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Passei três meses dando aulas para crianças refugiadas. Eis o que eu aprendi

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REFUGEES SCHOOL BERLIN
Michael Gottschalk via Getty Images
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Hoje o plano era plantarmos um jardim na escola. Comprei terra e sementes de flores no mercado, e nos últimos quatro dias as aulas incluíram diversas brincadeiras e exercícios de vocabulário relacionados à jardinagem e cultivo de plantas.

Meus 12 alunos gritaram de alegria quando, em vez de seguir o horário diário normal, desenhei um jardim na lousa. Duvido que o entusiasmo deles tivesse qualquer coisa a ver com minha habilidade em desenhar. As flores que rabisquei com giz tinham mais semelhança com um marciano com tuberculose que com um campo florido no verão.

Mas as crianças estavam genuinamente entusiasmadas com a jardim, e tudo parecia que ia dar muito certo. Chegamos a fazer um test drive no dia anterior: tentamos plantar sementes de girassol em vasos pequenos. Até que quatro das crianças comeram todas as sementes.

Há três meses estou ensinando crianças de 6 a 8 anos da Síria, Iraque, Líbia e Romênia. Dou aulas para elas de língua alemã, matemática, conhecimentos gerais, esportes, artes e música. As crianças agora já conseguem escrever oito letras, conhecem os números até o 10 e conversam, muito animadas, quando lhes pergunto o que fizeram depois da aula no dia anterior.

Geralmente não as ouvimos falar sobre qualquer atividade recreativa -afinal, dez de meus 12 alunos vivem em um abrigo de emergência aqui pertinho. Elas geralmente passam as tardes ali.

Nos últimos meses a escola virou o centro da vida dessas famílias. As crianças passam quatro horas por dia comigo, e depois disso algumas delas vão a aulas especiais de recuperação, às quais seus pais também assistem.

Mas eu geralmente as deixo brincar nesse horário, enquanto faço exercícios alfabéticos com seus pais, que têm grande interesse em participar. Depois da escola, as crianças passam outras quatro horas no abrigo, onde jogam pingue-pongue e brincam de Lego com outras crianças ou andam de triciclo no pátio.

Elas são crianças normais, que querem brincar e escrever, que brigam e choram quando alguém lhes tira uma caneta.

Para a maioria das famílias, a escola é a única oportunidade de contato com o mundo externo em Berlim.

Isso é importante não apenas para a educação das crianças e para seus pais aprenderem o alemão: também ajuda as crianças que falam alemão e seus colegas a superarem o medo do contato com refugiados.

Depois de três meses eu já estava conseguindo me comunicar tão bem com as crianças que resolvi fazer um pouco mais. Achei que plantar as flores e mexer na terra pudesse ser ótimo para elas.

Andei entre as carteiras delas, pronunciando a palavra "solo" como se fosse um mantra, e as crianças a repetiram, achando o máximo. Nessa hora alguém bateu na porta: era a "fadinha dos dentes" local.

Quinze dias antes eu tinha recebido um memorando da escola me avisando que ela viria. Tinha lido o memorando e depois esquecido por completo.

Tentei pensar por um instante sobre como combinar higiene bucal com paisagismo, mas admiti que estava derrotado. O jardim teria que esperar. A luta contra as cáries era mais importante.

De qualquer maneira, assim que a senhora Zingst tirou um enorme jacaré de pelúcia da bolsa e começou a falar em escovação dos dentes, as crianças esqueceram nossos planos de plantar um jardim.

Passamos meia hora cantando sobre dentes que caem. Falamos às crianças sobre a importância de escovar os dentes diariamente. Até fomos todos escovar os dentes diante da pia.

Muitas das crianças vêm tendo cáries. Dois meses atrás a enfermeira da escola examinou os dentes delas e então recomendou uma ida ao dentista. Falei longamente com os pais delas sobre a importância da escovação dos dentes.

Quando digo "falei", me refiro a uma mistura de mímica e representação, com algumas palavras inseridas aqui e ali. Mas nós nos entendemos, sim. O contato com os refugiados me mostrou que existem muitas maneiras de se comunicar.

Depois de alguns momentos iniciais embaraçosos para ambas as partes, estamos achando normal -e muitas vezes divertido--fazer teatro improvisado para falar de coisas tipo um passeio ao zoológico.

As crianças ergueram suas escovas de dente, orgulhosas, e nos olharam com a maior alegria. A fadinha dos dentes recolheu seu jacaré e se despediu da classe.

Aprendi muito sobre as crianças e sobre mim mesmo nos últimos três meses.

Já era tarde demais para plantar, então fomos diretamente para o ginásio e passamos os últimos 30 minutos de aula jogando futebol.

Nos últimos três meses descobri muita coisa sobre essas crianças e sobre mim mesmo.

Quando fiquei sabendo que eu seria o professor da turma de acolhida, saí em busca de todos os livros possíveis sobre como lidar com transtornos pós-traumáticos e experiências ligadas à guerra. Pensei que eu daria aula para crianças assustadas e perturbadas, que me olhariam com olhos tristes e perdidos. Mas eu estava enganado.

Meus aluninhos são crianças como outras quaisquer, que querem brincar e escrever, que brigam e choram quando alguém lhes tira uma caneta. Eles podem ser insuportáveis, engraçadíssimos ou adoráveis. São crianças, simplesmente.

Meus colegas tinham me avisado que as coisas seriam difíceis. Falaram que essas crianças chegariam de comunidades sem escola e que nunca teriam estado numa escola antes. Falaram que eu teria que ser intransigente com elas. Mas era bobagem.

É claro que nenhuma das crianças esteve numa escola antes: minha turma é a primeira série. E, mesmo que muitos dos pais delas tenham apenas um nível de instrução muito básico, o instinto de aprender é forte em todas as pessoas, especialmente crianças de 6 anos.

Depois de desmentir a premissa fundamental de meus colegas, também descartei a recomendação de ser durão com as crianças.

Nem sempre é fácil trabalhar com 12 crianças que ficam estressadas pela simples conversa. Afinal, para elas estamos falando uma língua estrangeira. Mas há momentos que fazem meu trabalho valer muito a pena.

Como a hora no final do dia quando meus alunos se postaram orgulhosamente diante de mim, segurando as escovas de dentes no ar, para me prometer -em um misto de alemão e alguma língua incompreensível--que iam escovar os dentes diariamente daquele dia em diante.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Germany. Foi traduzido ao inglês e editado para o português.

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