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Sem reforma política, sobra Romero Jucá

Publicado: Atualizado:
ROMERO JUC
Antônio Cruz/Agência Brasil/Fotos publicas
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O vazamento do audio de Romero Jucá não traz nada de novo, apenas explicita o que há muito vem sendo dito por quem aborda a crise política brasileira com alguma racionalidade: precisamos reformar o nosso sistema e precisamos fazê-lo agora, sob risco de um total descolamento entre os governos - todos eles - e a população.

Para isso, no entanto, é fundamental que tenhamos uma discussão séria, sem demagogias, É preciso que saiamos do mundo cor de rosa que se tenta artificialmente criar com o advento de Michel Temer. O que temos visto nessa última semana é a comprovação explícita de que o impeachment não venceu no Congresso porque significava mudança estrutural.

A ideia de "limpar o País" pode ser verdadeira para muitos - espero que seja -, mas não foi ela que guiou a deposição de Dilma.

Não foi ela que guiou Jucá, não foi ela que guiou o PMDB, não foi ela que guiou o PSDB, não foi ela que guiou tantas opiniões em diversos meios de comunicação, não foi ela que guiou a Fiesp, não foi ela que guiou o MBL. O que guiou cada um desses grupos foi o desejo de tirar o PT do poder.

O governo Michel Temer não é - e não pretende ser - um governo tampão, que acalmará o Brasil enquanto o povo se prepara para uma nova escolha, em 2018. O governo Michel Temer e o PSDB, como sempre atabalhoado, querem redirecionar a política econômica, social, educacional, cultural.

Viram a oportunidade e usaram todas as armas que tinham - inclusive as muitas que o PT e Dilma alegremente forneceram. O impeachment foi isso. Uma luta pela mudança na direção do governo, travada não em sua arena legítima - as eleições -, mas, sob falso pretexto (as tais pedaladas), no Congresso Nacional.

As declarações de Jucá refletem isso. Acreditar que Lula sabia de tudo e que Temer não sabe de nada é de uma incoerência sem fim. Se um sabia o outro tinha que saber. Se a um pode ser dado o benefício da dúvida ao outro também pode.

É mais do que tempo de escaparmos das garras da política partidária como ela funciona hoje.

É tempo, sim, de renovar sindicatos e movimentos sociais.

É tempo de recusar a suposta liderança de grupos que querem, apenas, tomar o lugar de quem está no topo, sem mudar em nada as práticas que dizem criticar, como o MBL. Como se explica que um movimento que nasceu para combater a corrupção distribua candidatos por partidos que representam a corrupção, há décadas, sem nenhuma crítica ou compromisso programático? Como se explica que se calem diante dos desvios do governo Michel Temer?

Numa guerra, os soldados de ambos os lados tem mais semelhanças entre si do que com os oficiais aos quais servem.

Somos todos, em algum momento e muitas vezes sem nos darmos conta, manipulados. O sistema político, a maneira como as coisas tradicionalmente são pensadas e feitas tem sobre todos nós uma enorme influência. Um peso do qual nem sempre conseguimos nos livrar.

É hora de nos desfazermos desse peso. É hora de pararmos de jogar o jogo daqueles que não tem os mesmos interesses que nós temos. Há, sim, entre parte dos que são contra e parte dos que são a favor do impeachment, diferenças irreconciliáveis. Há visões de País irreconciliáveis.

Mas não há só isso. Existem, entre muitos que hoje se digladiam, fortes convergências. O sujeito que defende o liberalismo na economia, o sujeito que é socialmente conservador, o tucano que defende a social democracia, o cara que busca novas propostas na Rede, o jovem que vota no Psol, o intelectual petista que admira a gestão Haddad, todos esses podem ter diferentes ideias de sociedade e serem, ao mesmo tempo, a favor de uma reconstrução no modo de se fazer política no País.

Para que possam, eles mesmos e não uma classe envelhecida e morta, travarem seus embates.

Há pessoas, muitas pessoas - quero eu acreditar que a maioria - para quem a maneira de disputar o poder é, hoje, tão ou até mais importante do que chegar ao poder. Sabe por que? Porque elas já entenderam - o PT, com seus enormes acertos e enormes erros, ajudou-as a entender - que se forem usados quaisquer meios, se valer tudo, não se faz nada. Ou quase nada.

Foi a incapacidade de se transformar o sistema político em algo que represente, que canalize os anseios e embates da sociedade atual que levou o governo Dilma a uma crise tão devoradora.

A despeito do que aponte a bolsa de valores, a despeito de algumas manchetes e de alguns desejos, a despeito de acordos e expectativas, nada disso mudou com Michel Temer. As causas da decadência do nosso sistema político - e seus efeitos na economia - continuam aí. A paralisia que atingiu Dilma não foi fruto apenas de seus erros, como muitos querem fazer crer. Nem mesmo as bobagens que fez na condução econômica foram.

As causas da crise que vivemos são profundas. Elas vem da dificuldade incapacitante em darmos a um Governo a força e legitimidade para atuar sem acordos absurdos, que o levem a frustrar, de uma forma ou de outra, mais cedo ou mais tarde, não os que são contra ele e sim os que são a favor.

É essa paralisia que precisamos encerrar.

E para fazê-lo, precisamos defender a agenda política da sociedade. Ao menos da parcela da sociedade que quer avançar. Que quer efetivamente melhorar o País, para todos. Essa parcela, seja ela contra ou a favor de Dilma, precisa fazer valer o seu interesse. Não o interesse do PT, nem do PSDB, nem do PMDB.

Alguém acredita que era esse o objetivo do Jucá? Que é esse o objetivo do Aécio? Que é essa a razão da vida - e da ambição - do Temer? Alguém bem intencionado é capaz de afirmar, após ouvir os audios do ex-ministro do Planejamento, que qualquer partido aja diferente do PT? Alguém que não esteja tomado pelo ódio, que seja capaz de refletir, acredita, após ouvir a esse belo diálogo, que o PMDB, o PSDB ou qualquer outro, nos moldes com que operam atualmente, vão "moralizar" a Petrobras?

Temer é Jucá. Temer é Cunha. Temer é o fisiologismo e o absoluto descolamento da sociedade. Temer não é alternativa.

A alternativa é infinitamente mais difícil - e infinitamente mais duradoura. A alternativa é a reforma decisiva e inadiável dos sistema político. À esquerda, à direita, ao centro, no céu, embaixo da terra.

É essa a luta da sociedade.

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