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Como ser homem: redefinindo a masculinidade

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Por Michael Carter

"Seja homem." O significado dessa frase muito comum parece simples: não demonstre emoção, seja forte, seja macho.

A masculinidade, porém, nunca foi um conceito concreto e, à medida que jovens mulheres continuam a derrubar as barreiras de gênero no universo profissional, a geração millennial (ou Y) vive no limiar de uma nova compreensão do que é ser um homem.

A habilidade de prover financeiramente pela família está no cerne da masculinidade moderna. A escolha da carreira é mais do que meramente trabalhar em uma área de interesse; a remuneração maior está associada à virilidade. Mesmo com as mudanças do papel da mulher no âmbito econômico - 47 por cento do mercado de trabalho atual é composto por mulheres e 61 por cento das mulheres da geração millennial dizem desejar um cargo de alta gerência um dia - os homens ainda hesitam em abrir mão dos conceitos antigos de quais carreiras são consideradas masculinas ou femininas.

Os homens continuam a ter representação significativa no mundo corporativo, mas raramente entram em carreiras tradicionalmente consideradas como sendo femininas, como o ensino e a enfermagem.

Adam Carter, aluno do segundo ano do curso de enfermagem a Universidade da Virginia, era o único homem da turma de 98 alunos no início do curso. Desde então, dois outros homens entraram para o curso. "Eu simplesmente gosto da interação que enfermeiros têm com os pacientes, diferente dos médicos", disse.

"Eu sempre soube que queria trabalhar na área da medicina, mas quando comecei a pesquisar um pouco, vi que os médicos interagiam com os pacientes por dois minutos, talvez, e aí iam embora, ficavam digitando alguma coisa e eram os enfermeiros que de fato faziam o trabalho e atendiam os pacientes".

Carter já ouviu diversas vezes que ele deveria seguir a carreira de médico e acaba tendo que explicar a decisão pela enfermagem com frequência.

"Estamos presos à noção de que a enfermagem é um papel feminino e também de que o enfermeiro não é tão inteligente quanto os médicos. Acho que a visão que a sociedade americana tem de médicos comparados a enfermeiros é muito deturpada."

Apesar do estigma social de ser um enfermeiro, os colegas não-enfermeiros de Carter aceitam a sua escolha profissional. Eles lhe fazem perguntas sobre a medicina e vez ou outra fazem uma piadinha do filme Entrando Numa Fria ("Já ordenhou um gato?"), mas, em geral, não consideram a sua escolha de curso como sendo inferior. "Acho que estamos caminhando numa direção positiva", disse Carter.

Os millennials talvez sejam menos críticos daqueles que fogem à norma quando se trata da escolha profissional, mas a resistência às mudanças da masculinidade na esfera social tem sido maior. Homens vistos como afeminados são zombados muitas vezes.

Um exemplo que repercutiu bastante foi o tweet que a rapper de 22 anos Azealia Banks enviou ao blogueiro Perez Hilton, dizendo "rs que bicha bagunceira você é."

O tweet dela foi criticado imediatamente, principalmente por grupos que defendem os direitos dos gays; no entanto, ela se defendeu dizendo, "Bicha não é um homem homossexual. Bicha é qualquer homem que age como mulher. Há uma enorme diferença".

É presumido que a comunidade homossexual tem maior aceitação de homens menos masculinos, no sentido tradicional do termo, mas o tweet de Banks sugere que, mesmo com uma maior integração da homossexualidade na sociedade, homens afeminados ainda são considerados inferiores. Isso se explica em parte pelo fato de que mesmo dentro da comunidade gay, ser afeminado não é bem aceito.

De acordo com Scott Rheinheimer, diretor do Centro LGBTQ da Universidade da Virginia, "muitas vezes a masculinidade ainda é um papel desejado em um parceiro ou em qualquer tipo de intimidade. Existem pessoas na comunidade que tentam achar ou se encaixar no papel tradicional masculino, enquanto o papel feminino ainda sofre condenação ou ostracismo".

Além disso, à medida que a comunidade gay alarga as fronteiras para incluir os transgêneros, transexuais e assexuais, há uma resistência de alguns membros gays e bissexuais da comunidade que se encaixam no padrão binário tradicional de gênero e não querem ser identificados com aqueles que estão fora desse padrão. A resposta dessas pessoas é rejeitar completamente o rótulo gay.

"Eles encaram ser afeminado quase como uma traição do movimento", Rheinheimer disse. Jessica Xavier explica em seu modelo de variação de gênero que a não-conformidade enfrenta maior resistência à medida que ela fica mais visível. A oposição ao padrão reprodutivo, uma mulher que escolhe não ter filhos, por exemplo, enfrenta menos oposição do que enfrentaria se escolhesse uma profissão tradicionalmente exercida pelo sexo oposto. As identidades de gênero não-conformistas - transgêneros ou transexuais - enfrentar a maior resistência. "Quando você começa a sair do espectro do gênero, você é rejeitado", afirmou Rheinheimer.

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A oposição existe tanto nas gerações mais velhas quanto nas mais novas. O caminho que leva à maior aceitação da comunidade gay oferece um modelo que pode ser útil na criação da maior aceitação da identidade de gênero não-conformista e dos homens que não se encaixam nos padrões tradicionalmente masculinos. Os direitos homossexuais avançaram ao aumentar a visibilidade dessa comunidade; ver que amigos que familiares eram homossexuais gerou uma maior aceitação.

"Sempre aprendemos que devemos amar a todos, sermos bondosos, tolerantes, nos colocarmos no lugar do próximo. Eu acho que a nossa geração foi de fato criada com essa mentalidade, mas a diferença é que a nossa geração não recebeu tanto a instrução de (...) essa pessoa não ou aquela pessoa não", afirmou Rheinheimer.

A aceitação nasce do respeito pelas pessoas individualmente, ao invés de julgar todas superficialmente. Parte disso tem a ver com as figuras que são respeitadas pela sociedade.

Homens que são abertamente afeminados são raramente considerados como exemplos, mesmo pela geração millennial. Hoje existem na mídia vários homens gays considerados como exemplos - Neil Patrick Harris, Jason Collins, Matt Bomer - mas a admiração por eles é baseada no comportamento masculino que exibem. Seja gay ou hétero, muitos podem até gostar de um homem que é considerado gentil e bondoso, mas ele dificilmente será considerado como um ideal de homem.

Apesar da geração millennial acreditar cada vez mais na igualdade de diferentes gêneros e orientações sexuais, a masculinidade ainda determina até que ponto um homem é aceito como sendo normal. Esse pensamento tão profundamente incutido em nossa sociedade forma uma barreira que, enquanto permanecer sem oposição, continuará fazendo da exclusão algo aceitável.

Postado originalmente no site Millennial Manifesto projeto com curadoria de Literally, Darling que busca contar a história dessa geração.

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