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Mercados flutuantes: Como o dinheiro se comporta em tempos de crise?

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É de praxe. Em momentos de crise nos deparamos com algum comentarista de economia, em meio a um mundaréu de gráficos, explicando a queda ou a subida do preço do dólar.

Na televisão, nos jornais, na internet, essa cena é cada vez mais comum. Ora se responsabiliza a economia americana, que apresentou sinais de melhora. Ora se responsabiliza a presidenta, que não transmite confiança aos mercados globais. As posições desse jogo estão em constante mudança, em especial, nos momentos de crise - como o que estamos vivenciando agora.

A taxa de câmbio é uma relação entre moedas de diferentes países. Ela é importante porque o "valor" de uma moeda define o preço tanto de produtos importados (aquilo que compramos) quanto de produtos exportados (aquilo que vendemos). Mas, uma pergunta surge: como se define esse valor?

Além de produtos e serviços, é possível comprar e vender moedas de outros países. Nesse caso, é a própria moeda que se comporta como qualquer outro produto no mercado. Seu preço será determinado pela dinâmica da oferta e demanda, ou seja, quanto mais pessoas querendo comprar uma moeda, mais o preço dela sobe (deprecia-se o câmbio). Isso se repete quando há pouca moeda disponível (oferta elevada).

O oposto acontece quando a quantidade de pessoas querendo comprar moedas de fora diminui, ou a oferta aumenta, caracterizando uma apreciação cambial (a moeda estrangeira fica mais barata). Via de regra, essa relação é calculada em comparação ao dólar, em razão da importância que ele adquiriu ao longo da história (a explicação é mais longa, mas isso basta para nós).

E onde entra a crise nessa história? Como ele se relaciona com a taxa de câmbio brasileira? Parte relevante dos dólares que entram no Brasil se dá pelo resultado da balança comercial, isto é, pela diferença entre o que vendemos e o que compramos do exterior.

Uma outra parte dos dólares entra no país através do mercado financeiro. Neste segundo caso, a partir da taxa de juros que o Banco Central define, investidores estrangeiros decidem se investirão, ou não, no país. Quanto mais investimentos, maior a entrada de dólares, apreciando a taxa de câmbio.

Quando há um "choque externo negativo" (algum evento que deixe os investidores de cabelo em pé, como os acontecimentos políticos recentes), esses investidores costumam retirar seus investimentos. Isso porque o mercado fica bastante imprevisível, aumentando os riscos. De acordo com a lei de oferta e demanda, com menos dólares, há menor oferta: o dólar fica mais caro, com uma depreciação da taxa de câmbio.

Quando o mercado fica instável, normalmente o câmbio se comporta da mesma forma, o que não é bem visto pelos investidores, que buscam uma maior estabilidade no valor da moeda. Quem dá essa garantia é o Banco Central. Para isso ele utiliza dos chamados swaps cambiais.

Eles são um dos mecanismos utilizados pelo Banco Central (BACEN) para reduzir a pressão dos mercados. É como se o BACEN vendesse moedas "no futuro": com alguma certeza futura, diminuem-se os riscos. Com menos riscos, mais investidores. Esse panorama nos dá subsídios para entender melhor algumas das escolhas que economistas (mas não apenas eles) têm de fazer.

É possível medir a "força" da economia brasileira pela taxa de câmbio? Isso é um equívoco cometido por alguns economistas que associam uma "moeda forte" com uma economia mais próspera. Isso nem sempre é verdade.

O erro vem da dificuldade de certos economistas em ponderar as duas funções da taxa de câmbio: uma taxa de câmbio apreciada significa que o preço daquilo que compramos vindo de fora será menor, mas também significa que o preço daquilo que vendemos para o exterior será maior. Ganha-se na importação, mas perde-se na exportação. O desafio é manter essa balança equilibrada.

O problema real é: como mantemos a balança equilibrada? Para isso, não temos respostas. Esse debate vai para além da economia e passa por outros campos, como o da política e o do direito. Aqueles que defendem uma maior entrada de produtos importados no Brasil preferirão uma taxa de câmbio apreciada. Por outro lado, aqueles que defendem um papel mais destacado do país enquanto exportador preferirão uma taxa de câmbio depreciada.

Quando se trata de economia, todas as escolhas envolvem custos e benefícios consideráveis. Essas escolhas devem ser feitas levando-se em conta o contexto do país. Quanto mais incertezas no cenário político, mais difícil é escolher.

Certamente este é um assunto mais complicado e nebuloso do que descrito por este breve texto. Sua importância, no entanto, reforça a necessidade de se discuti-lo abertamente. Enquanto esse debate for feito apenas por engravatados, a opinião pública pode ser facilmente manipulada, acreditando que a taxa de câmbio só interessa àqueles que viajam para Miami em busca de produtos baratos.

*Texto escrito por Maike Wile dos Santos, graduando da Faculdade de Direito da USP e membro da Sociedade Brasileira de Direito Público. Lucas Herzog, graduando em economia na Faculdade de Economia e Administração da USP.

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