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48 horas

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VANDERLEI ALMEIDA via Getty Images
VANDERLEI ALMEIDA via Getty Images

Dia 1.

Despertador. Whatsapp. Facebook. 6h30 o golpe se consumou. Depois da queda, o coice. "Buzinaço. Senado votou agora. Um amigo nosso foi detido na madrugada, mas foi liberado", avisa uma amiga. 7h: "E agora? Vamos pra rua?", "Hoje tem manifestação no MASP, né?". 11h30: "Viram o discurso da Dilma? Achei o melhor dela". "Ela está saindo, parece que vai falar pra quem está do lado de fora."

Sento no chão da sala, abraçando minhas próprias pernas não consigo conter as lágrimas ao ouvir uma mulher que pode merecer dezenas de críticas nas decisões políticas, só não pode ser acusada de não ser forte. Passa um filme na minha cabeça, lembro do dia 1º de janeiro de 2011, naquela mesma Praça dos Três Poderes, me emocionei com a posse da primeira mulher presidenta do Brasil. Creio que foram as únicas duas vezes em que Dilma falou para o público que a aguardava na frente do Planalto.

"Caralho, as PMs já começaram a dar o recado do que vem por aí", exclama um amigo. "Isso foi feito em todos os golpes militares pela América Latina". Tento buscar alguma racionalidade: "Não exagera, companheiro, o próprio governo do PT não agiu como devia, nunca pautou a desmilitarização das polícias, por exemplo, e não condenando publicamente as repressões a movimentos sociais." "Você tem razão", me alertou outro amigo, "mas o momento é de emoção e não de razão." A coisa vai ficar feia.

Início da tarde. O lema do governo Temer vai ser "ordem e progresso". Nada mais representativo desse retrocesso rumo à República Velha. Isso é só o começo. Olha esse ministério formado todo por homens, brancos e velhos. Tudo parece voltar ao passado em uma velocidade assustadora. O presidente agora usa mesóclise - Jânio Quadros ficaria orgulhoso -, mas engasga no discurso de posse. Foi-se a Cultura, a Controladoria, e os direitos das mulheres, dos negros, dos índios, dos homossexuais, tudo vai ficar embaixo do Ministério da Justiça e da "Cidadania" comandado por Alexandre de Moraes, um sujeito que nos últimos meses à frente da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo tudo o que fez foi ocultar dados, descumprir a lei, ignorar a justiça e tentar impedir o livre direito de manifestação, autorizando ou ordenando que a polícia sob seu comando prendesse e espancasse adolescentes e jovens que lutavam legitimamente por seus direitos. Mendonça Filho, do DEM, para a Educação e a Cultura, um partido que foi contra todos os avanços que os governos Lula e Dilma trouxeram pra educação: PROUNI, cotas, royalties do petróleo para educação. Tudo parece sob ameaça ao mesmo tempo.

Dia 2.

Acordo e vejo a mensagem de um amigo: "a polícia entrou na diretoria de ensino que estava ocupada aqui do lado de casa e levou vários estudantes presos". E logo vem outra "aquele nosso amigo que foi preso ontem, ficou 4 horas na delegacia sem direito a um telefonema sequer, levou tapa na cara por encarar de frente o policial, foi obrigado a ficar nu e foi espancado." O "crime" dele foi tentar impedir um espancamento de um morador que cantava Racionais para a polícia durante uma manifestação.

E logo leio a notícia: "Alckmin libera reintegração de posse de escolas sem necessidade de autorização judicial". Meu Deus! Sobe um frio na espinha. Meu amigo estava certo ontem. A repressão vai ser muito pior do que já vinha sendo feita até então. Não tenho mais dúvidas que esse governo ilegítimo vai se impor pela força se for necessário. "PEC de autoria de Romero Jucá - que agora é ministro do Planejamento - deve tirar 35 bilhões da saúde", mas pode chegar a 80 bilhões segundo entidades do setor. R

"Reforma da previdência com idade mínima vem aí!", anuncia o ministro Meirelles. Lembro do seu José, 60 anos, morador da periferia de São Paulo, ex-metalúrgico, ex-porteiro e ex-pedreiro, que me contou das dificuldades de encontrar emprego nos últimos 15 anos: "O projeto dos nossos governantes é que se você tem 45 anos está velho pra trabalhar e novo pra aposentar".

"A meta é baixar impostos, mas agora pode ser que seja preciso subi-los!". Oi? Vou ouvindo rádio e me embrulha o estômago a hipocrisia ou a ignorância dos comentaristas de economia dizendo que agora as coisas vão melhorar. Como podem acreditar que num passe de mágica a "fada da confiança" vai resolver os problemas da economia? O fundo do poço está muito longo, penso sozinho. "Despesas serão congeladas nominalmente" afirma o novo ministro queridinho da imprensa e dos mercados. Isso significa que saúde, educação e as demais áreas sociais terão cortes todos os anos em termos reais, penso silenciosamente mais uma vez.

Mais uma manifestação. Apoio aos alunos contra a violência policial. Fim do dia, cansado, preciso conversar com amigos, conversar, tomar uma cerveja e fazer uma terapia coletiva pra fugir da depressão pós-golpe. Preocupação, desânimo, medo pelo que vem pela frente e a necessidade de assumirmos nossas responsabilidades enquanto jovens bem formados e bem informados em posições estratégicas na sociedade. Mas o que fazer? Pra onde ir? Como agir? Não me lembro de ter tanta certeza da necessidade de fazer algo e tanta angústia por não saber o que fazer.

Foram só 48 horas! Imagina o que ainda vem por aí...

LEIA MAIS:

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