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Ante o podre sistema político brasileiro, a esquerda precisa falar ao povo

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POLITICOS
Beto Barata/ PR
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Nas últimas semanas, assistimos a uma sucessão de eventos que mostram a profundidade do dilema que vivemos, no Brasil e, particularmente, no estado do Rio de Janeiro. Dois ex-governadores presos e mais um ministro que cai - logo após ser apoiado por virtualmente toda a base do governo no Congresso -, levando com ele qualquer ilusão de republicanismo na atual gestão.

A resposta do campo progressista a tudo isso, no entanto, não pode ser leviana nem revanchista. O motivo pelo qual a esquerda - e, ainda que com visões muito diferentes, todos os bem-intencionados de centro e direita - critica o governo Temer, bem como os desvios do PMDB, não é a vingança. É a crença de que uma administração voltada para a parcela menos favorecida da sociedade é a base da Democracia.

Não existe desenvolvimento por desenvolvimento, nem causas pétreas em defesa desse ou daquele grupo de interesse. Existem as medidas que precisam ser tomadas para que a maioria da população tenha acesso aos bens materiais e imateriais, que a ela dão o poder de decidir os rumos das suas próprias vidas e do País. Existe o compromisso inalienável em proteger qualquer minoria da discriminação ou de qualquer tipo de restrição de direitos.

Pois bem, é com esses olhos - e não a cegueira por vezes hipócrita e individualista da raiva pela derrota -, que devemos analisar e nos mover pelo cenário de hoje.

Nesse sentido, foi de grande inteligência - e excelente prenúncio - a posição recente do deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ) acerca da política de incentivos fiscais do estado do Rio. Mais significativa ainda - e digna de elogios pela maturidade - por se dar em seguida à prisão do ex-governador Sérgio Cabral, de quem foi e é forte adversário político.

Freixo, essencialmente, afirmou que o problema não é a política de incentivos em si, que, avalia, pode ser fundamental para o desenvolvimento regional, mas a forma e o nível de transparência com que é aplicada.

Perfeito. Freixo disputou a última eleição e sentiu o peso que o impeachment teve sobre toda a esquerda. Viu a necessidade de lançar pontes. De dialogar, sim, com setores que a princípio o rechaçam. De evitar a armadilha que grupos de extrema direita tentam lançar, qual seja a identificação do PSOL e de toda uma esquerda democrática como representantes do comunismo stalinista e do ódio à iniciativa privada.

É um discurso feito menos para os grandes empresários do que para os médios e pequenos e a classe média. Um discurso feito para conquistar parcelas da sociedade cujos interesses reais se identificam com a esquerda, com os ganhos sociais.

Não podemos, por birra, por incapacidade de politização e de diálogo, abandonar essa batalha. Porque, se o fizermos, jogaremos a política e o futuro do País nas mãos de bolsonaros e afins.

De nada adianta a esquerda aderir festivamente ao espetáculo da Lava Jato, como se nos regozijássemos porque agora chegou a vez dos outros. É preciso firmeza e coerência. É preciso separar a Justiça, bandeira a ser retomada pelos progressistas, da revanche e da autofagia.

O debate a ser travado pela esquerda, em todas as esferas, é o do sistema, não o das pessoas. O que está em jogo, como vemos muito claramente no episódio Geddel, é a lógica que atravessa e sustenta a política nacional como um todo: não há separação entre público e privado, não há mais relação institucional minimamente estável entre as expectativas da população e a atuação de 90% dos políticos, gestores e partidos nacionais.

O objetivo - e a satisfação - com a prisões ou com a derrocada desse ou daquele nome são a falsa pauta do MBL e dos setores que, travestidos de modernidade, retomam o que há de mais atrasado no Brasil. Foi assim que operaram em prol do impeachment. Não podemos jogar o mesmo jogo porque nele jamais venceremos.

Avalio - e sei que atrairei críticas ao afirmá-lo - que o governo Cabral foi infinitamente superior ao de Garotinho. Há, certamente, muito a se questionar em termos de gestão (não entro aqui em outras searas), mas houve, em várias esferas, planejamento e busca pelo setor produtivo. Houve, em aliança com o PT, avanço em políticas públicas.

As UPAs eram demanda antiga da classe médica e são fundamentais. O secretário Beltrame, em que possam pesar diversos erros graves na maneira de ver a favela e seus moradores, foi uma escolha técnica e uma figura sempre aberta ao contraditório. Novamente, na análise de seus principais opositores - o PSOL -, era um avanço em relação à época de gestões milicianas.

Isso posto, mesmo o governo Garotinho teve aspectos a serem pensados. Afirmou-se, em 1998, como a esperança justamente da parcela mais pobre e do interior, vencendo um candidato que, à época, representava as elites políticas e o capital - César Maia. É ainda no governo Garotinho que começa a busca pela reindustrialização do Estado, com a atração de novos investimentos produtivos.

Não se trata aqui, por óbvio, de defendê-los das responsabilidades que venham a ser imputadas por uma Justiça - quero crer - isenta e republicana, que tenha como objetivo fazer valer a lei e não se tornar um agente político. Trata-se, pelo contrário, de não perder de vista que o grande dever do campo progressista é pensar o País e, no caso de quem, como eu, vive por aqui, o estado do Rio de Janeiro.

A ideia de que somos dominados por monstros abomináveis e o frenesi com a suposta punição dos mesmos alimenta a negação da política e a extrema direita. À esquerda, cabe pensar o dia seguinte.

O que virá após o fim da Lava Jato? Que propostas tomarão à frente? Que políticas públicas podem garantir que o país avance com justiça social?

Como sair da crise no Rio de Janeiro sem por a conta nos que recebem menos? Como unir a imprescindível valorização dos professores com o necessário salto de qualidade no ensino médio?

Como pensar o desenvolvimento sem à lúdica adoração à privatização demonstrada pelo governo Temer, mas, também, sem cair na esparrela autoritária - na qual o PT caiu - de que todo o poder emana do Estado?

Hoje, há uma curiosa aliança entre os que temem de morte a Lava Jato e os que a usaram para defender seus emergentes interesses políticos. Poderia-se até afirmar que velho e novo se unem, mas, na verdade, são ambos velhos em ideias, com diferenças, apenas, de idade.

O enfrentamento dessa aliança se dá falando para o povo e não entre nós. Se dá condenando a corrupção, mas como ponto de partida e não de chegada.

Quando vemos a Câmara de Deputados quase inteira, referendada por seu presidente, Rodrigo Maia, defender, na mesma semana, que tráfico de influência referente a um caso envolvendo dezenas de milhões de reais é uma bobagem e que anistia a caixa dois é uma boa para o País, compreendemos a profundidade do buraco em que estamos.

Não foram um ou dois, nem dez ou vinte deputados, defendendo o indefensável na calada da noite. Foi a maioria, defendendo um crime, à luz do dia, em entrevista coletiva.

É o sistema que está podre e é no sistema que devemos mirar. Com ideias, com propostas, com diálogo junto à população. É preciso ouvir antes de falar. É preciso sair da bolha.

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