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'Homens e mulheres vivem em mundos diferentes'

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Jac Depczyk via Getty Images

Como parte de meu trabalho no Projeto Sexismo Cotidiano [Everyday Sexism], conversei com crianças de menos de 16 anos que sabem qual é o lugar de uma mulher. Elas estão acostumadas a ser bolinadas no transporte diário, em seu uniforme escolar. Falei com adolescentes que conhecem -- todos eles -- uma garota que foi estuprada ou atacada, ou teve fotos íntimas expostas até que se sentiu desesperada e pensou em suicídio. Escutei mulheres que foram atacadas e agredidas e depois rejeitadas por um sistema de asilo que -- ironia suprema -- se recusa a acreditar em sua história porque é terrível demais. Escutei mulheres idosas que são gratas pela invisibilidade da idade em uma sociedade que as considera inúteis, porque pelo menos é melhor que sua vida anterior, cheia de assédio e ataques.

A consequência de viver em um mundo onde as pessoas de um sexo são tratadas -- de inúmeras maneiras pequenas, invisíveis, indiferenciáveis -- de modo completamente diferente das pessoas do outro sexo é enorme. Você não precisa experimentar diretamente cada componente individual desse nível de violência, opressão e preconceito combinados para ter um enorme impacto sobre você -- sobre sua vida e seu estilo de vida, suas ideias e seus ideais, sua percepção fundamental de si mesma e do mundo ao seu redor.

"Os amigos homens não compreendem o problema e não compreendem por que eu seguro as chaves em minha mão como uma arma quando caminho sozinha, por via das dúvidas."

Pensamos em homens e mulheres que vivem e trabalham no mesmo mundo, e o vivenciam de modo semelhante. Mas, de muitas maneiras, a manifestação de um acontecimento ou atividade idêntico por um pode ser totalmente irreconhecível pelo outro.

"Nas saídas à noite, tornou-se normal levar beliscões no traseiro, mas o pior é quando eles apertam meu sexo e depois desaparecem na multidão, de modo que eu nem sei quem fez isso (já aconteceu mais de uma vez, e machuca). Também fui ameaçada por homens e empurrada contra as paredes por resistir ou por defender amigas que eles estavam tentando assediar."

Para a maioria das mulheres, uma saída noturna significa assédio e agressão, bolinação e avanços indesejados, assobios e gracejos. A experiência de ir a um clube ou um bar para a maioria dos homens é totalmente diferente -- embora fisicamente eles estejam no mesmo espaço. Isto leva a uma diferença completa em nosso comportamento. Para muitos homens, os inúmeros passos de rotina que as mulheres dão para se proteger -- sair em grupos e manter guarda umas das outras, tomar táxis para evitar caminhos mal iluminados, segurar as chaves entre os dedos, ficar juntas de maneira protetora para evitar bolinação -- são difíceis de conceber.

Minha experiência de caminhar pela rua onde moro em Londres é totalmente diferente da do meu parceiro, apesar de morarmos juntos, termos horários semelhantes e ambos percorrermos o mesmo caminho diariamente. Ele não fica tenso quando se aproxima um carro de certo tom de verde, porque um dia ele reduziu a marcha enquanto o motorista lhe dizia, em detalhes de dar calafrios, como havia anotado exatamente que ruas ele costumava percorrer e a que hora. Ele não atravessa a rua para evitar a peixaria, onde os homens param na porta fazendo comentários em voz baixa sobre seu corpo quando ele passa. Ele não precisa ir ao café um pouco mais distante e sem WiFi conveniente porque os garçons do lugar mais próximo o assediaram, pediram seu telefone e fizeram apostas sobre quem o conseguiria na última vez em que ele foi lá. Ele não se esconde em uma entrada de loja quando avista o homem que certa vez o seguiu ao descer do ônibus e pela rua. Nada disso cruza o radar de meu parceiro.

Quando ele caminha pela rua, apenas caminha pela rua. Mas minha experiência de caminhar pela rua é colorida por todas essas experiências e outras, não apenas no dia em que elas acontecem, mas em todos os dias seguintes.

Todas essas diferenças de percepção e comportamento também moldam nossas ideias mais básicas de nossos direitos humanos e limites -- nosso medo de ataque, nossa avaliação de segurança e nossa opinião sobre nossa própria culpa.

"Até que a escutei na Hora da Mulher, agora há pouco, eu achava que era tudo minha culpa. Eu tive experiências de assédio sexual a vida inteira -- o tio que bolinava meus seios enquanto me confortava quando meu pai estava morrendo no quarto ao lado; o gerente do supermercado que comentou sobre minha saia curta em meu emprego de sábado e disse 'Você não deveria usar saia curta se não quiser ouvir comentários'. Depois, como uma funcionária pública de 18 anos, eu fui empurrada contra uma parede, beijada e bolinada.

"E o tempo todo eu pensava que era minha culpa por enviar os sinais errados."

O mundo à nossa volta nos envia mensagens sobre nós mesmas como mulheres -- sobre nossa culpa e nossa diferença, nossa responsabilidade e nossas falhas. Ele nos dá lembretes intermináveis da vulnerabilidade e vitimização das mulheres. Ele nos faz saber que é normal e comum que as mulheres experimentem assédio, agressão e estupro. E ele nos diz que merecemos isso. E o tempo todos somos condicionadas a ser passivas e agradáveis, a não criar confusão -- a sermos como damas, socialmente aceitáveis. Antes de experimentarmos a violência, fomos condicionadas a esperá-la e aceitá-la.

"Depois de uma briga com meu ex-namorado por me deixar plantada enquanto ainda estava no bar com seus amigos, ele me disse: 'Você deveria ficar feliz por eu a tratar como trato. Montes de homens estão em casa batendo em suas parceiras'."

"Um colega de trabalho que eu considerava um bom amigo em um novo emprego chegou por trás de mim, passou os braços por minha cintura e murmurou em meu ouvido: 'Ei, colega, você sabe como eu sei que vamos fazer sexo esta noite? Porque eu sou mais forte que você'. Ele morreu de rir, porque na mesma hora comecei a chorar."

Mundos diferentes. É o que permite que a metade da população ria de uma coisa da qual a outra metade vive em constante temor.

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