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Como é ser uma pessoa soropositiva em um mundo preconceituoso

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HIV
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Dia 14 de agosto de 2014 eu entrei num laboratório no Rio de Janeiro, e o frio tomou conta da minha espinha.

Fui fazer uma série de exames de sangue que haviam sido passados pela minha dermatologista. Dias antes eu tinha amanhecido com várias manchas no corpo. Não doíam, não coçavam, mas eram feias. No dia seguinte as manchas estavam mais fortes. Marquei a consulta, e não demorou muito para a médica dizer que suspeitava de síflis, uma infecção sexualmente transmissível.

Na hora eu fiquei boba, pois eu achava que síflis era uma doença do século XIX. Não sabia que as pessoas ainda "pegavam" isso. Mas a médica, sempre muito atenciosa, me disse que a incidência dessa doença estava crescendo, principalmente entre os mais jovens. Ela passou os exames de sangue, incluindo o de síflis e o de HIV. Ela estava certa. Dias depois eu estava com os diagnósticos, positivo e positivo.

No dia 14 de agosto de 2014, quando fui fazer os exames, o nervoso que tomou conta de mim não foi pelo medo do que essas doenças poderiam causar na minha saúde. Ou pelo menos, esse não era o medo principal.

A síflis é curável e, quando diagnosticada a tempo, possui um tratamento relativamente simples, com penicilina.

O HIV demanda uma série de cuidados, como o uso controlado e contínuo da medicação. A vida sem o HIV é certamente melhor do que com ele. Mas viver com ele também não é o fim do mundo, tampouco o fim da vida.

O que me martirizou naquele dia foram as possibilidades que fiquei imaginando para minha vida social e afetiva. Existe todo um estigma em relação ao HIV e a Aids. Estigmas e preconceitos que todos/todas nós carregamos, em diferentes medidas.

Diversas são as pessoas com quem já deixei de me relacionar, puramente por medo de contar sobre minha condição sorológica. É incontável o número de vezes em que me senti constrangida, pois numa roda de pessoas, quando surgia o assunto do HIV/Aids, e alguém falava algo como "nossa, como será que é viver nessa condição?" e eu simplesmente me calava, quando poderia ter falado e talvez contribuído para o debate.

Ao mesmo tempo eu fui extremamente sortuda por ter sido acolhida por meus amigos, meus chefes, e meu ex-companheiro, que não é infectado pelo HIV. O apoio dessas pessoas foi fundamental pra eu perceber que minha vida social não precisaria sofrer uma mudança radical, com eu me escondendo e tendo medo de tudo.

Numa sociedade que ainda vê o sexo como algo muito sujo, receber uma mão estendida e um abraço num momento de descoberta de algo assim, é muito importante.

Num país em que o preconceito com pessoas portadoras do HIV ainda é alimentado através de parte da mídia, e até mesmo de novelas, é necessário uma rede de apoio que fortaleça a pessoa infectada.

A prevenção ao HIV é muito importante. Mas saber acolher, e procurar entender que todos e todas estão sujeitas a essa infecção, e não apenas um grupo específico, é tão importante quanto.

Hoje eu sou muito mais preocupada em tentar seguir hábitos saudáveis (ou pelo menos tentar evitar aquilo que certamente me faria mal). Hoje eu consigo falar sobre isso, e consigo não sentir culpa. Eu possuo uma doença crônica, e isso não faz de mim uma pessoa pior, menor, menos digna, ou mais suja. Só me faz eu ser quem sou, e assim sigo sendo, desde o dia 14 de agosto de 2014.

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