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Donald Trump, a política internacional e a relação com o Brasil

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DONALD TRUMP
ASSOCIATED PRESS
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Chama a atenção o adjetivo amplamente utilizado para caracterizar Donald Trump: bilionário. Mas, o magnata, megaempresário do ramo imobiliário, investidor com negócios em várias partes do mundo e intrigante personalidade midiática, também se caracteriza por ser conservador. Disse não ser assim tão simpático à globalização, ser extremamente protecionista e liberal a favor do Estado (liberal-nacionalista?). Na campanha se escancarou sua xenofobia, seu racismo e sexismo.

Por tais características, analistas e políticos de todo o mundo estão ansiosos e temerosos sobre os rumos de sua política externa. E metade da população estadunidense assim estão em relação à política interna que os aguarda, ou melhor, que já se desponta. Pode ser que sua posição nacionalista e internacionalista mas antiglobalização, seus interesses e negócios na Rússia, sua relação com Putin e seus anúncios sobre os rumos da Otan indiquem que se redefinirão as áreas de influência geopolítica e geoeconômica mundial, cabendo aos Estados Unidos requerer o papel, novamente, de preponderância sobre o continente americano, repleto de água e com áreas abundantes em petróleo e outros recursos naturais - aplicando severas políticas protecionistas e impondo aos países americanos políticas austeras de dependência em troca de exploração de seus territórios em nome do desenvolvimento. Mas, tal política já conhecemos, independentemente da principal cadeira na Casa Branca ser ocupada por democrata ou republicano.

Em vez de tentar especular longamente sobre a política externa que Trump adotará em relação ao mundo e, particularmente, ao Brasil, nos incita refletir e indagar como internamente olhamos para esse país do norte da América, agora sob as perspectivas de seu novo governo. Nos detenhamos aos seguintes aspectos:

1. Como protecionista, em 2015 Trump acusou o Brasil de ser um País que rouba empregos dos Estados Unidos. Se as empresas e indústrias voltassem ao país sede e se imigrantes fossem encaminhados à sua morada original, resolver-se-iam os problemas de desemprego nos EUA. Como vemos isso? Obviamente, a questão é bem mais complexa. As intenções protecionistas assustam, é claro, pois o país é nosso segundo parceiro comercial, atrás apenas da China. Mas, são 4 bilhões de dólares o valor que pende favoravelmente aos estadunidenses. Já não conseguimos tanta entrada por lá como se instalam por aqui. Se se fecharem mais, os sinais atuais de política externa brasileira deverão mudar e buscar outros portos. Isso pode ser bom para o Brasil, pois ampliaríamos nossas possibilidades comerciais com outros países, sobretudo se Trump se recusar a assinar novos acordos de livre comércio e interromper acordos como o TISA (opção liderada pelos EUA em oposição à OMC), ou o de Associação Transpacífico (TPP). Mas, nesse caso, como ficaria a contrapartida para o Brasil nas relações bilaterais com os estadunidenses? O mais provável é que fique como está ou se intensifique o amplo superávit dos EUA conosco, notório é que todo protecionista o é para dentro sendo liberal para fora de suas fronteiras.

2. Além de Trump se declarar protecionista e nacionalista, o atual governo brasileiro tem alardeado em alto e bom som seus rumos liberais e políticas liberalizantes. O que acontecerá com a produção nacional, com as empresas brasileiras e com o emprego no Brasil? E com as atuais e pretensas políticas de aproximação subserviente galopante? Em breve teremos notícias...

3. Com a vitória de um conservador, nacionalista e cristão protestante podem-se sentir incitados e inflados aqueles que no Brasil idilicamente se julgam afinados com o novo líder do norte continental e seus fiéis. Talvez vejam sua vitória como um suporte legitimador e fortalecedor de suas crenças e ações políticas no Brasil. É como se rizomaticamente chegasse por aqui alguma espécie de apoio da maioria dos estadunidenses, mesmo que com pequena margem, que elegeu Trump. Suporte legitimado aos seus anseios, visões conservadoras, xenófobas, misóginas e sexistas. Contudo, e contraditoriamente, a despeito dele nos ter, brasileiros e latinos em geral, no mais baixo nível de consideração.

4. Alheios aos anseios de Trump em se voltar para a política interna estadunidense, alguns devotos radicais brasileiros chegaram até a fazer campanha para Trump como se fôssemos por aqui seus eleitores a sermos convencidos do que é melhor para nós e para o mundo, como se isso nos colocasse em algum degrau decisório ou de influência nas políticas daquele País. Parece que isso reforça a percepção do comportamento e pensamento colonizado que ainda persiste em nossa sociedade. É óbvio que a eleição presidencial no país mais influente do mundo gera preocupação em todos. Contudo, mais preocupante é o vislumbre cego àquele país, tão presente entre os sonhadores brasileiros que o veneram em detrimento de nós mesmos.

5. Não se trata de defender o antiamericanismo, mas apenas jogar luzes sobre a necessidade de olhar para fora sem menosprezar o que temos e o que somos. Cotidianamente é comum nos depararmos nas ruas, empreendimentos comerciais, no marketing e na mídia em geral, muito mais com remissões estereotipadas dos EUA que maximizam aspectos positivos, de potência mundial e um exemplo a ser seguido do que com suas contradições internas, sociais e econômicas, sua verve histórica recheada de xenofobia, racismo, intolerância religiosa. Há nos Estados Unidos muitos movimentos e acontecimentos na sociedade que buscam reversão e superação disso, mas, majoritariamente apresentados pela grande mídia como ações pontuais. Vejamos como se portarão os movimentos estudantis secundaristas que por lá acabam de inaugurar suas ações e as reações da sociedade, do Estado estadunidense e como se dará o respectivo acompanhamento midiático.

6. Por aqui, os secundaristas enfrentam e resistem a políticas e ações policiais truculentas, num momento marcado por uma rompante saída do armário do pensamento conservador, autoritário e intolerante. As lideranças desse pensamento por aqui devem agora estar se perguntando como se postar diante do dilema imposto com a eleição de Trump: integrar conservadorismo social e política econômica liberal com o protecionismo e nacionalismo de lá.

7. No campo político partidário brasileiro, conservadores religiosos ampliam sua animação demonstrada pelas conquistas políticas deste ano, no tapetão e nas urnas, e já antecipam suas vitórias em 2018. Sim, pois se os Estados Unidos da América, um lugar onde reza a lenda ser o exemplo de país civilizado e onde reinaria a boa moral, estão embarcando na trilha trumpiana com destino ao triunfo, por aqui só nos restaria segui-los rumo à salvação. Mas, a salvação para nós estaria em nos espelharmos no conservadorismo, nacionalismo expansionista e protecionista, no reforço do sentimento xenófobo e racista que nos faz lembrar de alguns traços estratégicos fundamentais do Destino Manifesto e da Doutrina Monroe, com a estratégia do movimento duplo de fechamento das fronteiras para fortalecer o expansionismo, sobretudo, ou primeiramente, na América? Parece sempre que continuamos esperando o Salvador, mesmo que ele não nos enxergue, um novo líder cujo currículo é agora enriquecido pelo fato de se constituir num ser não-político, homem de dinheiro que não precisa se corromper no serviço público, com ditos valores morais e religiosos sólidos. Lá um já foi eleito. Temos nossas versões por aqui.

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