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Ao pai de Brock Turner, de outro pai

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BROCK
John Pavlovitz
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Prezado Sr. Turner,

Li a carta que o senhor escreveu ao juiz em prol de seu filho Brock, pedindo leniência em sua condenação por estupro.

É preciso que o senhor entenda uma coisa, e digo isso na qualidade de pai que ama seu filho muitíssimo, como o senhor certamente ama o seu:

Não é Brock a vítima aqui.

A vítima é a pessoa que Brock vitimou.

Ela é a pessoa ferida.

Brock é a pessoa que a feriu.

Se a vida de Brock foi "profundamente alterada", é porque ele alterou outro ser humano de modo horrendo; porque ele fez a escolha repreensível de tirar vantagem de uma pessoa para seu próprio prazer.

Esta moça vai lidar com o que aconteceu por muito mais tempo que o prazo embaraçosamente curto de seis meses, o tempo de duração da pena de seu filho.

Ela vai suportar o trauma indizível dos "20 minutos de ação" de Brock por toda a vida dela, e o fato de o senhor aparentemente não ter consciência disso é exatamente a razão por que temos um problema.

É por isso que rapazes continuam a estuprar mulheres.

É por isso que tantos homens pensam que podem fazer o que bem entendem com o corpo de uma mulher, sem se responsabilizar.

É por essa razão que tantas vítimas de agressão sexual nunca denunciam o que sofreram.

É por isso que o privilégio dos brancos é real e insidioso, e as pessoas que gozam desse privilégio normalmente agem como se isso fosse normal.

Não existe qualquer versão possível dos fatos em que seu filho deva ser a pessoa que desperta solidariedade.

Compreendo que o senhor tente humanizar seu filho em sua carta, falando ao juiz sobre suas comidas favoritas, sobre seus treinos de natação e sobre as recordações que são caras ao senhor, como pai dele -mas, para ser sincero, não dou a mínima, e, se a vítima fosse sua filha, tenho certeza que o senhor tampouco daria a mínima.

Imagino que essa moça também tivesse suas comidas e seus esportes favoritos e que seus pais tivessem planos maravilhosos para ela, planos que não incluíam este pesadelo.

Não existe versão alguma dos fatos em que seu filho deva ser a figura que desperta solidariedade. Ele é o agressor. Ele é o estuprador. Como pai, não consigo imaginar quão dolorosa essa realidade deve ser para o senhor, mas ela é a verdade, assim mesmo.

Brock precisa se cadastrar como infrator sexual porque ele agrediu sexualmente uma jovem que estava incapacitada. É por isso que temos essas exigências: porque um ato vil cometido contra outro ser humano é um ato demais; porque quando cometemos atos hediondos, não podemos simplesmente passar um pano por cima; porque, para sua própria proteção, as pessoas precisam ser informadas sobre a presença de outras em seu meio que já falharam tão gravemente com o respeito pela dignidade fundamental de outro ser humano.

A ideia de que seu filho nunca antes tinha violentado qualquer outra mulher ao lado de uma caçamba de lixo não é sinal de bom caráter da parte dele. Não merecemos ser parabenizados por termos estuprado apenas uma pessoa na vida. Não acredito que seu filho seja monstro, mas ele agiu como monstro e precisa ser responsabilizado por isso. É claro que essa decisão não representa o total das realizações de Brock em sua vida, mas é uma parte importante desse total, e isso tem importância enorme.

É claro que essa decisão não representa o total das realizações de Brock em sua vida, mas é uma parte importante desse total, e isso tem importância enorme.

E, para que fique muito claro, Sr. Turner, o que está em jogo aqui não é "bebida alcoólica e promiscuidade sexual". A questão importante aqui é que os homens jovens têm escolhas a fazer e essas escolhas os definem, mesmo que sejam feitas em momentos em que a tentação é grande e as oportunidades são abundantes. Na realidade, nossa humanidade se expressa mais profundamente quando, confrontados com essas condições, optamos pela integridade e a decência, abstendo-nos de fazer o que é fácil, mas errado.

Nós, como pais, não controlamos nossos filhos. A maioria dos pais entende isso. Apesar de todos nossos esforços em contrário, nossos filhos erram, tropeçam e fazem coisas com as quais jamais concordaríamos. Espero sinceramente que este tenha sido um caso assim, embora não seja o que sua carta dá a entender. A impressão passada por sua carta é que o senhor deseja mais solidariedade e boa vontade com seu filho que com a vítima do crime dele, e isso simplesmente não está certo para ela e para os jovens, homens e mulheres, que acompanham os fatos.
Veja a história dela aqui.

O senhor ama seu filho, e faz bem em amá-lo. Mas ame-o o suficiente para ensiná-lo a assumir a responsabilidade pelas decisões terríveis que tomou, para pagar a dívida que ele incorreu com a sociedade, conforme o que foi prescrito, e então a encontrar um caminho de redenção a percorrer, fazendo o grande trabalho no mundo que o senhor diz que ele vai fazer.

Por enquanto, porém, de pai para pai: ajude-nos a ensinar nossos filhos a serem melhores, dando um bom exemplo a eles.

Este post saiu originalmente no site JohnPavlovitz.com.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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