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A polêmica envolvendo Elena Ferrante é exemplo de como a masculinidade pode ser tóxica

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ELENA FERRANTE
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Os sentimentos indelicados demoram a desaparecer. Hoje em dia, na maioria dos lugares e ambientes, já conseguimos apontar que quem sugere que uma vítima de estupro "mereceu" esse tipo de violência está completamente equivocado. Mas isso não quer dizer que os homens tenham, realmente, entendido que as mulheres não se esforçam para merecer alguns destinos terríveis. A defesa do "ela fez por merecer" ou "ela estava procurando confusão" não desapareceu - foi sublimada, apenas.

Assim, hoje um homem não pode publicamente vincular o caráter moral de uma mulher ao comprimento de sua saia, mas um jornalista homem, escrevendo numa publicação de prestígio, pode afirmar que a romancista Elena Ferrante basicamente estava procurando confusão ou pedindo para ser identificada e ter suas informações divulgadas na internet, simplesmente por ter tido a ousadia de assinar seus romances com um pseudônimo literário.

"Ao anunciar que mentiria de vez em quando, Ferrante de certo modo abriu mão do direito de desaparecer por trás de seus livros e deixar que suas obras vivessem e crescessem enquanto a autora delas continuasse desconhecida", escreveu Claudio Gatti no New York Review of Books. "De fato, ela e sua editora parecem ter alimentado o interesse público em saber sua identidade verdadeira."

A frase que teria incriminado Ferrante foi: "Recorro a [inverdades] quando necessário para proteger minha pessoa, meus sentimentos, pressões". Quem poderia criticá-la por isso, quando o simples fato de ser mulher no mundo é visto como um convite a um plebiscito para avaliar cada parte de como você se apresenta publicamente.

A partir disso e de frases semelhantes expressas pela escritora em outras entrevistas Gatti montou sua justificativa para expor a identidade real de Ferrante. Pegar o desejo expresso e os mecanismos de autodefesa de uma mulher e interpretá-los como sendo o inverso exato é uma atitude clássica do macho que se sente afrontado. Para ele, "não" significa "sim".

A persona de Ferrante, ou o escudo atrás do qual ela se ocultava, lhe permitia evitar as fofocas editoriais e as críticas de teor biográfico às quais são sujeitas as escritoras modernas. Ela pôde passar ao largo dos discursos sobre quem merece escrever o quê, sobre a maternidade, sobre quantos cafés ela toma pela manhã antes de completar sua cota diária de palavras escritas. Em um momento em que a identidade funciona como uma moeda, Ferrante conservava sua independência financeira, fazendo de sua própria identidade uma caixa preta.

É irônico ao extremo que esse caso tenha acontecido no coração da Europa continental, onde a privacidade tem quase o valor de um sacramento e o "Direito de ser Esquecido" é declarado com veemência. Para cada impulso desse tipo da sociedade, existem sentimentos iguais, opostos e inconvenientes que encontram sua expressão em complôs complicados como este. A roda do progresso não gira apenas para frente.

O que estou tentando realmente esquecer é uma foto a cores da suposta "verdadeira Elena Ferrante" publicada no blog post do New York Review of Books. Uma coisa surpreendente de Elena Ferrante é que, em uma era obsessivamente visual, ela criou seu eu inteiramente por meio de palavras. Hoje em dia o romance é um gênero que expressa um protesto, pois relata uma história sem o apoio de meios filmados ou fotográficos, numa era em que a própria vida parece existir apenas nessas mídias e para elas. Ferrante protegia a primazia textual de seus romances, negando-se a fazê-los acompanhar de qualquer imagem, nem mesmo uma foto de seu rosto. Ela chegou a castrar as capas de seus livros de qualquer poder explicativo, escolhendo ilustrá-las com imagens propositalmente kitsch que impossibilitam qualquer extrapolação. É surpreendente que o artigo de Gatti tenha sido aprovado pelos editores do NYRB, mas a decisão de publicar a foto de Ferrante parece mostrar mau gosto especial.

elena ferrante

Gatti é um covarde, mas sua ação constitui um sintoma da morte lenta da masculinidade nociva. Esses homens, em todo lugar, estão reagindo porque sentem que estão diante de um futuro incerto (ligue a TV para ver se não é verdade). Se esse homem em particular não tivesse tido a iniciativa de investigar Elena Ferrante e colocar as informações pessoais dela na internet, algum outro homem o teria feito. Sua persona hermética era o trunfo mais criativo disponível para uma escritora hoje em dia, e as coisas perfeitas são instáveis.

Por isso mesmo, o que Gatti fez é, em última instância, trivial, mera errata. Ferrante não é uma pessoa, nem mesmo uma escritora: é uma autora. Mesmo que fosse revelado que Elena Ferrante na realidade é uma médica brasileira, um robô ou Angela Merkel, isso não afetaria em nada o conjunto de suas entrevistas autorizadas e suas obras de ficção publicadas.

Gatti é um covarde, mas não é excepcional; Elena Ferrante é excepcional. O que ele fez é tão entediante que é um clichê. Uma mulher declara algo com clareza total. E um homem lhe diz:

"Não, o que você quis realmente dizer foi aquilo".

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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