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O que há depois do ódio?

Publicado: Atualizado:
ORLANDO
Daniel Munoz via Getty Images
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Ao escrever e refletir sobre aquilo que chamou de "banalidade do mal" em torno do contexto nazista, a filósofa alemã Hannah Arendt defendeu, a contragosto de grande parte da academia, que "entender não é o mesmo que perdoar", entender é, na verdade, "responsabilidade de qualquer pessoa que tenta colocar a ponta da caneta no papel sobre o assunto".

A brutalidade dos massacres que deixaram, ao longo da história, dezenas, centenas e milhares de pessoas mortas é estarrecedora, tenham sido de fins genocidas, etnocidas, terroristas ou até pessoais. Os ataques terroristas, especificamente, vindos de qualquer grupo e contra o público que for, deixam inúmeras famílias desoladas e a nós, enquanto sociedade, perdidos.

"Por que meu filho saiu de casa naquela noite?", "Por que justamente esse país, esse estado, essa boate?", "Por que ele fez isso?". O cotidiano, permeado pelo banal, pelo óbvio, é subitamente penetrado pelo terror. E, como em um suspiro, como na pressão automatizada de um dedo sobre um gatilho ou como no movimento que faz com que uma bomba ceda e seja acionada, fim. Fim. A vida se esvai rápido demais e arrasta consigo qualquer vestígio de razão.

No âmbito pessoal, eu imagino, não há mesmo nada que leve a algum sentido que possa consolar aqueles que ficam. A filha, o irmão, o amigo, a namorada (o): os mortos em ataques terroristas não são gays, lésbicas, bissexuais, transexuais; não são americanos, imperialistas, cidadãos de uma nação dominada ou dominadora; não são jornalistas, não são muçulmanos. Não são nenhum desses rótulos. Eram pessoas com quem o convívio íntimo permitiu ver muito além deles: tinham uma cor preferida, uma camisa preferida, tinham hábitos, manias, personalidade própria. Eram indivíduos antes de parte de um coletivo. Somos todos um, não somos?

E este é, certamente, o vácuo de sentido que só existe enquanto tal: impassível de preenchimento, de teorizações ou de racionalidade. Nesse aspecto, fica a dor profunda. Estarrecedora. Maldita! Mas, se é possível tirar algo de positivo, inclusive e principalmente a fim de evitar novas tragédias ou torná-las menos banais - e eu acredito que seja -, isso só é possível quando abraçamos a complexidade do debate, que só vem por meio do entendimento do qual Hannah Arendt nos falava.

Para aqueles que lutam com armas que não são de ferro, não carregam balas, não explodem ou servem para propagar o terror e o silêncio, sobram as canetas, sobra a voz, a tentativa de entender e a esperança de passar uma mensagem. Mas, é claro, não são todos os que pegam em canetas e não em armas que estão de fato preocupados com o uso destas, desde que por outrem - às vezes o único desejo é o de não sujar as próprias mãos. Quantas vezes, inclusive, a caneta não precedeu ou legitimou o uso dessas armas literais sobre as quais falávamos?

É fundamental que as narrativas de coletividade existam após tamanho vácuo de sentido decorrente do ataque que deixou 50 mortos e 53 feridos em uma boate gay de Orlando, nos Estados Unidos - ainda que saibamos que nem todas elas servirão realmente ao coletivo, mas a interesses individuais.

O candidato à presidência dos Estados Unidos Donald Trump, por exemplo, emitiu pareceres sobre a tragédia pelo Twitter:


("Tiroteio muito feio em Orlando. Polícia investiga possível terrorismo. Muitas pessoas mortas e feridas. (...) Estou rezando por todas as vítimas e suas famílias. Quando isto irá parar? Quando formos mais duros, inteligentes e cautelosos? (...) Agradeço pelos parabéns por estar certo sobre o terrorismo islâmico radical, mas não quero parabéns, eu quero mais rigor e cautela".)

Se nossas narrativas são determinadas pelas escolhas discursivas que fazemos, pode-se dizer que Trump, bem como setores mais conservadores da política ocidental, optam por enfatizar a posição do atirador, ainda que as investigações policiais não tenham trazido muita clareza sobre possíveis motivações religiosas, porque veem nisso uma oportunidade de ascensão de seus ideais segregacionistas.

Ainda que viéssemos a confirmar que o homem faz parte ou agiu em nome de algum grupo radical islâmico, o que leva alguém a pensar que, se tratando da população LGBT como vítima, isso é mais sobre fundamentalismo próprio de um grupo do que de fundamentalismo arraigado em nossas concepções de mundo, inclusive pelo cristianismo?

Além do horror, o que faz com que grande parte dos atos terroristas levados à público sejam semelhantes é o esforço imediato de alguns em associá-los ao islã ou ao Oriente Médio de maneira geral. O que é, por si só, uma "nova" e sofisticada forma de terrorismo - comete e incentiva a violência psicológica contra determinado grupo, mas de um jeito dissimulado. Para além disso, no entanto, importa agora discutir o que é particular a cada atentado. Cada ataque traz particularidades que revelam intencionalidades, e, por isso, cada um deles exige uma posição política específica, um debate específico e uma cobertura específica. É necessário cobrar da mídia uma postura mais consciente e coerente em relação a isso, bem como do poder público medidas que sirvam, também, às especificidades do caso.

Os icônicos atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York, ao complexo empresarial World Trade Center, nos trouxeram o debate sobre a relação econômica, política e militar entre os Estados Unidos e o Oriente Médio. O ataque ao jornal satírico francês Charlie Hebdo em janeiro de 2015, por sua vez, reacendeu o debate sobre liberdade de expressão; assim como os ataques que se sucederam a locais de culto muçulmano na França reacenderam o debate sobre intolerância religiosa e xenofobia na Europa.

Como vinha sendo dito, se há algo que pode nos salvar da dor que paralisa, porque poderia ter sido conosco, com nossos amigos ou com a nossa família, mas também porque foi com o outro e isso importa, essa coisa é a luta que acontece no diálogo, na ação, na mudança de pensamento.

Não levar em consideração o local escolhido, a boate Pulse, que em seu próprio site se define como "o bar gay mais quente de Orlando", é fazer a manutenção de um sistema que invisibiliza a violência simbólica e concreta sofrida por aqueles que transgridem normas de gênero e sexualidade.

Não levar em consideração as circunstâncias do ataque é abdicar de nossa narrativa e abrir espaço para a narrativa de outros - que, além de negligenciar o inegável contexto de LGBTfobia, usarão da situação para legitimar a estigmatização de outras populações.

Depois do ódio, há a possibilidade de escolher algo além dele.

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