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Um alerta para a humanidade

Publicado: Atualizado:
ELIE WIESEL
Gary Cameron / Reuters
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Elie Wiesel nos deixou somente um ano depois do falecimento de seu querido amigo e também sobrevivente de Auschwitz Samuel Pisar - meu pai. Eles estavam entre os mais jovens e mais corajosos fugitivos dos campos de extermínio nazistas, e a missão de suas vidas era alertar as gerações futuras contra os perigos que ainda temos pela frente.

Elie e eu construímos uma amizade especial ao longo dos anos. Em um de nossos primeiros encontros, na casa dos meus pais, em Paris, eu tinha cerca de 11 anos e ele me perguntou o que eu estava lendo. "Guy de Maupassant", respondi, orgulhosa de estar devorando ainda jovem os contos de um dos maiores autores franceses do século 19. Ele fechou a cara por um instante, como se estivesse tentando afastar um pensamento ruim. Depois, sorriu e disse: "Depois experimente Flaubert. Você vai gostar muito mais". Fiz pouco do comentário, achando que era só um adulto sendo condescendente, até que algumas semanas depois li um trecho descaradamente anti-semita. Entendi na hora. Wiesel não estava menosprezando o brilhantismo literário de Maupassant. Ele estava dando um aviso sutil para uma criança sobre as surpresas estranhas e cortantes que podem estar escondidas nos lugares mais inesperados. Hoje, considero esse episódio um chamado à vigilância.

Quase duas décadas depois, Bill Clinton o enviou numa missão presidencial para se reunir com refugiados de Kosovo em campos na Albânia e na Macedônia, enquanto a guerra se desenrolava em seus países de origem. Eu era uma jovem assessora do Conselho de Segurança Nacional e participei da pequena delegação.

A viagem cortou meu coração. Foi difícil observá-lo nas tendas durante horas, num calor opressivo, escutando aqueles homens, mulheres e crianças falando de seu sofrimento, ver nos olhos dele a tristeza misturada ao ódio com a "limpeza étnica" que acontecia nem meio século depois da queda do Terceiro Reich.

Na Macedônia, conheci uma menininha adorável, Mirena, com olhos reluzentes. Ela segurou minha mão, rindo, e me mostrou o campo, aparentemente ignorando a desolação que a cercava. Na hora de ir embora, não conseguíamos no separar. Como queria levá-la comigo! Chorei naquela noite, dando-me conta de que Mirena tinha a mesma idade de Frieda, minha tia, quando ela e minha avó foram colocadas num trem de carga e enviadas para a câmara de gás em 1941.

Dez anos depois daquela viagem para os Bálcãs, uma improvável delegação ecumênica foi a Auschwitz, no auge do inverno e sob os auspícios da Unesco, numa missão para incentivar tolerância e compreensão entre as três grandes religiões monoteístas. Diante das ruínas das câmaras de gás e dos crematórios, tremi de emoção. Clérigos cristãos, judeus e muçulmanos se reuniram, transcendendo diferenças espirituais e políticas, para rezar pelo mesmo Deus.

A frase de maior impacto do dia foi proferida por um muçulmano, o grão-mufti da Bósnia, Mustafa Ceric: "Vim aqui para ver o mal que os humanos podem fazer a outros humanos e para dizer que aqueles que negam os genocídios de Auschwitz ou Srebrenica cometem genocídio eles próprios".

Hoje, com uma onda crescente de violência no mundo todo que afeta os cidadãos mais vulneráveis de todas as fés, essa frase nunca foi tão verdadeira.

Agora que eles não estão mais aqui para dar seu testemunho, cabe a nós, seus filhos, usar nossa voz e ser vigilantes.

Wiesel e Pisar, embora amigos e almas irmãs, eram indivíduos bastante diferentes. Elie veio de uma família ortodoxa da Romênia, se manteve profundamente devoto e delicado e dedicou sua vida a escrever e ensinar.

Meu pai nasceu na Polônia, em uma família liberal e assimilada. Quando escapou de Dachau, aos 16 anos, depois de quatro anos preso, sua relação com o Todo-Poderoso tinha se tornado bastante contenciosa. Mas seu espírito era forte, e ele construiu uma carreira vibrante de autor, advogado internacional e assessor de chefes de Estado.

Ambos passaram suas vidas extraordinárias alertando a humanidade a não cometer os mesmos erros de novo. Seu desaparecimento sinaliza o crepúsculo de uma era. Me enche não só de tristeza profunda, mas também de medo.

Medo de que, nas palavras do meu pai, "depois de nós a história vai falar, na melhor das hipóteses, com a voz impessoal dos acadêmicos e novelistas e, na pior, com a voz maliciosa dos demagogos e falsificadores. Os mais incendiários entre eles já chamam o Holocausto de mito. Enquanto estivermos vivos, temos de continuar transmitindo o legado dos mártires para os nossos contemporâneos."

Agora que eles não estão mais aqui para dar seu testemunho, cabe a nós, seus filhos, usar nossa voz e ser vigilantes.

Nossa missão é clara:

Na semana que Wiesel nos disse adeus, o Reino Unido votou para sair da Europa. Ao mesmo tempo, massacres terroristas deixaram centenas de mortos no mundo todo. Nos Estados Unidos, Donald Trump vomita ódio e xenofobia.

Esses eventos, e a insensatez populista que parece seduzir eleitores dos dois lados do Atlântico, trazem ecos dos anos 1930.

Wiesel, Pisar e tantos outros sobreviventes das piores atrocidades cometidas pelo homem contra o homem não acreditavam que estamos condenados a um comportamento fratricida, ou que existam inimigos hereditários. Apesar de tudo o que enfrentaram, ambos mantiveram uma fé inabalável na humanidade.

Numa surpresa do destino, minha mãe - a música da família - trouxe meu pai para seu mundo na última década de vida dele. Foi assim que ele escreveu uma de suas maiores obras, um libretto para a monumental Sinfonia Nº 3 de Leonard Bernstein, Kaddish.

Deixo-os com um curto trecho:

"Qual é minha mensagem, se não que o homem

Apesar de dotado da liberdade para escolher entre o bem e o mal,

Segue capaz do pior, e também do melhor,

Da loucura, e também da genialidade,

A menos que prestemos atenção nas lições do passado,

Celebremos a santidade e a dignidade da vida humana,

E defendamos os valores centrais de todos os grandes credos,

As forças da escuridão vão condenar nossos sonhos de um futuro radiante

Com paz, liberdade e prosperidade para todos."

Hoje, mais que nunca, temos de prestar atenção neste aviso para a humanidade.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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