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Quase soronegativos

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HIV
BigFive Images via Getty Images
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Nós não morremos mais de aids. Nós não vamos viver menos que uma pessoa que não tem HIV. Com tratamento antirretroviral e carga viral indetectável, nós não transmitimos o HIV através de relação sexual. Temos o código genético do vírus integrado em algumas células, mas provavelmente seremos a geração de soropositivos que vai experimentar a cura.

É verdade, muitas pessoas com HIV ainda morrem por conta de complicações decorrentes da aids, porém, a maioria delas são aquelas que não tem acesso ao tratamento antirretroviral, infelizmente, como ainda é o caso de muitas regiões na África, por exemplo, ou aquelas que foram diagnosticados tarde, já no hospital, com algum doença oportunista relacionada à aids.

Por hora, também é verdade que ainda vivemos um pouco menos que as pessoas que não têm HIV. Uma pessoa soropositiva e que alcançou 50 anos de idade entre os anos de 2006 a 2014 tem uma expectativa de vida de 72,5 anos, enquanto uma pessoa soronegativa pode esperar viver até os 80,2 anos. Todavia, uma pessoa soropositiva que fez 50 anos de idade entre 1996, o ano em que a terapia antirretroviral combinada de três medicamentos foi implementada, a 1999 poderia esperar viver somente até aos 67,8 anos. Para olhar para o futuro, colocamos esses números num gráfico e assim podemos presumir, sem exageros, que a atual geração de jovens soropositivos não vai viver menos que soronegativos.

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Sobrevida, em anos, entre as pessoas de 50 anos de idade com e sem HIV.

 
O mesmo vale para a incidência de cânceres, relacionados e não-relacionados à aids, que ainda têm uma taxa mais elevada entre as pessoas que vivem com HIV do que entre as pessoas soronegativas. Uma das possíveis razões para essa taxa mais elevada é a inflamação crônica, um assunto pontual ainda não totalmente compreendido pelos médicos e cientistas, a qual é um pouco maior em soropositivos e que, a longo prazo, acredita-se, pode trazer complicações ligadas à uma série de doenças, incluindo cardiovasculares, autoimunes, doenças hepáticas, renais e câncer.

Ainda assim, os gráficos já mostram, nos dias de hoje, um declínio das taxas de câncer entre soropositivos. Projetando para o futuro, não é exagerado concluir que em breve teremos a mesma taxa de incidência de cânceres que os soronegativos.

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Neste gráfico, a linha azul mostra a incidência de cânceres não relacionados com aids, enquanto a linha verde mostra a incidência de tipos de câncer relacionados à aids, ao longo do tempo.

 
As pessoas com HIV que serviram como referência para os gráficos acima são aquelas que passaram pelo começo da epidemia de HIV/aids, quando não havia tratamento e, quando este surgiu, ainda era muito agressivo, tóxico e, muitas vezes, não tão eficaz.

Aliás, de tão agressivos e ineficazes, os primeiros tratamentos antirretrovirais não foram capazes de salvar a vida da pequena Kat Schurmann, filha adotiva do casal Schurmann, cuja história está no filme brasileiro Pequeno Segredo, que concorre agora por uma indicação ao Oscar 2017 de filme estrangeiro. Kat nasceu em 1992, antes do surgimento da terapia antirretroviral, infectada com o HIV por transmissão vertical, nome que se dá à transmissão do HIV durante a gravidez, parto ou amamentação de uma mãe soropositiva. Ela faleceu em 29 de maio de 2006, aos 13 anos de idade, devido à complicações decorrentes do HIV.

 
Hoje, para viver quase como soronegativos, ainda precisamos dos antirretrovirais. São o mesmo tipo de medicamentos que aqueles implementados em 1996, embora, atualmente, eles sejam mais modernos, mais simples de ingerir e menos tóxicos – por isso, com menos efeitos colaterais, incluindo ausência de lipodistrofia, uma condição comum decorrente dos primeiros coquetéis de antirretrovirais, que faz com que a gordura corporal seja realocada pelo organismo de maneira desproporcional.

Hoje, para controlar o HIV precisamos somente de um comprimido por dia, o qual é composto por três medicamentos diferentes, que inibem os processos que o vírus usa para se replicar dentro do organismo. Em breve, esse único comprimido deve passar a conter apenas dois ou, quem sabe, um único medicamento antirretroviral, o que deve reduzir ainda mais a toxicidade destes medicamentos e, muito possivelmente, melhorar ainda mais os indicadores que falamos acima.

Os antirretrovirais atuais são muito mais avançados que aqueles a que Kat Schurmann teve acesso. Com eles, não é difícil manter o vírus no sangue em quantidade tão baixa que é indetectável, mesmo pelos exames mais precisos de laboratório. No Brasil, de acordo com o último Boletim Epidemiológico, aproximadamente 88% das pessoas que vivem com HIV e que fazem tratamento antirretroviral no país têm carga viral indetectável.

Sob tratamento antirretroviral e com o vírus indetectável no sangue, também não há vírus detectável no fluído pré-ejaculatório e há em baixa quantidade no sêmen. Isso provavelmente é o que faz com que, desde o começo da epidemia, nunca tenha sido observada uma única transmissão sequer a partir de pessoas que vivem com HIV, fazem tratamento antirretroviral e têm carga viral do HIV indetectável no sangue, muito embora já tenham sido feitos longos e extensos estudos entre milhares de casais sorodiscordantes (quando só um dos parceiros é positivo para o HIV) que optam por não fazer uso do preservativo. No último destes estudos, o Partner, foram acompanhados 1.166 casais sorodiscordantes, vários deles homossexuais, em 75 centros clínicos espalhados por 14 países europeus e, assim como nos estudos similares anteriores, não foi documentada uma única transmissão do HIV a partir de quem faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável. Zero transmissão.

Essa realidade faz com que a concepção natural, sem inseminação artificial, sem camisinha, já seja uma opção para casais sorodiscordantes que planejam ter filhos. Portanto, no sexo, soropositivos em tratamento e com carga viral indetectável já são como soronegativos. "Derrubou a carga viral, não tem como transmitir o HIV. Esse hoje é o mecanismo mais poderoso de prevenção que existe", explicou Fábio Mesquita, ex-diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, durante o X Curso Avançado de Patogênse do HIV, que aconteceu na Faculdade de Medicina da USP, em 2015. "É mais poderoso que a camisinha."

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Por conta desta eficácia do tratamento como prevenção na transmissão do HIV, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, o Unaids, estabeleceu uma meta, que determina que "90% de todas as pessoas vivendo com HIV conheçam seu status; que 90% das pessoas diagnosticadas recebam terapia antirretroviral; e que 90% das pessoas recebendo tratamento possuam carga viral suprimida e não mais possam transmitir o vírus".

A Suécia foi o primeiro país a alcançar essa meta. Se ela for alcançada por mais países, a epidemia de HIV/aids será virtualmente controlada até 2030, com apenas 200 mil infecções por ano, ante as 2,1 milhões de novas infecções em 2015. Restarão com HIV no mundo as atuais 36,7 milhões de pessoas soropositivas, aproximadamente, dentre as quais eu estou incluído.

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Em 2030, qual será a diferença entre soropositivos e soronegativos? Se os gráficos acima estiverem certos, muito pouco: continuaremos a não morrer de aids, teremos uma expectativa de vida igual a de soronegativos e, ao invés de um comprimido por dia composto por três medicamentos, provavelmente teremos uma única pílula composta por um único antirretroviral – quem sabe, administrável em doses mais espaçadas que a atual dose diária. Para ser aprovado pelas autoridades de saúde, esse tratamento terá de continuar a manter a nossa carga viral indetectável e, por isso, continuaremos incapazes de transmitir o HIV.

Até lá, esperamos que viajantes com HIV não sejam mais deportados ou impedidos de entrar em alguns países, como ainda acontece hoje. Esperamos que mulheres com HIV na Rússia não sejam mais presas por não revelar sua condição sorológica aos seus parceiros e que elas não sejam mais esterilizadas à força em Uganda, tal como tem acontecido enquanto você lê esse texto. Esperamos que não hajam mais leis criminalizantes, que ainda hoje punem desproporcionalmente aqueles que vivem com HIV – como em alguns estados americanos, por exemplo, que já chegaram à condenar soropositivos que cuspiram ou morderam outras pessoas a 35 anos de prisão, e nos Emirados Árabes, onde um soropositivo está preso há mais de 10 anos por ter HIV.

Enfim, esperamos, tal como a meta proposta pelo Unaids, que nos próximos anos não haja mais estigma, discriminação e preconceito contra quem vive com HIV. Nesse cenário, o que é que restará de diferente?

"Carregamos cerca de 100.000 pedaços de DNA que vieram de retrovírus, conhecidos como retrovírus endógenos. No total, eles compõe estimados 5 a 8% de todo o genoma humano", explica uma matéria da National Geographic, de 2015, que teve a colaboração de Carl Zimmer, autor do livro A Planet of Viruses.

"Os cientistas sabem que esta fusão aconteceu porque os vírus têm genes distintos. Quando os cientistas vasculham o genoma humano, às vezes se deparam com um trecho de DNA que carrega marcas de um vírus. O tipo mais fácil de vírus de reconhecer são os retrovírus, um grupo que inclui o HIV. Retrovírus fazem cópias de si mesmos infectando as células e, em seguida, usando uma enzima para inserir seus genes no DNA da célula hospedeira. Em seguida, a célula lê o DNA inserido e faz novas moléculas que se montam em novos vírus.

"Na maioria das vezes, os retrovírus se comportam como outros vírus, saltando de um hospedeiro para outro. Mas, por vezes, um retrovírus vai parar no genoma de um óvulo ou do esperma. Se, em seguida, ele terminar em um novo embrião, então o embrião vai levar uma cópia do vírus em cada uma de suas células, incluindo o seu próprio óvulo ou esperma. E assim por diante, de pais para filhos, aos netos.

"Não há como ter certeza de que estamos livres de novos retrovírus endógenos e se o HIV ou outros novos retrovírus irão dar um jeito e integrar nossos nossos genes" – se isso acontecer, bem, então os soronegativos é que vão ficar mais parecidos com soropositivos.

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