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Donald Trump e o marketing que sempre vence

Publicado: Atualizado:
MARKETING DONALD TRUMP
Kai Pfaffenbach / Reuters
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Nesta altura do campeonato, tudo já foi dito sobre a vitória de Trump nas urnas - desde a incompreensão/compreensão da geografia e fatiamento sociológico dos votos até a insatisfação da maioria local e da "esquerda universitária" do Brasil - aquela mesma que faz manifestação na Vila Madalena e Largo da Batata, acha que via Facebook coloca a boca no mundo, mas não vai além das fronteiras dos seus grupos de WhatsApp.

Eu não vou polemizar em cima disso. Já basta o diálogo sempre tenso que tenho ao publica algo por aqui - já tive texto atrasado na véspera de eleição onde minha posição era contrária ao portal, outro que ainda não foi publicado porque critico a mídia em geral. Hoje não vou bater de graça - a vida é a arte de você saber escolher as guerras que valem a pena, e esta é perdida para mim.

Mas vamos falar de Trump e Hillary. Sob o viés que é a especialidade da casa - marketing e comunicação. Para resumir e ser sucinto, vou em pontos, ok?

1. Eu não queria ser dono de instituto de pesquisa nos EUA pelos próximos meses. Eles erraram feio, quase todos. O motivo: não souberam captar o eleitor silencioso, aquele que não proferiu o voto a Trump, mas detinha em si que, na hora de ver a cédula, iria de encontro ao "America Great Again". Terão de reinventar a partir de agora - e isso serve de aviso ao pessoal daqui também. Afinal, 2018 é logo aí.

2. Se tem o viés que uma vitória republicana é um passo à direita, pense que mais da metade do senado e 66% do congresso serão do mesmo partido a partir de janeiro. Um mundo mais conservador não é só uma tendência da ponte aérea Rio-São Paulo-Buenos Aires. Mas com o que aconteceu ontem, é um fenômeno mundial.

3. O inteligência de mercado explica claramente o porquê Trump venceu. Querem ver como?

a) O macroambiente social mostrava que havia um público insatisfeito com os rumos dos EUA: a classe-média trabalhadora que perdeu empregos e renda em virtude do processo de globalização e da crise de 2008 (gerida por um republicano: George W. Bush).

b) O macroambiente econômico trouxe melhorias, mas nada brilhante - igual aos tempos áureos do Tio Sam, entre os anos 60-90. Para ajudar, Obama é um cara legal, chamaria fácil para tomar uma cerveja em casa, mas não empolgou como gestor para este público.

c) Um ponto-chave: esta classe-média (percebam que não apontei nenhuma etnia ou gênero) é a maioria nos EUA.

d) Trump é um lunático? Talvez sim - e aí, sabe-se lá Deus aonde nos metemos. Mas olha... Burro ele não é. O discurso que ele e sua equipe realizaram é uma aula de storytelling: um cara fora do estabilishment (vide caso Dória em São Paulo), bem-sucedido (idem), que quer trazer o brilho da América Grande de volta aos olhos do cidadão - este carente, com menos dinheiro, emprego e oportunidades.

e) Em compensação, Hilary "jogou para a galera": abraçou as minorias, criou algumas (me recuso a chamar mulheres como minoria, mas tem quem jogue com isso) e conseguiu os votos. Mas antes de qualquer coisa era uma candidata fraca, com uma proposta que era o mais do mesmo que o americano não quer mais: um político com pedigree sem grandes mudanças no status quo de Washington.

f) A campanha de Trump foi muito mais autêntica, agressiva e fora do politicamente correto que a da Hilary. Sabendo que não teria o traquejo político da Sra. Clinton, ele jogou com as armas que tinha e com o discurso que acordasse a multidão. E quer saber? Fez com maestria: no mundo falou-se muito mais dos absurdos do Aprendiz do que as propostas da Hilary - esta quando virou pauta principal, estava enrolada com a má gestão dos mails investigados pelo FBI.

Presidente dos EUA não brota na cadeira da sala oval. Ele representa o momento e a opinião de uma maioria. E Trump soube lidar com este público com suas bravatas de uma forma que Hilary jamais conseguiu. O politicamente correto finalmente perdeu para a autenticidade, ainda que da forma mais estúpida possível - como boa parte do público local.

4. Ponto-chave #2: A grande verdade é que são dois candidatos muito fracos, e o que poderia ser uma agenda de propostas, análise e desenvolvimento virou um pugilato - neste ponto temos Freixo x Crivella como exemplo. Venceu por pontos quem agradou mais os juízes - eleitores e seus delegados.

O que isso, rapidamente porque o texto já ficou grande, representa aos brasileiros e ao mundo?

5. No Brasil, pouco. A conferir economicamente algumas oscilações de dólar de curto prazo. O discurso de conciliação pós-vitória já foi um sinal que ele não vai cometer loucuras com o mercado, que sempre "paga a conta" e cobra (quem leu artigos meus anteriores, sabe que foi ele que indiretamente tirou Dilma do Alvorada).

6. Para quem acha que estamos em vias de ter um Bossonaro como presidente no país, acredita em contos de fadas. Brasileiro vota mal (vide nosso congresso), também acredita em discurso vazio (Dilma-2014), mas nosso sistema de presidencialismo de coalização dificilmente dará lastro para tal guinada à direita. Veremos provavelmente os de sempre: Serra, Alckmin, Marina, Aécio e alguém da esquerda (Ciro - porque Lula não deve chegar politicamente vivo até lá), além dos nanicos. Isso se a Lava-Jato deixar.

7. Se pintar algum nome outsider do mundo político, seria Henrique Meirelles - o atual ministro já foi Banco Central e CEO global do BankBoston.

8. Uma coisa é fato: vivemos tempos conservadores no mundo todo. Um questionamento forte sobre o processo de globalização, uma vez que muitos perderam empregos e renda para produtores mais baratos, geralmente na Ásia. Uma nova ordem mundial pode surgir e, enquanto isso, o politicamente correto e seus defensores estarão em xeque.

Para terminar... Se você é de esquerda, ou fica maluco com resultados como o da eleição dos EUA, uma dica: o mundo não se resume a Aspicuelta, a Praça São Salvador, a Cidade Baixa de Porto Alegre. O Facebook e o WhatsApp. Fazer militância aos seus amiguinhos não vai mudar o mundo. Gastar sola de sapato a favor de um propósito, casa por casa, favela por favela, redneck por redneck talvez - uma pessoa por vez.

Aí quem sabe você acorde numa quarta-feira de novembro num mundo onde não tem um Aprendiz como o homem mais poderoso do mundo livre.

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