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O que aconteceu quando eu parei de fazer de conta que tudo era perfeito

Publicado: Atualizado:
REMDIOS
DIMITRI OTIS VIA GETTY IMAGES
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Quando eu era criança e adolescente, meus pais me ensinaram que ninguém cuidaria de meus problemas para mim; eu mesmo teria que enfrentar e resolvê-los. Se eu tinha um problema com um professor, uma briga com um amigo, uma redação que eu não conseguia terminar, eles estavam ali para me ouvir e fazer sugestões, é claro, mas eles não tomavam conta e resolviam o problema eles mesmos - era eu quem tinha que encontrar uma solução. E fico grata a eles por isso.

Mas um subproduto estranho dessa valorização da autonomia é o fato de que minha família não acredita realmente em medicamentos - e eu também não.

Tomar Tylenol para uma dor de cabeça, Lipitor para abaixar o colesterol, tudo bem. Mas medicamentos para a mente? Nem pensar. Talvez seja uma coisa geracional; talvez seja orgulho; talvez seja uma reação à hipermedicamentação que acontece na sociedade de hoje, mas, seja lá porque for, a atitude da minha família em relação aos medicamentos psiquiátricos (e à terapia de modo geral) calou fundo em mim.

Tão fundo que, apesar de eu gostar de pensar que de modo geral sou uma pessoa de cabeça aberta - e de achar que se alguma coisa dói, a gente deve buscar uma maneira de acabar com a dor --, cresci acreditando que não precisamos de comprimidos para resolver nossos problemas de cabeça (com a exceção, é claro, de transtornos mentais "sérios" como esquizofrenia, transtorno bipolar, etc - ou seja, coisas que acontecem com "outras pessoas").

Precisamos ser fortes e não precisar desse tipo de ajuda.

Ou eu, pelo menos, deveria ser.

O mais estranho de tudo é que estudei neurociência cognitiva na faculdade - ou seja, as bases biológicas dos comportamentos psicológicos --, de modo que estou informada sobre os mecanismos neurais muito reais que contribuem para as condições psicológicas que as pessoas comuns sofrem.
"Sou inteligente", pensei. "Tenho consciência do que acontece comigo. Estudei neurociência cognitiva, afinal. Um pouquinho de ansiedade não vai me derrubar."

Passei boa parte de meu tempo na faculdade estudando as chamadas "síndromes fantasmas" - as formas mais brandas dos principais transtornos mentais, que assolam tantos de nós e acabam sem tratamento porque não são tão visíveis quanto suas "parentes" mais dramáticas - e sei que essas síndromes são reais e causam problemas reais na vida das pessoas. Sei que foram desenvolvidos medicamentos altamente eficazes para tratar essas síndromes.

Mesmo assim, uma parte de mim pensava que, para uma pessoa "normal" (como eu, suponho, se bem que eu saiba que a palavra "normal" não deve ser usada levianamente), tomar um comprimido para enfrentar uma depressão ou ansiedade - problemas que praticamente todo o mundo enfrenta em algum momento - seria, bem, seria sintoma de preguiça. "A saída mais fácil".

Sou inteligente", pensei. "Tenho consciência do que acontece comigo. Estudei neurociência cognitiva, afinal. Um pouquinho de ansiedade não vai me derrubar.

Eu estava enganada, tanto ao pensar que minha ansiedade era apenas "um pouquinho" quanto a poder enfrentá-la sem nenhuma ajuda. Mas levei bons dez anos para chegar a essa conclusão. E o que finalmente me levou a isso foi quando reconheci de uma vez por todas que aquilo que eu estava sentindo estava muito distante do espectro do que pode ser visto como "normal" (porque algum grau de ansiedade não apenas é inevitável, como é benéfica, ajudando-nos a fugir de ursos que encontramos na floresta ou coisas do gênero).

Entendi, finalmente, que minha ansiedade era patológica: atrapalhava meu sono, meus relacionamentos, minha vida. Não era algo com que eu pudesse - ou devesse - lidar sozinha.

Acho que um dia eu finalmente fiquei farta de me sentir assim.
Venho hesitando em tratar deste assunto porque (deixando de lado minhas ideias preconcebidas profundamente enraizadas que vêm de minha infância e minha relutância em falar de algo tão pessoal) eu acredito realmente que a medicamentação excessiva é um problema real de nossa sociedade, e a última coisa que quero é contribuir para esse problema.

Porém - e é um "porém" grande -a mudança que senti nas últimas semanas é tão extrema que hoje me sinto à vontade em dizer que a decisão de finalmente apelar para medicamentos é uma das melhores que já tomei na vida. E não estou exagerando.

Eu estava enganada, tanto ao pensar que minha ansiedade era apenas "um pouquinho" quanto a poder enfrentá-la sem nenhuma ajuda. Mas levei bons dez anos para chegar a essa conclusão.

Qual era meu grande medo? Acho que eu tinha medo de me sentir "dopada", medo que os remédios entorpecessem minhas sensações e emoções e me convertessem em algo diferente do que sou realmente. Eu morria de medo de que meus filhos crescessem com uma mãe ausente, alguém que olhasse para o mundo com olhos vidrados e nunca os enxergasse realmente.

Pode ser dramático, mas era isso que eu visualizava. Mas o que tenho sentido não é nenhum entorpecimento das emoções.

Pelo contrário, eu diria que é um aguçamento da realidade, porque nas últimas semanas a preocupação eterna de pensar em "e se?"deu lugar à constância confiável daquilo que é.
Ainda fico estressada. Ainda fico preocupada. Ainda fico frustrada com meus filhos e impaciente com meu marido. Mas esses sentimentos não me dominam. Pela primeira vez em muitíssimo tempo, parecem normais. Parecem reações racionais ao mundo que me cerca.

A impressão que tenho é que estão sob meu controle.
Antigamente minhas preocupações gritavam tão alto em minha cabeça que eu não conseguia ouvir mais nada - com certeza nada que se aproximasse de lógica.

Mas agora, pela primeira vez em muitíssimo tempo, consigo refletir e analisar algum temor que eu tenha e, então, ou lido com ele ou o deixo de lado para ser explorado em algum momento futuro.

Longe de me sentir dopada, estou com a cabeça melhor do que me sentia havia anos. E o efeito que essa clareza mental vem tendo sobre minha vida - especialmente sobre minha relação com meu marido - é notável.

Posso me preocupar com o trabalho, mas consigo deixar essa preocupação de lado e brincar com meus filhos antes de eles irem dormir. Posso discutir com Kendrick e explicar o que sinto, em vez de gritar com ele.

Eu tinha medo de outra coisa, uma coisa ainda mais assustadora: que tomar um comprimido significasse que eu estaria alterando minha identidade, de alguma maneira mudando minha descrição de "Alguém que tem as coisas sob controle" para "Alguém que tem problemas".

Mas, depois de escrever o post em que falei de minha decisão de recorrer a medicamentos, recebi inúmeros e-mails de leitores dizendo que enfrentavam ansiedade mas tinham medo de ser estigmatizados se falassem sobre isso e, especialmente tinham medo que outras pessoas descobrissem que elas estavam procurando ajuda médica.

Então entendi que o fato de eu também ter medo desse estigma é exatamente a coisa que eu preciso escancarar para o mundo.

Hoje percebo que passei anos determinada a travar a batalha apenas com minhas próprias mãos, em vez de procurar outras ferramentas que eu não apenas "podia" usar, mas eram necessárias.

Não estou dizendo que as ideias com que fui criada são "ruins", longe disso. Isso me ensinou a encarar os problemas de frente, em vez de ficar apenas no superficial e esperar que acontecesse algum milagre para resolver tudo.

E acho que essa minha criação foi o que acabou permitindo que eu fizesse esta mudança agora, que eu derrubasse uma ideia tão arraigada que não pôde ser modificada por anos de estudo sobre os fatos dos transtornos psicológicos.

Hoje percebo que passei anos determinada a travar a batalha apenas com minhas próprias mãos, em vez de procurar outras ferramentas que eu não apenas "podia" usar, mas eram necessárias. Assim, talvez não se trate de uma revisão de minhas premissas básicas, mas de uma evolução.

Em vez de focar sempre a ideia de que "posso dar conta sozinha", eu me esforço para procurar uma solução para o problema, seja qual for essa solução.

Existe uma diferença entre uma muleta e uma ferramenta. A muleta carrega o peso para você e talvez a impeça de desenvolver a força necessária para você carregar o peso sozinha. Uma ferramenta só deixa você mais forte.

* Este post saiu originalmente no meu blog, Ramshackle Glam. Jordan Reid é editora-fundadora do Ramshackle Glam e autora de Ramshackle Glam (2014) e Carrying On (2016). Você pode segui-la no Instagram@ramshackleglam.
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