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O simbolismo da primeira mulher a presidir o Brasil

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DILMA ROUSSEFF
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Dia desses, conversando com uma amiga, chegamos à uma conclusão: definitivamente, não gostamos do governo Dilma Rousseff.

Em prol da governabilidade ou seja lá do que for, as ações da presidenta não atendem aos interesses de quem a elegeu.

Apesar disso, nós nos colocamos veementemente contra o processo de impeachment em curso - ainda que este seja um mecanismo previsto pela Constituição Federal de 1988, não há base legal para evocá-lo.

Não concordamos, tampouco, com o movimento de indignação que, desde meados do primeiro mandato de Dilma, cresce no Brasil.

Estamos também indignadas, mas sabemos bem ao lado de quem nos indignamos: ao lado daqueles que gostariam de um governo que insistisse em pautas da resistência indígena, que desse forças à emancipação da mulher brasileira e prosseguimento efetivo aos avanços contra a desigualdade social e racial no País.

Do outro lado, o incômodo é gerado pelas poucas coisas que ainda nos mantêm fiéis à Dilma - e é justamente a isso que me refiro quando falo sobre saber bem ao lado de quem indignar-se.

Ainda que Dilma Rousseff governe para aqueles que não a escolheram nas urnas, é curioso que sejam esses, mesmo com seus interesses representados, que continuam relutando contra o resultado da eleição.

Ela já não está fazendo, em grande medida, o que essas pessoas querem?

A resposta logo vem: Dilma nunca seria capaz de dar o que essas pessoas esperam de um governante, e isso nada tem a ver com medidas administrativas.

Não é a condução do governo, os vetos ou as passagens de leis que determinam o descontentamento de parte significativa dos brasileiros.

O que guia essa massa, na verdade, é a própria inaptidão para lidar com a subversão do poder.

Em mais de 126 anos desde a Proclamação da República, Dilma Rousseff é a primeira mulher a presidir o Brasil.

Por uma perspectiva mais ampla, ela é a primeira mulher a governar o país em mais de 500 anos.

Vivemos, portanto, um período crucial de nossa história: a ruptura do modelo tradicional de poder.

Uma eventual comparação implícita entre Marcela Temer e Dilma Rousseff, que enfatiza a juventude, o recato, a devoção ao marido e a beleza -- é uma tentativa nítida de colocar a presidenta em outro patamar, que não o de governante.

É interessante pensar sobre o que motiva opor, simbolicamente, Dilma e Marcela, e não Dilma e Temer - eles, sim, que ocupa(riam) o mesmo cargo no caso do impeachment aprovado: a Presidência da República.

Dilma não traz apenas a condição feminina como forma de desestruturar edifícios de poder tradicionalmente masculinos: aos 68 anos, ela rompe com o que se espera de uma mulher no aspecto físico, emocional e profissional.

Sem marido, ela não tem sua campanha ou imagem vinculada à ideia de família comumente utilizada na cultura política; sua trajetória é uma prova da vergonha da tortura e da Ditadura Militar; com sua idade avançada, ela já não atende a expectativas masculinas sobre a aparência idealizada de uma mulher.

São os homens, majoritários na política brasileira, os que gritam, se exaltam e, ultimamente, protagonizam atitudes inusitadas como jogar confetes durante o próprio discurso na Câmara.

Quem aparece em capa de revista como descontrolada, no entanto, é Dilma - embora não haja, na postura da presidenta, nada que fundamente tal adjetivação, essa é mais uma maneira de deslegitima-la enquanto mulher no poder.

A política nacional está acostumada a ver (e colocar) mulheres com a personificação do desequilíbrio, como belas e como esposas; não como chefes do Executivo.

A força reacionária que deslegitima Dilma Rousseff não provém unicamente da direita do País. Em muitos movimentos sindicais e da esquerda em geral, é interessante reparar que o ex-presidente Lula ainda é chamado de presidente, como se nunca tivesse deixado o cargo.

Lula, de origem nordestina e operária, tendo governado o Brasil por oito anos consecutivos, também carrega em si forte e importante simbolismo.

Mas é de se notar que os ataques a ele e a Dilma Rousseff são distintos no que diz respeito ao gênero; é também distinto o apoio prestado a ele e o apoio prestado à presidenta.

Para as mulheres brasileiras, mesmo para aquelas que apoiam o impeachment, Dilma continua sendo resistência e revolução.

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