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Quando a embalagem é mais legal do que o brinquedo

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MARIA FLOR CALIL A VERDADE  QUE
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A jornalista Maria Flor Calil, diretora de conteúdo do portal "A Verdade É Que" e mãe de Teresa, 9 anos, e Julieta, 7, fala sobre a importância de deixar as crianças brincarem com caixas, sucatas, utensílios da casa...

"Eu não tenho muitas memórias da minha primeira infância, mas em uma, muito marcante, eu me vejo aos 3 anos, na varanda da chácara em que vivia, brincando com uma boneca de pano. Não era uma boneca qualquer; ela tinha um neném na barriga, e aquilo me fascinava.

Nas outras memórias desse período, estou sempre só de short, mas de bota Sete Léguas por causa das cobras, explorando a natureza, observando taturanas e formigas, soprando as flores dente-de-leão, ajudando minha mãe a fazer horta, caminhando pela estradinha de terra e olhando a forma das nuvens.

Não lembro de nenhum outro brinquedo até ficar maiorzinha. Vê-se que eles não foram nem um pouco marcantes, mas da sensação de liberdade de brincar ao ar livre, solta, dessa não esqueço jamais. Quando meu irmão nasceu, ganhei um companheiro para as minhas aventuras, e elas ficaram ainda mais legais.

Quase trinta anos depois dessa memória rudimentar, tive minha primeira filha. No seu aniversário de um ano, o choque: ela ganhou tantos brinquedos, mas tantos, que forraram o chão inteiro do quarto dela. Sabe o que a pequena fez? Se divertiu horrores com as fitas, caixas e embalagens.

Sério, Teresa não deu a menor bola para os presentes. Depois da festa, eu não sabia o que fazer com tudo aquilo. Nem até o aniversário do próximo ano ela daria conta de brincar com tamanha oferta. Pois bem, guardei alguns brinquedos no maleiro do guarda-roupa e deixei outros ao alcance dela, e ia fazendo um rodízio.

Mas quem tem filho sabe: para o bebê é muito mais interessante mexer com a chave, com o controle remoto, com o telefone, enfim, com objetos que eles nos veem manuseando diariamente. Apesar da grande oferta de brinquedos educativos, nada supera um utensílio doméstico, por exemplo. Tetê adorava abrir a gaveta dos tupperwares na cozinha, espalhava tudo, fazia a maior bagunça. Depois, nasceu Julieta e observei as mesmas coisas.

Como em casa sempre pude proporcionar o livre brincar, quando fui colocar as pequenas na escola, busquei um local que parecesse com um quintal de vó, com terra, árvores e espaço. Me decidi por uma que tinha poucos brinquedos, mas muita sucata, um baú cheio de fantasias, uma jabuticabeira e um tanque com jabutis.

Lá, a criançada era estimulada a inventar as próprias brincadeiras e a usar a imaginação para criar os brinquedos. Assim, uma embalagem vazia de leite fermentado com alguns grãos dentro virava chocalho, tampinhas variadas serviam para o jogo da velha, as pedrinhas do jardim eram usadas para formar desenhos no chão. Os pequenos também faziam massinha usando ingredientes da cozinha e podiam manusear os alimentos à vontade nas aulas de culinária.

Perdi a conta de quantas vezes cheguei para buscar as meninas e as encontrei melecadas de frutas, sujas de terra, com a cabeça cheia de areia, mas felizes e realizadas, se desenvolvendo a olhos vistos. Acredito, do fundo do coração, que essas experiências são muitos mais ricas do que ter qualquer brinquedo, mesmo o mais caro da loja. Não é ele que fica marcado nas nossas recordações."

Este espaço integra o movimento #livreparadescobrir, lançado por OMO para estimular os pais a deixarem suas crianças brincarem mais, dentro e fora de casa, uma vez que isso é essencial para o desenvolvimento infantil.