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A improvável delação de Eduardo Cunha

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EDUARDO CUNHA
EVARISTO SA via Getty Images
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O mundo político voltou a estremecer nesta semana quando o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha foi preso preventivamente no âmbito da operação Lava Jato.

Tão logo a notícia se espalhou, jornalistas e pessoas ligadas ao mundo da política passaram a comemorar ou se preocupar com uma possível delação premiada do ex-todo poderoso do Congresso Nacional.

Do lado do governo, o silêncio de ministros e parlamentares governistas e a antecipação da volta de Michel Temer, que estava em visita oficial ao Japão, deram importantes pistas a respeito do clima de tensão que atingiu o Palácio do Planalto.

Do lado da oposição, o clima era de euforia. O senador Lindbergh Farias (PT) deu o tom: "Se ele fizer uma delação, esse governo de Michel Temer não se sustenta por um dia".

Contudo, a aclamada delação de Cunha não parece algo factível no curto prazo. Não tanto por falta de vontade do ex-deputado, que, segundo tem sido noticiado, já teria organizado amplo material e contratado advogados especializados nesse tipo de negociação, mas principalmente pela falta de abertura da força-tarefa de Curitiba, que já mandou recado dizendo que ele terá de "cuspir-fogo" se quiser se beneficiar de uma delação premiada.

As dificuldades em fechar novos acordos de delação premiada no âmbito da Lava Jato parecem cada vez maiores e isso se deve a três fatores primordiais.

Em primeiro lugar, a grande quantidade de acordos desse tipo que foram negociados pode colocar a Lava Jato sob o risco de acabar sem ninguém preso. Os primeiros delatores, como Alberto Youssef, já estão em vias de conseguir sua liberdade, outros empresários e ex-parlamentares que obtiveram o benefício de redução da pena já estão em casa, com tornozeleiras eletrônicas. Ao mesmo tempo, processos sob responsabilidade da Procuradoria-Geral da República (PGR) que envolvem os principais nomes da política nacional caminham em ritmo muito mais lento do que os processos de Curitiba.

Dessa forma, a operação que tem boa parte de seu respaldo fundado na "opinião pública" e na sanha punitivista que muitas vezes aproxima direita e esquerda, e que vê no encarceramento a principal forma de punição pode, ao fim e ao cabo, não deixar nenhuma figura de peso atrás das grades. Assim, Cunha pode ter um acordo negado para que sirva de "exemplo", passando longos anos na cadeia.

O segundo ponto que pesa contra a delação do ex-parlamentar é a cada vez mais patente tentativa de promotores em forçar certa narrativa aos delatores. Há vídeos circulando pela internet nos quais membros do Ministério Público ignoram determinado fato ou personagem narrado em detrimento de outros de maior "interesse".

Além disso, têm sido noticiadas, tanto em veículos da grande mídia quanto por blogueiros independentes, tentativas de vincular a aprovação de delações a fatos ou elementos que incriminem algumas figuras centrais do esquema que os procuradores têm em mente.

Se é verdade que a narrativa de que o juiz Sérgio Moro e os procuradores e delegados da força-tarefa da operação Lava Jato só querem pegar políticos do PT é tão simples quanto errada, também é um fato inegável que estes guardam certa simpatia adicional em encontrar provas e convicções contra membros daquele partido ou que em algum momento foram apoiadores dos governos Lula e Dilma.

Cunha, sem dúvida, adoraria jogar a pá de cal sobre o PT, mas sua munição talvez não seja suficiente para isso, tendo em vista sua ruptura com o partido nos últimos anos.

Finalmente, há um terceiro elemento de ordem política que provavelmente atrapalhará uma tentativa de Cunha em conseguir algum benefício delatando companheiros. Há tempos parlamentares se movimentam no sentido de aprovar algum tipo de lei casuística que impeça ou dificulte novas delações premiadas.

O argumento de que a sangria política precisa ser estancada para que o país volte aos trilhos, tal como pregava Romero Jucá em conversa gravada com Sérgio Machado, tem ganhado força desde que Michel Temer foi alçado à Presidência e parece tem a simpatia de setores importantes do chamado "mercado".

Ao mesmo tempo, a reação imediata do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes ao vazamento de uma delação que supostamente citava seu colega de toga José Antonio Dias Toffoli e a imediata suspensão daquela delação pela Procuradoria-Geral da República mostra que a operação Lava Jato não está tão disposta assim a ir às últimas consequências, pelo menos no que diz respeito a políticos e magistrados.

Diante desse cenário, o pior dos mundos talvez seja uma delação parcial em que Cunha se livre da pena que lhe cabe e entregue apenas uma pequena parte do que sabe. Uma justiça parcial é, na grande maioria das vezes, pior do que justiça nenhuma.

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