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Jornalismo ético e a cobertura do sofrimento

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Paul Bradbury via Getty Images
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O tribunal das redes sociais condenou nesta terça-feira (29) o Catraca Livre por uma cobertura essencialmente sensacionalista e exploratória da tragédia do avião da Chape.

Chama atenção que uma das primeiras reações do Catraca foi afirmar que estava em exercício legítimo de jornalismo: compartilhar as últimas fotos em vida dos jogadores, vídeos de acidentes similares etc. nessa perspectiva nada mais é do que oferecer um ponto de vista "socialmente relevante para seus leitores".

Esse é o mesmo fundamento de outros canais de notícias que entrevistaram exaustivamente familiares das vítimas, amigos íntimos e represaram à exaustão o atendimento médico e resgate nos destroços da aeronave. Isso é exercício da liberdade de imprensa?

Pode até ser, mas de alguém insensível e despido de qualquer empatia, respeito e solidariedade. Interessa apenas manter o índice de audiência e ganhar uns cliques a mais.

O ponto é que é moralmente reprovável esse tipo de divulgação e cobertura midiática. Queremos mais fatos e informações, mas a vontade de saber não fundamenta a entrevista em que o entrevistado está desconfortado de estar ali ou a miscelânea fúnebre de últimos momentos ou palavras.

Essa indignação, entretanto, não deveria estar circunscrita a essas tragédias de comoção nacional.

A prática de mídia exploratória e sensacionalista está no dia a dia: em esperar os atrasados do Enem nos portões para entrevistá-los, em colocar o microfone pela janela da viatura para conseguir algumas palavras do preso em flagrante, em expor presos como um leilão de gado na delegacia após uma operação policial.

Programas policialescos compõem quase um universo à parte.

A programação comum, entretanto, tem seus fetiches também: quer noticiar em primeira mão que o poderoso empreiteiro almoçou uma marmita de salada, feijão, farofa e macarrão na carceragem; ou quer disponibilizar logo aquele documento do processo que contém todos os dados privados do réu.

Um exemplo recente, de especial morbidez, foi a prisão de Anthony Garotinho.

Foi toda filmada - o Garotinho sendo carregado em uma maca até uma ambulância após procedimento cirúrgico, a filha atrás gritando e pedindo para acompanhar o pai, policiais fazendo um círculo em volta do show e forçando ele a deitar na maca.

No meio disso, temos que entender em que momento é assegurado aos presos o respeito constitucional à integridade física e moral.

Enfim, o compromisso com um jornalismo ético e responsável mudaria muita coisa na mídia nacional. O modo como tratamos a dor alheia talvez seja o primeiro item da fila. De qualquer modo, isso exige uma reflexão mais profunda do que muita gente está disposta a fazer.

Gabriel Fernandes, aluno da FGV Direito SP, pesquisador e membro da Sociedade Brasileira de Direito Público.

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