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'Homem é assim mesmo': 8 passos para acabar com a cultura do estupro

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RAPE BRAZIL
Sergio Moraes / Reuters
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É preciso muito esforço para que possamos sair do ciclo violento em que vivemos. Para as mulheres é ainda mais difícil, pois elas são alvo de violências sistemáticas sobre seu corpo. Os 130 casos de estupro que acontecem diariamente no Brasil mostram que existe uma estrutura complexa sustentando uma sociedade doente. Uma cultura do estupro. E mesmo diante de números alarmantes, em que homens são os agressores em mais de 90% das vezes, sempre tem alguém tentando justificar um ato com a máxima: "homem é assim mesmo, não tem jeito".

Tem jeito, sim.

Pode parecer radical que se diga que todos colaboram para sustentar esse sistema, mas infelizmente não nos damos conta de que tudo está interligado. A violência contra a mulher, especificamente, possui uma base de sustentação. Para acabar com os estupros e assassinatos, é preciso acabar com a estrutura toda.

Fiz um pequeno apanhado de exemplos dos diversos níveis de violência que as mulheres sofrem, numa tentativa de esclarecer onde cada um de nós pode prestar mais atenção para acabar com esse ciclo:

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1. A base: educação machista

Criar um filho é uma responsabilidade da qual não temos sequer a real dimensão. E reproduzir machismo é tão natural que mães e pais precisam se policiar o tempo todo. É extenuante, mas necessário. Criar meninas empoderadas e meninos desconstruídos é estar atento às tantas influências externas que os jogam de volta no ciclo.

O que evitar: separação de gêneros nas brincadeiras, repreensão de meninas que se comportam de forma expansiva ("isso não é coisa que menina faz"), incentivo à violência entre garotos e dos garotos para as garotas. Fazer a menina limpar a casa enquanto seu irmão assiste TV, dizer a um menino que chorar é "coisa de mulherzinha".

2. As piadas misóginas

A gente cresce e o comportamento doente aprendido na infância vem junto. Essas piadas e ditos sobre mulheres servem apenas pra reforçar estereótipos. Por causa de piadas assim que mulheres têm mais dificuldades para ocupar cargos mais altos nas empresas - parece besteira, até alguém dizer que ela subiu porque deu pro chefe, ou que subiu porque trabalha "como homem".

O que evitar: Não conte, nem incentive, nem fique quieto quando alguém fizer uma piada machista. Ao apontar os pequenos deslizes que cometemos, criamos uma oportunidade para reflexão.

3. As cantadas de rua

Esse tópico parece sempre levantar polêmica, pois "como paquerar sem cantar alguém na rua?". Uma paquera é bem diferente de uma cantada. Paquera é parar pra conversar, criar um artifício para conhecer alguém melhor, é o flerte, que continua se for correspondido. Cantada de rua é assédio, é invadir o espaço de uma pessoa desconhecida e obrigá-la a ouvir o que você quer fazer com os peitos/bunda/vagina dela. Não é engraçado, nem bonito, nem charmoso, nem eficiente. É uma pífia demonstração de poder. Um desrespeito.

O que evitar: tudo. Desde um assobio até qualquer comentário sobre a aparência da pessoa, tudo tem que parar. Não há motivo algum para dizer a uma estranha na rua, da forma que for, que ela tá bonita. Respeite a estranha e não chegue perto.

4. O assédio e abuso sexual

Assédio sexual é mais uma demonstração de poder, mas diferente da cantada de rua, é com pessoas que se conhecem. Para as crianças, o bicho pega aqui, geralmente com algum membro da família ou amigos próximos dos pais. A sexualização infantil é uma realidade e cria traumas profundos. É preciso ficar de olho no comportamento delas com adultos e sempre levar em conta seus incômodos - um abuso pode estar acontecendo sem a gente saber. Um relato de abuso por uma criança não pode ser ignorado ou dispensado sem consequências. Para os adultos, as relações hierárquicas no trabalho são campo vasto para assédios.

O que evitar: Qualquer tentativa de sexualizar alguém no trabalho tem alto potencial de cair aqui. Passadas de mão em público, massagens fora de contexto, enfim, qualquer ato libidinoso não consentido é assédio. Com as crianças, fique atenta aos olhares e movimentos dos adultos. Nem todo tio legal é assediador, mas redobrar a atenção previne problemas futuros. E nunca, NUNCA pergunte a uma vitima de assédio que roupa ela estava usando. Isso é irrelevante. Ela não causou isso, não é culpa dela.

5. O abuso psicológico

Nem sempre a gente percebe quando está num relacionamento abusivo. O abusador, então, raramente se dá conta doa agressão que comete. Muitas vezes o que acontece é uma reprodução do relacionamento dos pais e, se este for de acordo com as regras mais antigas do patriarcado, temos a receita perfeita para a opressão feminina. O homem não respeita as opiniões da mulher, quer decidir por ela. Ele a engana e a confunde.

O que mais me preocupa aqui é como nossa sociedade valoriza o ciúme e o trata como prova de amor. "Ele é ciumento porque me ama muito". O ciúme levado às últimas consequências é a principal causa de feminicídios. E tudo começa nas discussões acaloradas sobre "quem é esse cara que tava falando com você?".

O que evitar: o famoso gaslighting. Diminuir a pessoa, dizer que ela está louca, que não disse o que disse. Tratar o parceiro como alguém menos capaz de tomar decisões. Usar o ciúme como estopim para uma agressão. Perseguir, ameaçar, censurar, gerar insegurança, mentir. Respeito entre parceiros é fundamental para a igualdade entre eles.

6. A agressão física

Mais uma forma de dominação do outro. A agressão física é estimulada entre homens ("vamos resolver tudo no braço"), uma coisa patética. Contra mulheres tudo ganha um toque de horror a mais pelos motivos torpes e a dificuldade de revidar. Enfim, agressão física perde pontos, perde a razão, perde tudo. E basta uma vez pra sair fora desse relacionamento. Bateu? Saia fora.

O que evitar: o desrespeito ao espaço do outro, seja batendo, seja gritando. Um tapa, soco, beliscão, puxão de cabelo, estrangulamento, tudo isso são formas de se impor na força. Nunca, nunca levante a mão contra outra pessoa, principalmente se ela for mais fraca.

7. O estupro

A forma mais violenta, baixa e humilhante de demonstração de poder contra uma mulher. O estupro nada tem de sexual : é o uso da força para violar uma pessoa. Mesmo assim, muitos apenas reconhecem o estupro quando cometido por um estranho, num beco escuro tarde da noite, com uma arma na mão - a ainda arranjam um jeito de culpar a vítima, "que não devia estar ali". Mas há outras maneiras de violar o corpo de outra pessoa, usando entorpecentes, manobras psicológicas ou força bruta. E todos eles também são estupro.

Não é nenhum bicho de sete cabeças perceber que alguém não quer transar. Às vezes irrita ("ela me provocou", "ela queria na balada", "ela veio até em casa", "ela casou comigo"), mas se ela não quer mais, não é pra forçar. Nunca. Nunquinhajamais.

O que evitar: qualquer relação, QUALQUER RELAÇÃO sem consentimento é um estupro. Qualquer abuso sexual de adultos com menores de 18 anos é estupro. Qualquer toque sexual numa estranha no metrô/ônibus/rua/multidão é estupro. Não estupre, não faça sexo com pessoas embriagadas, desacordadas, dopadas, com crianças ou quando a pessoa disser "não, não tô afim". NÃO FAÇA.

O que evitar também: Culpar a pessoa que sofreu violência. Queremos sempre buscar entender e desvendar os mínimos detalhes de um crime. Assim, buscamos contradições no depoimento da vítima, não para defender o agressor, mas para garantir que não se trata de uma acusação mentirosa. Agora, roupa curta, passado promíscuo, histórico baladeiro, hábitos pouco ortodoxos e estar na rua a noite não serão, nunca, justificativas para uma violência. Quer investigar? Descubra se o ato foi consentido, nada além disso.

8. O feminicídio

Mulheres morrem por serem mulheres. Morrem por que o parceiro, "que a amava tanto", perde a cabeça num ataque de ciúmes e atira nela. Mulheres morrem por não se submeterem a um marido que a acha apenas mais uma propriedade dele. Elas morrem por responderem a uma agressão, por que não sabem o "seu lugar".

O que evitar: matar alguém. Não mate ninguém nunca. Aos outros seres humanos normais: nunca busque justificativa para um assassinato. E se o que você encontrar como justificativa envolver um coração partido, ciúmes ou uma traição, nunca culpe a vítima. Ninguém merece morrer, menos ainda por motivações mesquinhas como essas.

Enfim, minha pequena tentativa de descrever - e desconstruir - o que chamamos de cultura do estupro.

LEIA MAIS:

- Uma reflexão sobre assédio: A rua é de quem? E o bar?

- Por que política e misoginia combinam tanto?

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