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Dois impeachments em 25 anos e o Brasil que falha com a democracia

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DILMA ROUSSEFF FERNANDO COLLOR
Handout . / Reuters
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Olá pessoal,

Como blogger do HuffPost Brasil, e que postou muita coisa (inclusive com duras críticas ao pessoal favorável à manutenção da Dilma no governo) achei que, ao final do processo atual, tinha de voltar à escrever e expor alguns pontos que acho que vão permear o futuro da nossa jovem nação democrática.

Porque, convenhamos, duas rodadas de impeachment em menos de 25 anos mostra que em termos de democracia a gente precisa aprender bastante. A começar pela "galera" que eu, você, coxinha e mortadela promovemos a cada quatro anos para o Congresso Nacional.

Vamos aos pontos:

- Terminamos o processo que surgiu em 2013 com um racha no País: todos querem um Brasil melhor, mas cada um à sua forma. O grande culpado, neste caso, é a dialética "nós contra eles" que os dois lados, esquerda e direita, somada a uma educação política quase inexistente no País, criou um ambiente digno de Fla x Flu, Corinthians x Palmeiras.

- A questão central do tema, sobre ser golpe ou não: não sou jurista para julgar, porque até para eles a questão é polêmica. Mas a queda de Dilma, definitivamente, ultrapassa as pedaladas fiscais: Ainda que elas tenham acontecido em volume muito maior que outros presidentes, o que configuraria crime, sua derrocada vem da soma de quatro fatores:

A) Completa falta de traquejo com o poder, centralizando-o no momento que mais deveria formatar uma coalizão, no segundo trimestre do ano passado. E, caro amiguinho da esquerda, não me venha com a história de negociar com corrupto: o Brasil é assim desde 1500. Quer governar, fazer acontecer em Brasília? Vai ter que conversar com os dois lados da moeda, senão o sistema te arrasta para o limbo.

B) Estelionato eleitoral, uma vez que prometeu e apresentou um Brasil que não existia à época das eleições de 2014. O início do fim foi sua eleição a qualquer custo. Ainda que a coalização ajudaria a amenizar os efeitos, o fato é que se ela não fosse eleita talvez o PT e ela estariam mais fortes.

C) Má gestão econômica, gerando a maior crise do país em 125 anos, com recorde de desempregados, PIB em queda e afins. A economia é item sensível da percepção governamental no Brasil, e o resultado, somado ao quarto item, foram a incredulidade das pessoas e os movimentos nas ruas pedindo o fim do governo dela e do PT.

D) Lava-Jato: Claro que corrupção sempre existiu por aqui - lembra-se que os portugueses trocavam Pau-Brasil por espelhos para ludibriar os índios? E o PT talvez nem seja o partido que mais praticou atos ilícitos - o PMDB e sua configuração retalhada apresenta-se mais preparado para tal. Mas o fato é que a Lava-Jato tomou uma amplitude midiática inédita, com agentes importantes e próximos da presidência como cabeças do sistema.

- O que aconteceu foi simplesmente a reverberação de dois fatos: trazer o Michel Temer como líder da articulação no Congresso em abril e sua saída em agosto. Neste ponto o governo Dilma acusou que não tinha como negociar mais com deputados e senadores. Seu mandato na prática acabou em março, 90 dias depois de assumí-lo. Ao entregar a articulação política, ela deu de bandeja todos os caminhos para ter maioria nas duas casas. Ao tomar de volta no meio de uma grave crise, o cenário e oportunidade de cavar uma situação para tirá-la do Planalto.

- A queda de um presidente é como a de um avião: trata-se de uma soma de fatores. Assim como Collor caiu pela crise econômica que gerou, com tomada da poupança e super inflação, o retrocesso econômico de 2014-2016 cobrou seu preço à Dilma. O mercado, acreditem, é a força mais forte neste jogo de poder que a própria política: sempre que houve dois anos de recessão no Brasil, teve ruptura institucional: 1930 (Estado Novo), 1954 (suicídio de Getúlio Vargas), 1964 (deposição de Jango), 1982 (Diretas Já), 1992 (Collor). Uma vez que ele não está satisfeito, ele cobra a sua conta.

- Um ponto, no entanto, os dois lados tem razão: a Constituição brasileira foi rasgada ontem. Ainda que, pessoalmente, acredito que o impeachment foi legal (e sim, acho que uma recessão tamanha como enfrentamos, além das pedaladas, é preceito para retirar um presidente - por isso acredito mais no parlamentarismo), Ricardo Lewandoski, amigo pessoal dos fundadores do PT desde os anos 1970, acatou as influências vindas de São Bernardo e de Renan Calheiros para dar um "prêmio de consolação" à Dilma com a não-suspensão de seus direitos políticos.

- No final das contas, Dilma e Cunha continuam com seus destinos entrelaçados: dificilmente o tema da não-suspensão não vai salvá-lo em 10 dias. O resultado? Veremos novamente Cunha de volta ao Congresso em 2019, da mesma forma que Dilma provavelmente como senadora pelo Rio Grande do Sul. Achincalharam a Lei da Ficha Limpa, da mesma forma que criaram um precedente muito perigoso para a Lava-Jato e outras investigações que podem implodir o poder como é hoje - que é o que todos queremos.

- Claro que dois processos de impeachment em 25 anos mostra que falhamos como democracia. Ela nunca existiu de fato no país, e não vai existir enquanto tanto existirem uma grande faixa de corruptos no poder, quanto nós temos a capacidade de repetidas vezes os posicioná-lo por lá. Ainda vai demandar muita educação da gente para poder fazer um país melhor. Reforma política com os artistas atuais só muda a configuração do palco, não do espetáculo.

- Ao mesmo tempo, a agenda do Temer é bem clara desde o momento zero: ele vai priorizar a retomada da economia, cujas consequências o público verá no médio prazo: queda dos juros e da inflação, maior poder de compra, retomada do emprego, novas oportunidades. Longe de ser a rota mais popular, mas é a que tem de ser tomada agora. Com a Dilma não teríamos chances de evoluir como país; com Temer temos alguma oportunidade.

- Ao PT e quem é de esquerda, fica o papel nobre de ser uma oposição consistente, sem vomitar as palavras de golpe, democracia, misoginia e afins - que faz parte da retórica do "nós x eles" presente no DNA da marca desde sua fundação. Se deixar o PMDB e o PSDB governar o Brasil sem freio, não que os programas populares vão acabar, mas vai faltar algum senso de abraçar a população como um todo. Talvez esta seja a função mais importante do partido agora.

Para a gente, fica a reflexão que a democracia no Brasil não deu certo como ela está desenhada agora. Que, claro, o país vai evoluir e será muito melhor para ambos os lados - afinal a batalha é única aqui. A pergunta que fica é quando teremos educação e como para fazer a diferença e ter boas lideranças de fato.

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