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Não podemos mais ignorar os assassinatos de mulheres transgênero no México

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A absolvição do assassino de Trayvon Martin, em 2013, deu início ao movimento #Black Lives Matter. O que começou como uma discussão pública sobre o assassinato de negros pela polícia nos Estados Unidos se transformou num movimento que denuncia a desumanização das vidas negras e exige respeito aos seus direitos. Esse movimento de resistência revelou que o racismo não acabou junto com o fim das leis de segregação e que suas vítimas - mulheres, gays, portadores de deficiências ou imigrantes -- ainda sofrem de várias maneiras.

Paola Ledezma, Itzel Durán e Alessa Flores são os nomes de três mulheres transgênero assassinadas no México nas duas últimas semanas. A responsabilidade por esses assassinatos vai além de quem disparou os tiros, as esfaqueou ou as estrangulou. Somos cúmplices como sociedade. Pelo menos 256 transexuais foram assassinados no México desde 1995. E temos de assumir a responsabilidade.

Segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, crimes de ódio contra grupos específicos têm impacto simbólico e ocorrem em contextos sociais permissivos.

  Os assassinatos de Paola, Itzel e Alessa têm impacto sobre todas as mulheres trans: são lembranças trágicas de que as mulheres trans mexicanas correm o risco de serem assassinadas antes de completar 35 anos.

Os responsáveis pelos atos de violência contra mulheres trans têm o objetivo de puni-las por terem identidades e corpos diferentes do que sempre entendemos como homens e mulheres.

Os assassinatos de Paola, Itzel e Alessa têm impacto sobre todas as mulheres trans: são lembranças trágicas de que as mulheres trans mexicanas correm o risco de serem assassinadas antes de completar 35 anos. Tais incidentes nos tornam cúmplices. Por que o caixão de Paola tem de bloquear o trânsito para lembrarmos que a vida dos transexuais também têm valor?

Crimes de ódio no México ocorrem num contexto em que organizações como a Frente Nacional pela Família, um movimento contra o casamento gay, e várias igrejas cristãs usam mentiras para mobilizar milhares de pessoas.

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Apenas um dia depois da morte de Alessa, Fernando Guzmán, membro da Frente Nacional pela Família, deu declarações ultrajantes.

"A ideologia de gênero tenta destruir a dualidade sexual sob o pretexto de tornar homens e mulheres iguais, buscando uma família em que seres masculinos e femininos não existem, somente uma grande variedade de orientações e tendências sexuais. O propósito subjacente é a destruição da família natural por meio de uma nova dialética que (confunde) homens com mulheres e crianças com seus pais", disse ele numa entrevista.

Com a ideia de que a família "natural" está ameaçada, a Frente tenta degradar experiências trans e retratar esse segmento da população como anormal, por não se encaixar em seu conceito de "masculino" e "feminino".

O estigma que eles reforçam divide famílias e perpetua a violência. Os pais de Paola não foram ao enterro da filha. E o anúncio da morte de Itzel insistia que este não era seu nome verdadeiro, porque ao nascer ela foi registrada como homem.

Temos de agir e acabar com o discurso discriminatório que a Frente Nacional pela Família e suas igrejas aliadas estão disseminando. A segurança das mulheres trans está sob ameaça constante, e sua dignidade é violada diariamente com a discriminação que ainda não erradicamos das ruas, escritórios, escolas e lares. Para deixar de ser cúmplices, temos de agir contra essa impunidade e lembrar que as vidas dos trans também têm valor.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost Mexico e traduzido do inglês.

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