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Todos os filhos são especiais: o que importa é aprender juntos

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MARCO TULIO E FAMLIA
Divulgação
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O guitarrista Marco Tulio Lara, da banda Jota Quest, conta o que sentiu ao descobrir que seu filho Theo tinha síndrome de Down e mostra que, quando o assunto é brincar, amar ou educar uma criança, as diferenças não importam

"Ahh, ser criança... Que período fantástico! Não sinto saudades, mas tenho uma lembrança incrível dessa fase. Graças à mágica da vida, esse momento veio me maravilhar novamente. Afinal, quem não se sente criança ao brincar com seus pequenos?

Ângela, minha esposa, e eu estamos juntos há 16 anos e temos dois filhos: João Marcos, o Johnny, de 12 anos, e Theo, de 5. Johnny nos iniciou na arte da paternidade. Todas as aventuras, os desejos, as expectativas e os medos, até então somente imaginados, tivemos a chance de viver com ele. Com o Tetheo, a aventura foi mais desafiante, pelo menos para mim. Aos cinco meses de gravidez, descobrimos que o nosso bebê tinha síndrome de Down. 'Ora, como assim?', 'Isso deve estar errado!', 'O que isso significa?'. Um roteiro previsível envolvendo frustração, medo e angústia passou pela minha cabeça assim que recebi a notícia.

Após uns 40 dias de total reclusão, período em que me afastei da vida, dos amigos e até mesmo da minha própria família - que a essa altura já estava totalmente confortável com a novidade -, comecei a entender que o real problema em casa era eu, e não o bebê. Diante dessa conclusão, óbvia, decidi correr atrás do meu atraso. Me reuni com Ângela e Johnny e perguntei se eles gostavam do nome Theo. A partir dali, minha expectativa seria construída em torno desse novo carinha, Theo, que ia pintar em nossas vidas.

Theo nasceu, fez uma cirurgia cardíaca (muito comum nesses casos), recuperou-se e, em seis meses, já tinha uma vida totalmente normal. Passado esse primeiro momento, entre a descoberta da síndrome e a alta do pós-cirúrgico, que durou uns 10 meses, tudo foi se restabelecendo. Aí chegou a segunda etapa da aventura: 'e agora? O que vem depois disso tudo?'. Àquela altura, já estávamos mergulhados em todo tipo de informação sobre a síndrome. Tínhamos a sensação de que não podíamos errar. Mas o que é errar ou acertar? Como saber o melhor jeito de cuidar dos filhos?

Com o tempo - lá se vão cinco anos -, entendi o presente que a vida nos deu. A oportunidade de entender a vida por uma outra perspectiva, diferente daquele cronograma padrão que costumamos estabelecer para as pessoas. Acho que aprendo mais com o Tetheo do que ele comigo. Isso é um clichê, mas é verdade. Já ouvi algumas vezes que ele é a pessoa mais feliz do mundo. Imagine isso dentro da sua casa?! É uma festa interminável!

Johnny sempre teve muita liberdade. E não é porque ele vive em casa de artista, não: é tudo por conta da mãe, que, com seu jeito corajoso e independente, trata-o assim. Aliás, trata os dois assim. Theo é uma página em branco, ainda, como qualquer criança. Vai aprendendo, errando, se divertindo e, assim, construindo suas habilidades, seus conhecimentos. Para essa experiência ser máxima, precisamos colocar limites, que fazem parte de qualquer processo educativo, mas não podemos colocar um 'teto' no seu crescimento, agindo com preconceito e inibindo suas possibilidades de se desenvolver. São conceitos subjetivos, e cada pai lida com isso de uma maneira diferente.

Lógico que percebemos que nossos pequenos têm características próprias - são justamente essas particularidades que nos dizem onde e quando devemos estar mais atentos. Por exemplo, Johnny sempre comeu pouco, como eu, aliás. Theo é muito comilão, age como um peixe, come até explodir! Johnny sempre teve uma sociabilidade muito boa, então colocá-lo em um colégio grande, com muitos alunos, nunca foi algo que nos deixasse preocupados. Theo estuda em uma escola inclusiva. É o único aluno especial em uma sala de umas 15 ou 20 crianças. Isso exige uma observação próxima para avaliá-lo no ritmo da turma. Faz equoterapia, natação, terapia ocupacional, fonoaudiologia e música. Ufa!

Cito meus dois filhos, de idades distintas, os dois especiais (sempre achei estranho esse nome; todo filho é especial para seus pais), como se nossa maneira de criá-los fosse igual porque ela é, mesmo. A atenção, o cuidado, o carinho, a paciência, além da vontade de ensinar e de ver crescer bem, forte, saudável e inteligente, tudo isso é igual para ambos. A diferença é que cada um é de um jeito e nos cabe ajudá-los a descobrir como usar as asas e voar o mais alto e seguro possível, sabendo que cada voo é único na vida deles."

Este espaço integra o movimento #livreparadescobrir, lançado por OMO para estimular os pais a deixarem suas crianças brincarem mais, dentro e fora de casa, uma vez que isso é essencial para o desenvolvimento infantil.