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Por que temos de ensinar a nossas filhas que as 'amigas vêm antes dos caras'

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m-gucci via Getty Images
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Caras bonitos vêm e vão, mas como tratamos nossas melhores amigas tem impacto profundo em nossas vidas.

jardim de infancia
Shana e eu no jardim-da-infância.

O nome dele era Marshal. Nos conhecemos num verão, antes de meu segundo ano do ensino médio. Ele foi o primeiro menino que confirmou o que eu já sabia.

Marshal e seu amigo conheceram primeiro uma amiga minha linda. Tenho certeza que eles disputaram para saber quem ficaria com Shana e quem iria ficar com a amiga dela.

Marshal deve ter perdido, porque Shana deu meu telefone para ele. Isso foi muito antes de você poder checar a cara das pessoas na internet, então Marshal só podia se basear na minha amiga. Era um risco, mas com certeza ele acreditou que a amiga de Shana também era uma gata.

Durante duas semanas, Marshal e eu passávamos horas falando no telefone todos os dias. Ainda não tínhamos nos encontrado pessoalmente, mas a conexão foi imediata. Ele obviamente pediu que eu me descrevesse, e eu disse que era loira, tinha olhos verdes e era bem magra.

Ele confidenciou que morava com os avós, porque seus pais eram "errados". Baixei a guarda e falei dos problemas da minha família.

Ainda lembro a sensação no meu estômago quando ele disse: "Lisa, gosto muito de você e quero que você seja minha namorada".

O dia do nosso encontrou finalmente chegou. No instante em que nossos olhos se cruzaram, vi que ele estava muito decepcionado. Não tinha mentido sobre minha aparência, mas tinha deixado de mencionar alguns detalhes importantes.

Não contei que tinha uma doença autoimune, escleroderma, que fazia com que meu braços e pernas ficassem tortos.

Também não falei que meu corpo estava coberto de manchas vermelhas; telangiectasia (sintoma da escleroderma), o que dava a impressão de que eu tinha sarampo. Não estava tentando enganá-lo, só não tinha ideia de como falar sobre minha doença.

Marshal mal falou comigo naquele dia horrível. O amigo dele abraçava Shana e a ajudava a jogar minigolfe. Marshal parecia preferir mergulhar num poço de vômito do que passar mais um segundo comigo. Ele nunca mais me ligou.

Foi a primeira de muitas vezes em que fiz o papel da "amiga feia". Esperar num carro vazio enquanto todo mundo estava se agarrando era um sábado à noite típico para mim.

A maioria das minhas amigos da escola e da faculdade recebiam atenção de vários caras. Eu era apresentada educadamente e depois ignorada o resto da noite. Minhas amigas tentavam me incluir, mas na hora do vamos ver algumas delas preferiam ficar com um cara qualquer do que comigo. Essas "amigas" foram ficando de fora da minha vida.

Não sei o que aconteceu com Marshal, mas não tenho nada contra ele. Ele fez o que 99% dos adolescentes fariam. Além disso, ele me deu um presente incrível.

Depois que fui esnobada por Marshal, Shana nunca mais saiu com o amigo. Shana era a grande representante do time "amigas antes dos caras". Sempre fazia parte dos planos dela para o fim de semana com o namorado e os amigos. Shana nunca me largou sozinha num carro para ficar com um cara nem fez me sentir segurando vela.

amigas

Acho que, quando ela ler este texto, nem vai lembrar do episódio ou o nome do cara com que ela saiu. Ela não vai lembrar que fomos jogar minigolfe nem que depois fomos para a casa de Marshal assistir "Bom Dia, Vietnã", numa fita VHS. É isso o que temos de dividir com nossas filhas.

Caras bonitos vêm e vão, mas como tratamos nossas melhores amigas tem impacto profundo em nossas vidas. Quando a vida nos coloca de joelhos, nossas amigas é que vão estar do nosso lado.

Shana e meu grupo de amigos me ajudaram a atravessar meus dias mais difíceis. Dez anos atrás, quase morri por causa de complicações no parto da minha filha.

Apesar de estar trabalhando em tempo integral e de ter um bebê recém-nascido, ela apareceu no hospital várias vezes. Segurava minha mão e conversava comigo durante horas, apesar de eu parecer estar dormindo. Quando perdi meu cabelo por desnutrição, Shana raspou minha cabeça e disse que eu estava linda.

Neste ano, foi a vez de Shana raspar o cabelo, por causa de um diagnóstico de câncer de mama. Ela lutou com coragem inabalável, dignidade e graça. O cabelo dela está crescendo de novo e digo para ela o tempo todo que ela é linda.

Para muitas meninas, 14 anos é uma época de insegurança, experimentações, auto-expressão e auto-depreciação.

Aos 14, a sociedade nos diz que beleza é um cabelo bem arrumado, peitos empinados e uma cara bonitinha. Aos 14, achamos feio quem tem a pele marcada, deformações físicas e um peito liso. Se você disser algo diferente, ninguém vai acreditar. Para os adolescentes, poucas coisas importam mais que popularidade, beleza e ser parte do grupo.

Aos 41 anos, aprendi que depende de nós redefinir beleza para nós mesmas e para nossas filhas. Sei que beleza é alguém com cabelo crespo aparecendo numa cabeça raspada, um par de seios de mentira que escondem uma agonia tremenda e olhos gentis que são a janela para a alma da minha melhor amiga.

amizade

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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