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Alcançar a igualdade global de saúde no prazo de uma geração

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Estamos na cúspide de uma conquista única na história humana.

Quando olhamos para a história humana mais ampla, o status de saúde das pessoas era relativamente semelhante em todo o mundo. Os índices de mortalidade materna e infantil eram altos, a expectativa de vida era curta, e o status de saúde era pobre. Essa era a condição universal.

Ao longo dos últimos dois séculos, vimos o mundo se diferenciar.

Avanços científicos e em investimentos em saúde pública proporcionaram condições de saúde muitíssimo melhores aos cidadãos do mundo rico, ocidental, deixando para trás os cidadãos dos países mais pobres. O resultado foi "uma grande divergência" na saúde global, chegando hoje a um ponto em que apenas uma cada 150 crianças nos Estados Unidos ou Reino Unido morre antes de chegar aos 5 anos de idade, contra uma em cada dez crianças nos países mais pobres do mundo.

Mas encontramo-nos hoje num momento notável de inflexão na história.

Um novo relatório publicado na The Lancet, intitulado Global Health 2035, do qual fomos co-autores ao lado de 23 economistas e especialistas em saúde renomados, mostra que, se fizermos hoje os investimentos corretos no setor de saúde, poderemos alcançar níveis universalmente baixos de mortes maternas, infantis e por doenças infecto-contagiosas até 2035. Em outras palavras, poderemos mudar de direção, alcançando uma "grande convergência" na saúde global no prazo de apenas uma geração.

Dispomos da capacidade financeira e de capacidades técnicas constantemente crescentes para assegurar que uma criança nascida em qualquer lugar do mundo possa ter vida longa e saudável.

Ao assegurar que medicamentos que salvam vidas, vacinas, mosquiteiros para prevenir a malária, exames diagnósticos e outras ferramentas de saúde sejam disponibilizados a todos, poderemos reduzir de modo dramático as mortes provocadas pelos flagelos tradicionais do mundo pobre -- como Aids, tuberculose, malária, pneumonia infantil e diarreia infantil--, para níveis universalmente baixos.

A conquista dessa grande convergência fecharia o abismo de saúde global e salvaria aproximadamente 10 milhões de vidas por ano em 2035 e a partir desse ano, ao mesmo tempo elevando a produtividade humana e fomentando o crescimento econômico.

Possivelmente a mais notável conclusão apresentada no relatório da The Lancet é que os resultados econômicos positivos do investimento em uma grande convergência seriam enormes. Empregamos novos métodos de pesquisa em economia de saúde para atribuir uma quantia em dólares ao valor direto da sobrevivência maior. Constatamos que cada dólar investido na conquista da grande convergência no período de 2015-2035 terá retorno de entre 9 e 20 dólares. Esse retorno sobre o investimento é assombroso. Nos mercados financeiros, simplesmente não existem investimentos com retornos previsíveis de entre nove para um e 20 para um, em horizontes temporais razoáveis.

Investir numa grande convergência não é um empreendimento capitalista de alto risco que possa fracassar. A história mostra que países de baixa ou média renda que se esforçam para assegurar que todos seus cidadãos tenham acesso a ferramentas e serviços de saúde que salvam vidas podem reduzir seus índices de mortalidade em pouco tempo. Por exemplo, Chile, China, Costa Rica e Cuba (os países ditos "4C") todos eram classificados como de renda baixa ou médio-baixa em 1990, mas conseguiram alcançar níveis altos de status de saúde até 2011, por meio de investimentos no setor da saúde. Inacreditavelmente, desde 1980 a probabilidade de um bebê nascido na China sobreviver até os 5 anos de idade passou de comparável ao Botsuana para aproximadamente comparável ao Reino Unido e Estados Unidos.

É evidente que salvar 10 milhões de vidas por ano custará dinheiro -- cerca de US$70 bilhões por ano em investimentos em saúde. Mas o relatório constata outra boa notícia: que o custo representa menos de 1% do PIB adicional que ficará disponível aos países de renda baixa e médio-baixa, graças ao crescimento aumentado do PIB nos próximos 20 anos. Vamos repetir. Um investimento da ordem de menos de 1% do PIB feito por governos evitaria 10 milhões de mortes. Isso com certeza representa a maior oportunidade disponível no planeta de melhorar o bem-estar humano.

Existem várias políticas novas e ousadas que os países deveriam adotar agora para ajudá-los a auferir esses benefícios dramáticos. A Comissão constatou que uma série de políticas públicas inovadoras -- como a taxação de substâncias prejudiciais à saúde, como tabaco, bebidas açucaradas e álcool, e a redução dos subsídios aos combustíveis fósseis -- criariam novos fluxos de recursos para a saúde. Também ajudariam a reduzir as mortes por doenças crônicas como cânceres, doenças cardíacas e doenças pulmonares. Um imposto sobre o tabaco é a alavanca isoladas mais poderosa para reduzir doenças crônicas e poderia gerar importante receita pública para o atendimento básico à saúde. Por exemplo, um imposto de 50% sobre o tabaco que fosse cobrado na China nos próximos 50 anos levantaria US$20 bilhões anuais e salvaria 20 milhões de vidas.

Quando se trata de ar limpo, muitos países dão grandes subsídios aos combustíveis fósseis poluentes que favorecem a poluição que encurta vidas. Na África subsaariana, esses subsídios são responsáveis por surpreendentes 3,5% do PIB líquido. O Global Health 2035 argumentou que os países que adotam esses ou outros subsídios não justificados devem reduzir ou eliminá-los. A medida traria benefícios duplos, com a redução das mortes por doenças cardíacas e pulmonares e com a criação de mais espaço nos orçamentos para os gastos altamente prioritários com saúde pública.

Essas conclusões devem servir de alerta não apenas aos governos dos países de renda baixa e médio-baixa, mas também à comunidade internacional mais ampla. Nosso sistema global de saúde precisa ser reestruturado para ajudar a concretizar esses ganhos dramáticos em saúde.

Os países de baixa renda ainda vão precisar de apoio financeiro direto, mas devemos começar a deslocar a assistência global para a saúde na direção do fornecimento de bens públicos globais. Precisamos dobrar nossos investimentos em pesquisa e desenvolvimento de vacinas, diagnósticos e medicamentos para as doenças que causam mais mortes no mundo pobre. Precisamos investir mais na chamada "ciência da implementação" -- a identificação dos modos de tratamento que tenham relação custo-benefício melhor em diferentes tipos de ambientes. E precisamos enfrentar com seriedade as ameaças que não respeitam fronteiras nacionais, como resistência a antibióticos, medicamentos falsificados e pandemias de gripe. A próxima pandemia de gripo pode ser muito mais letal que a epidemia de 1918 que matou 50 milhões de pessoas numa era anterior ao tráfego internacional de massas.

Nosso relatório não será o último que será escrito sobre a saúde global. Haveria desafios em todo o futuro previsível. Mas só há um momento na história em que teremos a perspectiva de uma grande convergência na saúde. Esse momento é agora. Temos condições financeiras de arcar com o custo. Sabemos como fazê-lo. Vamos então colocar mãos à obra.