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O que a morte uniu, a vida separa

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CHAPECOENSE
Ricardo Moraes / Reuters
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Ao acordar hoje - hoje, sim, porque esta é uma crônica sobre um dia que ainda não acabou -, todas as partes do Brasil, quiçá do mundo, foram atingidas por uma mesma notícia. Seja pelo smartphone, o primeiro a receber atenção no dia, seja pela conversa que se tem ou que se ouve durante o café da manhã, nenhum de nós foi poupado da informação.

O que no início eram números vagos e informações desencontradas, no decorrer do dia foi tomando a forma de números concretos, nomes, sobrenomes e rostos exatos. Foram setenta e um mortos e seis sobreviventes no acidente envolvendo o avião que transportava a delegação do Chapecoense, incluindo os jogadores do time, jornalistas e a tripulação da aeronave. Setenta-e-um-mortos.

"Será que os calendários carregam em si a previsão dos dias que serão marcados por grandes acontecimentos coletivos?", é mais ou menos o que eu me pergunto nos dias mais agitados. Soa ingênuo, eu sei, porque de certa forma reflete a perplexidade dos 20 anos em relação ao destino e à aleatoriedade, em relação a deus e ao vácuo. Em relação ao que significa, afinal, a vida. E é por nos remeter a questões tão universais, tão primárias, que a morte tem esse poder de unir.

Quando se trata de uma tragédia como a de hoje, com dezenas de mortes em decorrência de motivos grosseiros e que nos escapam à compreensão, como uma falha técnica em um avião, a união é ainda mais intensa. Ao contrário de uma chacina, por exemplo, não há quem culpar politicamente quando se trata de problemas mecânicos. Num primeiro momento, ao menos, não há complexidade alguma no acidente aéreo. E é por isso que dar as mãos é uma proposta imediata: porque é fácil.

Não demorou muito, no entanto, para que chegasse a vida e tratasse de nos lembrar sobre a fragilidade das uniões simples. Com as postagens do Catraca Livre a respeito do acidente, no nível de "Jogadores do Chapecoense fazendo selfie do avião que, pouco depois, se acidentaria. Uma galeria revela imagens do registro do último dia de vida", ficou fácil preencher aquele vazio que tomou conta do peito desde cedo: finalmente tínhamos a quem apontar o dedo - se não pelas mortes, ao menos pela decadência do jornalismo.

As mensagens de lamento e solidariedade às famílias das vítimas do acidente, então, passaram a dividir o espaço virtual com mensagens odiosas contra o portal de entretenimento, muitas vezes provenientes das mesmas pessoas. Se solidarizar, em algum momento, se tornou sinônimo de recriminar o Catraca. E então vieram os pedidos para que os amigos parassem de seguir a página, repercutidos e materializados na criação de um evento que reivindica o fim do portal, aderido por 15 mil usuários do Facebook e compartilhado com outros 9 mil até agora.

A primeira divisão estava posta. Éramos nós, os consternados pelo acidente, contra o Catraca Livre. Depois, vieram os que não concordavam com a reação popular à abordagem do portal. Como se fosse possível que um dia não acabasse ao completar vinte e quatro horas, no decorrer da noite e também para além da meia-noite, recebemos mais notícias: a aprovação da PEC 55 em primeiro turno no Senado, a decisão permissiva do Supremo Tribunal Federal ao aborto até o terceiro mês, e, ainda em relação à primeira, a forte repressão policial contra as manifestações em Brasília em decorrência da medida.

A morte, no dia 29 de novembro, nos tornou irmãs e irmãos, mas a vida nos trouxe de volta aos nossos antigos e atuais papéis, tão bem delimitados, e somos novamente esquerda e direita, homens e mulheres, bem esclarecidos e mal esclarecidos. Se começamos o dia imersos em reflexão sobre nossa pequenez diante do universo, terminamos o dia aceitando-a e agindo de acordo, pequenos.

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