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Sobre pais, filhos e descobertas: a importância de experimentar

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RICARDO TOSCANI
Divulgação
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O fotógrafo gaúcho Ricardo Toscani também se aventura como dono de casa, como escritor na N.Magazine e como pai da Alice, de 7 anos

"Eu tinha uma 'caturrita' lá no Rio Grande do Sul, um pássaro equivalente às maritacas em São Paulo. Ela era criada solta, sem gaiola, mas com asas cortadas. Esses adoráveis periquitos, quando domesticados, falam, pedem comida, assoviam nossas músicas favoritas, acordam todos pela casa com muita alegria e disposição. Nossa caturrita não era diferente: aprendeu todos os truques, mesmo com asas cortadas. Sabia de tudo, mas não sabia voar.

Ela me ensinou muitas coisas e a mais importante foi a última: a fragilidade da vida. A caturrita foi meu primeiro contato com a morte. No fim do dia, fiquei pensando muito nela e na minha culpa de ter concordado com aquele cortar de suas asas, anos antes. 'Se ela soubesse voar, não teria caído e se machucado', pensei. Mas, por outro lado, talvez tivesse partido, nos privando de um significante convívio. Foi quando descobri a morte e a liberdade de escolha.

Hoje eu crio uma menina. Já tive muitas 'mascotes', mas essa é diferente: é uma mistura de todas. Tem a fala e a alegria da caturrita, tem o amor e o zelo da Baba, minha finada cachorra, e tem a minha personalidade, a da mãe, a dos meus pais, a dos pais da mãe. A Alice é um caldeirão de jeitos e trejeitos, tem muito dos outros que agora tornou dela. Usa como bem quiser.

Quando Alice nasceu, passei a entender meus pais e pensei em fazer tudo ao contrário. Não privá-la de liberdades, dar-lhe escolhas, entendê-la primeiro antes de dizer o que é certo e o que é errado, saber dosar o sim e o não. No fim, foi inevitável:

- Não corre que tu vais cair!

- Se não comer tudo, vais ficar sem sobremesa!

- Se não arrumar o quarto, vais ficar sem televisão!

Hoje a música 'Como nossos pais', de Belchior, interpretada de maneira brilhante por Elis Regina, faz muito mais sentido para mim. Somos os mesmos, porém com mais possibilidades de mudança. Afinal, temos o nosso tempo e uma nova geração inteira para conversar. Eu e Alice conversamos bastante, desde que ela nasceu.

Quando minha mulher, Lucia, estava grávida, teve medo de tudo o que estaria por vir. Mesmo sendo a pessoa mais corajosa e batalhadora, ela estava perdida. Segurei sua mão e prometi que, depois que tivesse a Alice, teria casa, comida e louça lavada - não prometi roupa lavada para não mentir, porque dessa parte não gosto muito.

Lucia aceitou a proposta e, assim, caminhamos. Cada um fazendo a sua parte e achando que está fazendo mais que o outro, porque amar é assim: a gente cansa e cobra mesmo.

O universo me ajudou a criar Alice. O universo e todas as outras pessoas envolvidas. É uma empresa: sou praticamente sócio da mãe e tenho o lema "eu não ajudo, eu divido". Alice cresceu num ambiente onde foram realizadas escolhas. Sua mãe escolheu, no quarto mês, já voltar para o trabalho a todo vapor, provendo a casa e sendo mãe no tempo restante. Seu pai escolheu cozinhar, limpar, cuidar, brincar, passear com a cachorra, fazer adaptação na escola, dar a fruta, o banho, fazer dormir e fazer o café da manhã - contando, claro, com Lucia por perto, conciliando os conflitos entre pai e filha. A escolha confunde a menina, que cresce chamando a mãe de pai, e o pai, de mãe. Acho essa confusão adorável: aos pais que nunca foram chamados de 'mãe', espero um dia que o sejam. É um maravilhoso elogio.

Experimentar: é isso que queremos para ela. Que nossa menina prove da vida e tenha muita liberdade para escolher qual rumo quer seguir. A mãe muito falou para ela, com uma fruta ou legume na mão:

- Eu te coloquei o nome Alice para que tu experimentasses as coisas!

Alice está sendo criada para escolher. Ainda luta um pouco contra as frutas e os legumes, mas é uma menina muito legal e compreensiva. Aí eu paro e penso na caturrita lá da casa dos meus pais, criada solta, com asas cortadas. Alice vai experimentar a vida, e eu e sua mãe, mesmo querendo isso, não vamos conseguir abandonar nossas tesouras, cada uma com um fio de corte diferente, um para um lado, outro para o outro: cada um de nós com seu julgamento.

As asas e a Alice continuarão crescendo soltas, e nós ainda as podaremos, devagar, colocando o que chamamos de limites. Mesmo assim, faremos de tudo para ter certeza de que, na hora certa de voar, Alice tenha aprendido a usar as asas sozinha."

Este espaço integra o movimento #livreparadescobrir, lançado por OMO para estimular os pais a deixarem suas crianças brincarem mais, dentro e fora de casa, uma vez que isso é essencial para o desenvolvimento infantil.