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Um jeito 'novos baianos' de ser mãe

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CHILDREN PARK
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Mãe é um papel social. Ele muda conforme a classe. As mães das classes populares costumam ter uma rede de apoio, família, vizinhos, agregados, que se ajudam. As mães com grana, mas grana mesmo, tem a escolha de contar com um staff de enfermeira, babás, folguistas. As mães de classe-média são aquelas pobres coitadas descabeladas. A família está muito ocupada trabalhando, viajando ou mora longe. Ela tem apenas o pai dos filhos para contar. Isso, se de fato ele exercer o seu papel e não apenas "ajudar", verbo que deveria ser terminantemente proibido quando o assunto é pai e mãe.

Não fazia a menor ideia de onde estava me metendo até ser mãe. E aí, me deparar com um dilema muito comum: como trabalhar e cuidar das crias, que até a primeira infância precisam de você para praticamente tudo? E ainda... existir? A sociedade te diz, coloca na creche. Parece simples, mas não é bem assim.

Morando no Rio de Janeiro, com menos vagas nas creches públicas que bebês nascendo, vender um rim para pagar uma creche não era opção. Essa solução também pode custar por ano o preço de um carro, para usar um parâmetro bem classe-média. E o mais aflitivo, deixar o bebê na porta, dar um tchauzinho e sequer entrar, essa é a dinâmica regular de muitas creches particulares.

Como não existia um modelo para a nossa família, tivemos que inventar. Partimos para montar uma creche parental, formada, acredite, a partir de dois grupos fechados do Facebook. Marcamos em uma praça pública para conhecer algumas mães do bairro. Escolhemos um modelo de cuidados coletivos, com revezamento de pais e casas, no qual, uma vez por semana uma família cuida dos filhos dos demais com apoio de duas cuidadoras. Elas são parte integrante do coletivo, reunimos todos sempre juntos. Isso permite acompanhar de perto cada escolha, cada receita do lanche, cada caminho pedagógico.

Esse conceito de creche parental já existe em outros países e o próprio nome tem origem francesa. Sim, creche é uma palavra em francês. A diferença é que, em alguns países europeus, essas iniciativas recebem apoio do governo. No nosso caso, precisamos dividir irmanamente os custos. Um espaço de co-working, apesar de ser um conceito semelhante, não é exatamente a nossa, porque temos profissões diferentes e nos alternar em troca de tempo livre é o que nos unia.

As crianças fazem tudo em grupo durante a semana. Lanche coletivo com os cardápios de cada casa, atividades nesses espaços cheios de afeto e muitos passeios ao ar livre. Recentemente, compramos a briga pela revitalização da pracinha. Negociamos com o comando das obras do metro e a sub-prefeitura. Reivindicamos mais árvores e brinquedos para diferentes idades das crianças do bairro. Vi algo acontecendo ali. As pessoas querem estar juntas. E percebo que temos muito a aprender com esse sentimento de comunidade, colaboração, pertencimento.

É fácil? Claro que não. Já viu algo com mais de duas pessoas ser simples? Esse "ajuntamento" é construído com muito olho no olho e muitas trocas de WhatsApp. Para os pequenos, tudo tem sido doce. Como nascemos mais descomplicados né? Já nós, gente grande, vamos passo-a-passo construindo laços e ficando cada dia mais 'novos baianos', os seus, os meus, os nossos.

Esses dias, o pai de uma colequinha pendurou uma sacola com giz coloridos na parede da praça e escreveu ao lado convidando todos a desenhar. Fiquei comovida. Com o gesto e com a recepção do nosso "grafite" coletivo. Um ato pequeno, mas que traduz muito do que somos. Ou, do que queremos ser.

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