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Atrás das Luzes de Stranger Things

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stranger things

The Demogorgon got me.

Quando eu li uma postagem do Daniel Lameira comentando sobre Stranger Things, uma ficha enorme caiu. Tipo, enorme mesmo, e trouxe de arrasto um milhão de fichinhas que foram caindo e reforçando a grandona. Mandei um inbox para ele e começamos a alimentar as teorias e pirações um do outro, então pode haver alguns pontos exagerados. Ele comentou que seria bacana escrever um artigo sobre isso, então aqui estou.

Ah, devo dizer que tem spoilers para caramba sim, um inception de spoilers, então veja toda a série antes de continuar lendo.

Este texto pode parecer uma viagem maluca sem noção, mas -- apenas mas -- peço que cruze a linha do acrobata e tente interpretar a produção de um outro lado: a série é sobre uma luta de Will contra um câncer. Eu ia deixar essa informação só para o final, mas acho que ler o texto com isso em mente pode fazer que veja coisas que nem eu ou o Lameira vimos.

Ah, e nem preciso dizer que a série não é apenas isso! Lógico que é uma mistura homogênea de terror, drama, aventura e ficção científica num clima nostálgico e agradável dos anos 80, sobre crianças que se unem para salvar um amigo que foi pego por um monstro numa dimensão paralela. Nossa interpretação não é a única linha da trama, e nem todos os fatos podem ser trabalhados nesse paralelo, mas a história pode ser mais do que isso... Que tal buscar mais uma mensagem escondida espalhada ali, entre as luzes?

Will está doente, o câncer é avançado, ele cai inconsciente e é levado para o hospital: o Demogorgon o pegou. A comoção e a luta da mãe dele, Joyce Byers, é clara, nos assustamos com ela, num misto de esperança e desolação, quando há um contato pelo telefone. O paralelo com a tecnologia aqui foi claro para mim; o telefone representando um monitor no hospital, esboçando uma reação do filho. Mas ainda é pouco, o quadro continua se agravando, o tumor se alastrando pelo sistema, a internação na UTI com vários equipamentos e monitores (luzes) sustentando e analisando o filho.

O desespero de Joyce ao sentar na cama do filho, tentando buscar uma interação ou resposta dele pelas luzes, equipamentos. Além disso, resgatando uma informação dos últimos episódios, vemos Will reclamando do frio no mundo invertido, que pode ser ligado ao frio gerado pelo tratamento tradicional de quimioterapia e à UTI.

Reforçando essa ideia, temos o comportamento da Karen, mãe do Mike e da Nancy, que não apresenta tanta preocupação com o fato de os filhos fazerem à noite o mesmo trajeto que Will fazia. Karen até é um pouco displicente, não demonstra tanto nervosismo. Como se não fosse preocupação o bastante para Mike desaparecer, deixando até ele sozinho em casa. Além disso, ao visitar a mãe de Will, ela leva um prato de comida para conversar, não se oferece para ajudar na busca. É uma ação que remete a consolo, e não ajuda efetiva. (obrigado Claudia Strozzi por essa!)

Onze é um experimento, criada com objetivos distintos, mas que é identificada como um modo de entrar em contato com um outro plano e, eventualmente, com o monstro. Os primeiros testes, em ambiente isolado e controlado, acabam dando errado e o monstro-câncer sai de controle. Mas o laboratório mantém em segredo o experimento e possível tratamento. Aqui, no laboratório, o simbolismo das "plantas" do lado invertido, que se alastram por todo lado como um... tumor, foi bem claro para mim, fazendo a ficha cair mesmo.

curtisen

Fonte: http://oncogenex.com/physicians/custirsen-ogx-011

Minha tradução livre: Custirsen é uma droga experimental desinada para bloquear a produção da proteína custerin, que tem papel fundamental na sobrevivência das células cancerígenas e na resistência a tratamentos. Clusterina é produzida nas células dos tumores como resposta de tratamentos e intervenções como quimioterapia, tratamentos hormonais e radioterapia (...) Custirsen é designada para alterar a dinâmica do tumor, reduzindo seu crescimento e a resistência a outros tratamentos...

Custirsen também é conhecida como OGX-11. ONZE. (obrigado ao Victor Almeida por essa pérola)

Conforme a série avança, os paralelos ficam cada vez mais claros... Vemos o pai de Will querendo ganhar dinheiro com o sofrimento e processos judiciais, o que acontece muito em casos de câncer. Quando a metástase está avançada, normalmente os médicos pedem para a família se preparar para o pior, o que pode ser estendido para a versão "fake" de Will, criada pelos médicos.

A versão inanimada do filho, como um paralelo ao que tratamentos convencionais podem fazer com o paciente, a fúria da mãe ao conversar com o diretor da empresa, por terem destruído o filho dela. E, sobre o Doutor Martin, diretor do laboratório, o Lameira encontrou outra referência: há uma variação de tumor chamada de Tumor de Brenner (aqui um artigo em português com informações sobre ele).

O policial Jim Hopper, que entende de modo íntimo e pessoal a luta da mãe, participa da busca ativamente e não procura prender o pessoal do laboratório; o objetivo dele é salvar o garoto! Por já ter enfrentado o sistema, é ele que faz o acordo com o laboratório, mantendo sigilo sobre os métodos usados para salvar Will. São os dois únicos personagens que vemos enfrentando firmemente o "lado invertido": mãe do filho doente e pai da filha, morta pela doença. É no outro lado que os flashbacks se tornam mais frequentes a Hopper, na caçada ao filho -- e não à criatura. O objetivo dele nunca é matar o monstro, mas sim trazer Will de volta.

Há também o sacrifício de sangue, feito por Jonathan e Nancy, para atrair o monstro e salvar Will, o que pode ser visto como um simbolismo para a transfusão de sangue. (agradecimentos ao Matheus Duque Erthal por essa!)

Sobre a Barb, eu mesmo senti que faltou explorar um pouco a personagem, ou o que aconteceu com ela e as consequências disso. Mas recebemos uma possível analogia ao caso dela: tanto Barb, quanto os velhos que foram pegos bebendo, estavam num momento vulnerável. Há vários estudos que ligam a evolução rápida e devastadora de tumores com ansiedade e depressão (e ainda há estudos de tratamento desses sintomas em pacientes terminais com LSD... sacou? LSD), que representa bem a situação em que a personagem se encontrava, sofrendo bullying, sentindo-se excluída e rejeitada. Na cena em que ela é "puxada" na piscina, pode-se interpretar ela soltando a escada, como uma desistência. A série não explora o bastante para concordar ou refutar isso, mas achei a analogia plausível. (agradecimentos à Hannah por essa referência!)

Além disso, a criatura em nenhum momento pega suas vítimas como hospedeiras, por isso estranhei um pouco a cena com o tentáculo na garganta de Will. Mas, com essa ideia e o paralelo com a cena da filha do policial, "desenhando" a cena para nós, podemos ver a redenção do personagem paterno e resgate do garoto: com a retirada do tubo de traqueostomia e reanimação de Will, trazendo-o de volta.

E esse resgate só é possível por conta de o monstro estar isolado, sendo atacado pela Onze, que, "melhorada" devido ao contato e "testes com humanos", é forte o suficiente para extirpar o monstro-câncer. Numa analogia ainda mais profunda e maluca, podemos ver os três amigos como tratamentos tradicionais de câncer, que não são eficientes o bastante -- isso fica claro no ataque com estilingue pelo Lucas. Eles só funcionam bem quando trabalham em conjunto com a Onze, e ela também, só se sente capaz e reforçada junto dos garotos.

Além disso, podemos pensar no futuro da série. O monstro-câncer se tornando resistente ou englobando Onze, o que é reforçado pela "recaída" de Will no último episódio.

Pode ser uma piração maluca e doentia, mas a jornada está aí, uma mensagem que pode ter sido interpretada num gif randômico das luzes, mas, para nós, fez um sentido absurdo; foi a cereja coroando essa série fantástica. É maravilhoso ver uma produção tentando algo diferente, além do óbvio, e que -- se não deixa mensagens subliminares óbvias -- deixa margem para interpretações e sentidos pessoais a cada espectador.

Friends don't lie.

* Este texto foi publicado originalmente no Medium

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