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A Chape sonhava mais alto a cada vitória

Publicado: Atualizado:
CHAPECOENSE
Heuler Andrey via Getty Images
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Peguei o caminho da minha antiga casa na manhã desta quarta-feira (30). Viajar para a terrinha sempre foi um momento feliz. Não era o caso hoje. A vida foi sacudida na madrugada da última terça-feira como nunca.

A cada minuto que passa um pedaço da tragédia se processa dentro de mim. É o falar que faz tudo se transformar em realidade. Ontem alguém disse, não recordo o autor infelizmente, que a gente pode torcer para o time que for, mas na vida somos todos como a Chape. No cotidiano da maioria de nós brasileiros, nada surge de graça. É preciso lutar para conquistar. Ficamos teimando contra esse destino que parece não querer nos deixar ir além. Remamos contra a maré. A Chape realmente vinha mostrando o valor de quem acredita e trabalha. Também foi assim que minha mãe, Eloir, ensinou seus filhos em casa, a sonhar com os pés no chão.

O atual time da Chapecoense tinha um tempero disso. Queria deixar para trás a pecha de "time pequeno". Levava ainda um tanto da experiência administrativa de pequenos e médios empresários da cidade misturada a esse jeito de encarar a vida numa cidade do interior. O toque final sempre ficou pelo amor da torcida. Não à toa, o hino que nós cantamos diz que o time "leva consigo o coração de uma cidade".

Todos que nos deixaram ontem tinham a Chape cravada no peito. Com todo o respeito às gerações anteriores que vestiram a camisa verde e branca, o grupo de 2016 foi um dos que mais encarnou esse espírito. A velha alma aguerrida dos índios kaigang, simbolizada no nosso mascote, o índio condá. Do roupeiro à diretoria, todos se dedicaram intensamente nos últimos cinco anos para que o trabalho chegasse a esse momento de conquista.

A cada vitória, sonhávamos mais alto. Nas inúmeras mensagens solidárias que recebi desde ontem, amigos cariocas e paulistas lembraram que conheceram a Chape por mim. Acho que nem eu mesma conseguia ver o tamanho da minha empolgação. Devo ter sido absolutamente irritante quando a Chape aplicou aquele 5 a 0 no Palmeiras, no ano passado. Ou ainda pior na goleada de 5 a 1 em cima do Inter, em 2014.

Esse clima de união aproximou todos e transformou as relações profissionais em laços mais profundos. Quando a Chape conquistou o Campeonato Catarinense em maio, a festa de comemoração em uma boate da cidade reuniu as nossas famílias. Jogadores, funcionários, parentes, todos. Crianças corriam pelo salão em meio ao samba tocado pelos pais. A festa era comandada pelo atacante Kempes e pelo zagueiro Rafael Lima. Todos cantaram felizes ao longo daquela madrugada como se não houvesse amanhã.

Festa semelhante aconteceu há apenas sete dias, quando a Chape conquistou a vaga para a final da Sul Americana no jogo contra o San Lorenzo. Ninguém conseguia dormir. Já estávamos comprando passagens, organizando viagens e planejando a grande final em Curitiba, no dia 7 de dezembro. Quem como eu cresceu frequentando as arquibancadas do estádio, nunca imaginou que esse dia ia chegar assim tão rápido. Pode não parecer, mas foi. Foi tudo muito rápido.

Era a coroação do trabalho da diretoria coordenada pelo Sandro Pallaoro, presidente da Chapecoense. Um homem simples que reuniu uma equipe competente para dar profissionalismo ao clube. Realizou o sonho do meu pai, Cezar, ao deixá-lo estruturar os trabalhos na categoria de base e permitir à Chape desenvolver novos talentos.

Todos os que estavam naquele avião fizeram muito por esse time. Deixaram um vazio que jamais será preenchido novamente. Porque dá para substituir jogadores e técnicos, mas não se substitui uma família e a família da Chape perdeu muito ontem.

Temos agora o dever de seguir em frente para honrar a memória deles que tanto fizeram jus ao hino do clube: "nas alegrias e nas horas mais difíceis meu furacão tu és sempre um vencedor".

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