Huffpost Brazil
BLOG

Apresenta novidades e análises em tempo real da equipe de colaboradores do HuffPost Brasil

Letícia Bahia Headshot

Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho e feminismo

Publicado: Atualizado:
FEMINISM
leszekglasner via Getty Images
Imprimir

"O Capitalismo tem essa capacidade mágica de transformar sua própria crítica em produto", disse-me uma professora de história há muitos anos. "Che Guevara deve cortar os pulsos no túmulo a cada vez que alguém compra uma camiseta com seu rosto estampado", arrematava ela.

Não sei se feminismo e capitalismo são essencialmente contraditórios - tem muita gente extremamente qualificada construindo esse debate e eu não estou nesse grupo -, mas se o primeiro mira na igualdade, o segundo vem fazendo um bom trabalho em ampliar desigualdades (e aí cabe aos estudiosos definir se isto está em seu DNA ou se é efeito colateral). De todo modo, é certo que uma fatia do nosso Feminismo está sendo engolida pelo monstro capitalista.

Não me refiro ao feminismo que hoje estampa rótulos de maquiagem, às propagandas fofinhas que estão definindo por nós o que é empoderamento feminino ou mesmo às risíveis cervejas feministas. O uso do feminismo como estratégia de marketing é sem dúvida um fenômeno a se estudar, mas aqui falo da lógica voraz que vem transformando o próprio feminismo em produto.

É certo que o feminismo não teria chegado na telinha da Globo se muitas de nós não tivessem batalhado pra que o movimento fosse inclusivo.

O palco principal do megashow é o Facebook, mas há também as arenas secundárias: Twitter, Instagram, YouTube. As estrelas ascendem em velocidade vertiginosa, e nós, arrebatadas, gritamos em CapsLock: "DIVA!!!". Nós queremos mais, mais, mais. E queremos rápido, pra ontem, me vê 10? É preciso correr atrás da polêmica do minuto, você não soube?, não viu aquele clipe?, a nova campanha do Boticário? Rapidamente tudo já é notícia de ontem, e é preciso correr para não ficar para trás. Nos esquecemos, talvez, que quem corre não se aprofunda, porque é irremediável a relação entre demorar-se e conhecer.

É certo que o feminismo não teria chegado na telinha da Globo se muitas de nós não tivessem batalhado pra que o movimento fosse inclusivo. Se o feminismo tivesse se consolidado como um clube restrito a quem se aprofunda em suas teorias e problemáticas, ele certamente não teria a potência que tem hoje. Somos centenas de milhares, estamos espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Estamos pautando cultura do estupro na TV, escrevendo sobre machismo no caderno de esportes, debatendo prostituição nas linhas do tempo do Facebook - e que bom. Mas estamos, também, falando um monte de bobagens. Com o alcance inédito, veio o chorume.

É triste ver tanta gente se dizendo feminista radical, feminista intersecional, feminista liberal, feminista marxista. Se o brasileiro médio lê menos de 5 livros por ano, ou as feministas da internet são as estrelas dessa estatística ou estamos vendendo gato por preço de lebre. E o preço é alto, porque sem reflexão, tornar-se feminista vai deixando de significar a crítica a uma realidade que segrega a partir do gênero para tornar-se mais uma experiência efetivamente assemelhada ao consumo.

Mas o que é o lacre, senão aquilo que fecha um produto pronto para o consumo e de cuja confecção o consumidor jamais participa?

A lista de resíduos tóxicos não é curta. Seguem exemplos: o Feminismo Radical - vertente que procura compreender a opressão a partir de sua raiz - é frequentemente tratado como como "o Feminismo mais pesado, mais rock'n'roll"; ser favorável à aprovação do PL Gabriela Leite significa defender o patriarcado e a exploração do corpo feminino, enquanto ser contra implica necessário caso de amor com membro da bancada evangélica; homem é necessariamente bicho ruim, indigno de confiança e de afeto, afirmam algumas. Essas são algumas das pérolas derivadas da teoria não lida, do anti academicismo, das bibliografias em forma de meme.

Seria injusto dizer que não há muita (muita) gente boa escrevendo, pesquisando, desenhando projetos, mas a superficialidade do feminismo das redes sociais prolifera-se como coelhos. E é lá que muita gente tem se informado - e, mais grave, se formado. Na vitrine criada por Marck Zuckemberg, prevalece a lógica do consumo. Não há tempo para o tempo. O ter (ou o parecer ser) prevalece sobre o ser (o BigMac é sempre mais bonito na foto), e se o produto é conhecimento, o bem a ser possuído é a opinião - qualquer opinião.

Não saber, no campo da internet, foi equivocadamente rebaixado a vergonha (e nesse ponto a crítica se estende à quase totalidade dos temas que passeiam pelas redes sociais). Não se pode mais dizer "eu não sei", ou "eu preciso estudar essa questão um pouco mais", ou "puxa, eu desconhecia essa informação". É preciso ter opinião sobre tudo. Mas espera... e gênero, o que era, mesmo? Todo mundo já entendeu o que é ser mulher?

A ausência de respostas para essas perguntas tão fundamentais não é jamais o problema. A questão aqui é a ausência de perguntas, de gente encafifada cavucando livros e realidades com perguntas debaixo do braço. Ao invés de abrir gavetas e ampliar olhares, procuramos a frase jocosa que encerre o assunto, e que a internet tem chamado, irônica e didaticamente, de "lacre".

Mas o que é o lacre, senão aquilo que fecha um produto pronto para o consumo e de cuja confecção o consumidor jamais participa? É preciso parar de lacrar o feminismo. Ele só nos será útil arejado, poroso, pulsante e, sobretudo, profundo. No momento, para muitas de nós e em certos contextos, já dá pra pra pedir feminismo no delivery.

LEIA MAIS:

- Prostituição, Julia Roberts e o amor romântico

- A pornografia como professora e a distância da realidade

- Como, fugindo do machismo, eu virei escrava do capitalismo

Também no HuffPost Brasil:

Close
Por que o feminismo é importante
de
Post
Tweet
Publicidade
Post isto
fechar
Slide atual