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O melhor presente para os filhos é estar presente

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MARCOS PIANGERS
Gisele Sauer
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O jornalista Marcos Piangers, autor do best-seller O papai é pop, conta como aprendeu com a filha Anita que enchê-la de brinquedos não tem tanta graça assim

"A Anita devia ter uns cinco anos quando saiu com essa: 'pai, você já notou que os brinquedos são muito mais legais na loja e nas propagandas do que na nossa casa?' Tadinha. Lá em casa, os brinquedos não voam como na televisão. Lá em casa, os brinquedos não são brilhantes e plastificados como na loja. Interessante como a Anita levou só cinco anos para descobrir que a gente gosta mesmo é do ato de comprar: depois que a gente tem, perde a graça.

Foi então que começamos a tentar fazer nossos próprios brinquedos, a guardar as caixas de papelão - uma virou casinha, outra virou um foguete todo pintado. Usamos folhas de papel em branco para fazer nossos próprios jogos de tabuleiro. Criamos um caminho: caiu na casa da Galinha Pintadinha? Tem que cantar uma música. Caiu na casa da professora Isabela? Tem que contar até três em francês. 'Un, deux, trois!', diz a Anita, para andar três casas com o peão feito de tampa de garrafa pet.

Pai fresco, sempre achei que comprar presentes substituiria meu tempo ausente. Trabalhava muito, então, sempre levava uma lembrancinha das viagens, um livro de princesa, um coelhinho de pelúcia inofensivo. Mas três coisas aconteciam: um, os brinquedos não substituíam a minha ausência (spoiler: nada substitui sua ausência, pai); dois, minha filha ficava acostumada a sempre ganhar alguma coisa e, quando eu chegava, só perguntava do presente; e três, ela brincava com o presente por uns dois segundos, para deixá-lo abandonado em algum canto da casa.

Aprendi o seguinte: os brinquedos mais divertidos são os mais simples. Uma cartela de adesivos representa horas de diversão ao custo de cinquenta centavos. Um palito, uma vez, virou varinha de condão lá em casa, espada, arma de raio laser e foi a grande sensação do Natal (ao custo de zero reais). Mas nada deixa as crianças mais animadas do que jogá-las para o alto e pegá-las antes de caírem no chão. Será uma eternidade de 'de novo!', ao custo de um mal jeito nas costas.

A Anita vai crescendo e, eventualmente, se deixando seduzir por brinquedos mais caros. Ela veio esses dias com um papo de que queria um Apple Watch. Ia ganhar dinheiro das duas avós no Natal, juntar com um dinheiro antigo e vender uns tênis velhos na internet para poder comprar. Fomos na loja ver aquela coisa e ela mexeu por uns dois minutos para sentenciar: 'Que coisa mais sem graça, pai. Vamos embora'.

A capacidade de entender que algo é melhor na propaganda do que na vida real talvez tenha sido meu melhor presente para ela. Tive que viajar para uma palestra e, no evento, ganhei um macaquinho de pelúcia. 'Dá de presente para as suas filhas', me disse a contratante, super bem intencionada. Eu agradeci. Mas, no avião, voltando para casa, passou pela minha cabeça o que ia acontecer quando chegasse: minhas duas filhas iriam brigar pelo macaco, eu diria que era um presente para as duas, a mais nova iria chorar, a mais velha iria agarrar o macaco, eu diria para a mais velha deixar a mais nova brincar, a mais velha iria chorar, a mais nova ficaria com o macaco por trinta segundos para então abandoná-lo no meio da sala, a mais velha continuaria chorando porque fui injusto com ela.

Olhei para um pai que estava com um bebê no colo. 'Tó. Presente para você e seu filho'.

Ele agradeceu, surpreso. Espero que ele saiba: nada substitui sua presença, pai."

Este espaço integra o movimento #livreparadescobrir, lançado por OMO para estimular os pais a deixarem suas crianças brincarem mais, dentro e fora de casa, uma vez que isso é essencial para o desenvolvimento infantil.