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É mais fácil o pai aceitar uma filha lésbica do que a mãe?

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LESBIAN GIRL
Westend61 via Getty Images
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Recentemente, viralizou um vídeo em que um pai e suas três filhas promovem uma "brincadeira": fingem que uma delas é lésbica, como se estivesse saindo do armário, para "trollar" a mãe. Em uma mesa de jantar, a história se desenrola. Ao que parece, eles mostram à mãe uma foto em que a menina, de quinze anos, parece estar beijando outra menina.

De início, mesmo brava, a mãe afirma que a imagem não é verdadeira e que aquilo é apenas uma brincadeira. Com a insistência da família, sobretudo do pai, ela se convence de que a imagem não é falsa e começa a exigir que a filha entregue o celular, como uma espécie de castigo e maneira de manter o controle sobre a sua vida. O vídeo é problemático, num primeiro momento, por satirizar e banalizar uma situação crítica na vida de mulheres lésbicas e bissexuais. Mas é também problemático por reiterar a histeria da mulher em oposição à tranquilidade do homem.

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*Cena do vídeo em que família simula lesbiandade de menina de quinze anos para assustar a mãe

Quando a mulher se levanta e bate na mesa, o homem ri. Quando a mulher grita, o homem diz "vamos conversar". Quando a mulher pega utensílios de cozinha para ameaçar a filha, o homem continua rindo e pede calma. Quando a mulher persegue a filha com uma faca, o homem a segura e o som de suas risadas fica mais evidente. Depois, segurando-a, ele diz: "para! tá louca?". Quando a situação extrapola todos os limites, a mulher é informada de que tudo não passou de uma piada e é levada para o quarto pelo marido.

Algumas lésbicas têm mais dificuldades em contar para a mãe sobre a sexualidade, outras têm mais dificuldades em contar para o pai; para outras é impossível contar para qualquer um dos dois; e há, ainda, as que não tiveram grande dificuldade em dividir essa parte de suas vidas com qualquer figura da família.

Sair do armário é uma situação que se dá de maneira particular de acordo com a dinâmica de cada família, e por isso é difícil fazer generalizações. Ainda assim, analisando o vídeo em questão e a posição social que ocupam as mulheres, é difícil não perceber que, na maior parte dos casos, é mais fácil para o pai lidar com a lesbiandade da filha do que para a mãe.

Em uma cultura em que a maternidade é atividade central na disposição de prioridades da vida de uma mulher, é de se esperar que de nós não seja cobrada apenas a reprodução, mas sobretudo uma boa criação dos filhos no significado tradicional que isso carrega. Quando se trata de uma filha mulher, há uma cobrança dupla: além de ser ela mesma uma mulher que deve cumprir com aquilo que a sociedade espera, ela pôs no mundo uma outra mulher, e seu compromisso é garantir que esta cumpra, tanto quanto ela mesma precisa fazer, o que é socialmente aceito para uma pessoa do sexo feminino.

O homem, por outro lado, nunca viveu sob a pressão da paternidade. Quando é um pai presente, isso é encarado como uma qualidade, e não como o cumprimento de uma obrigação. Quando é um pai ausente ou não assume os filhos, este é apenas o modus operandi da masculinidade e da paternidade, no Brasil e no mundo, onde os números de abandonos paternos são alarmantes.

Pela nossa construção sobre o que é ser uma mulher e sobre o que é ser um homem, entendemos também como são construídas as responsabilidades de um pai e de uma mãe no núcleo familiar. Ao homem, de acordo com o que é exigido a ele, é mesmo fácil assumir o papel de um cara boa pinta, tranquilão, que faz brincadeiras e lida bem com a possibilidade de sua filha ser lésbica. À mulher, no entanto, nunca houve a chance de estar em outro estado senão o de colapso nervoso: ela está sempre por um fio de não estar sendo boa o suficiente, de não ser mulher o suficiente e de não ter ensinado suas filhas a serem suficientemente mulheres. Ela é sempre questionada e empurrada a um estado de ruptura de sua sanidade.

Hoje, mais do que falar sobre a lesbofobia de uma mãe, me interessa falar sobre a leviandade de um pai.

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