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Estupro: a história que não queremos contar

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Que a história é permeada pela barbárie e pelo ódio todos nós sabemos; o que parece pouco explorado, até agora, é que essas questões tenham se manifestado, em muitos momentos, por meio da violência sexual praticada por um homem e contra uma mulher. Sexo sem consentimento por definição, o estupro assume papéis complexos nas teias da realidade: vivemos em uma sociedade cujas relações foram construídas sobre as estruturas de uma cultura que naturaliza e perpetua a violação do corpo feminino.

A mitologia clássica está repleta de estupros, muitas vezes praticados por um deus licencioso. Assim, Zeus estuprou Europa e Leda; Dionisio, Aura; Posêidon, Etra; Apolo, Evadne. É digno de nota que todos esses estupros tenham resultado em filhos, que, em vez de personificarem a vergonha, eram semideuses (Longe da Árvore, Andrew Solomon, pág. 556).

Ainda que a mulher não tenha ocupado a mesma posição histórica que o homem frente às grandes guerras, às guerras civis e aos conflitos no geral que abraçaram a humanidade no decorrer dos tempos - ele era protagonista por encabeçar a guerra ou por lutar em nome dela; ela cuidava, esperava, rezava pela sua volta -, a presença da mulher é notável, mesmo camuflada, em todos esses episódios. Ela foi usada como moeda de troca, pausa para o lazer, válvula de escape, forma de chantagem e de vingança.

Quando Eliane Brum refez, 70 anos depois, os 25 mil quilômetros percorridos pela Coluna Prestes, trouxe uma nova narrativa sobre o evento, em muito diferente da hegemônica que o revestiu de caráter heroico: contou a história do "povo do caminho", a população que vivia nos povoados e cidades pelos quais os homens da Coluna passaram, dentre elas, histórias de mulheres que foram estupradas pela tropa nesse percurso.

"Eu comecei a escutar histórias que eram muito diferentes das que eram contadas: histórias de estupro, de saque, de assassinatos, de tortura", contou a jornalista em entrevista a Antônio Abujamra no programa Provocações.

Na mesma entrevista, ela fala sobre um agricultor que ingressou na Coluna para encontrar e matar o homem que havia estuprado sua esposa. Sobre isso, é digno de nota: "historicamente, o estupro é visto menos como a violação de uma mulher do que como um roubo praticado contra o marido, ou pai, a quem essa mulher pertencia" (Longe da Árvore, Andrew Solomon, pág. 556).

A nova perspectiva trazida por Eliane Brum irritou grande parte dos setores da esquerda no Brasil: a narrativa em torno da Coluna Prestes, até então, era a de um movimento puro que exigia reformas políticas e sociais, que denunciava a pobreza e a exploração dos mais pobres. A possibilidade de tamanha hipocrisia trazida por Coluna Prestes: o avesso da lenda foi demais para que alguns revolucionários suportassem: a acusação, então, era de que a autora estava "a serviço da direita". Em documentário sobre a trajetória de seu pai, Luíz Carlos Prestes Filho justificou: "Um comandante que está comandando uma Coluna de 1.500 homens não pode ser responsável pelo comportamento de todos".

Dentre todos os exemplos passíveis de serem citados, a escolha da narrativa de Eliane Brum sobre a Coluna Prestes se dá pela quebra de paradigma. Com o estupro de uma menina de 16 anos por 30 homens no Rio de Janeiro, o debate sobre o tema volta à tona. A discussão, como qualquer outra no Brasil, logo se volta a uma rixa empobrecedora entre "direita" e "esquerda"; como se o combate ao estupro fosse pauta de um dos dois segmentos e não uma questão urgente que permeia nossa sociedade como um todo.

Os mais conservadores se apressam em clamar por políticas punitivas mais rígidas, por castração química para estupradores. Além de, é claro, jogarem a conta do estupro coletivo para a pobreza, já que a vítima frequenta bailes funks, é pobre e o crime aconteceu em uma favela. Os rapazes que se julgam mais libertários também se apressam: "não é todo homem...", "eu nunca...", "mas eu não...".

Do lado direito ou do lado esquerdo, quando o assunto explodiu só foram vistos homens querendo se distanciar de um sistema pelo qual há muito são beneficiados. Cada lado, dentro de suas limitações ideológicas, achou sua maneira para fazê-lo e o fez muito bem.

Quando esbravejam o discurso da castração química, estão tentando tornar este um problema médico, pontual, individual; quando culpam o ambiente em que o crime aconteceu, estão novamente relativizando a questão - aos que falam da pobreza, gosto sempre de propor uma pesquisa sobre os estupros que ocorrem com frequência na Faculdade de Medicina da USP -; quando se colocam como "diferentes", estão negligenciando ou pessoalizando o problema de gênero que perpassa todo nosso espectro de posicionamentos políticos e, por isso, todos os nossos indivíduos.

Em todos os discursos, reina o despreparo para aceitar: há séculos genitálias vem sendo usadas como armas em detrimento de suas funções biológicas, há séculos a ciência, a igreja e a política legitimam e incentivam esse uso - e há séculos não faz diferença alguma se essas genitálias pertencem a pretos, a brancos, a pobres, a ricos, a revolucionários ou a conservadores; se essas genitálias pertencem a funkeiros ou a eruditos, a deuses, semideuses ou a humanos.

O primeiro passo, como naqueles esquemas de reabilitação, é a aceitação. Mas não o tipo de aceitação que paralisa, que justifica, que nos coloca à mercê de algo que nos antecede. A aceitação da existência da cultura do estupro precisa vir como vontade de mudança, de luta e de transcendência (e olha que bonito: acabo de ler que transcender significa "superar algo por lhe ser superior").

LEIA MAIS:

- O simbolismo da primeira mulher a presidir o Brasil

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