversário político. Me espanta que tantas pessoas não consigam, agora.

Não nos esqueçamos disso nas lutas que virão. O golpe parlamentar foi consumado. A agenda progressista foi derrotada e recuará. Recuos, contudo, não são eternos. Tanto dos erros quanto da força de Dilma, surgem lições que podem balizar uma esquerda que precisa - e vai - se reconstruir.

Agora depende de nós.

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