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Mulheres Negras: O que a Mulata Globeleza tem a nos ensinar?

Publicado: Atualizado:
GLOBELEZA
Divulgação/TV Globo
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"Não deixe que te façam pensar que o nosso papel na pátria
É atrair gringo turista interpretando mulata"
(Yzalú)

Foi dada a largada nas vinhetas promocionais que hiperssexualizam o corpo das mulheres negras.

E nessa hora, o que eu me pergunto é quando chegará o dia em que, ao falarmos de representação midiática ou referências de mulheres negras, a resposta dada não será: a Mulata Globeleza?

Pois é, essa é a resposta que obtemos desde 1993, ano do lançamento da personagem promovida pela Rede Globo durante o Carnaval.

Não é preciso fazer muito esforço para percebermos que a imagem dessa personagem contribui muito para a hiperssexualização do corpo das mulheres negras e intensifica os estereótipos que esse grupo carrega.

Isso qualquer pessoa que tenha o mínimo de senso crítico já deve saber.

A mulata rebolativa global que te convida pra sambar, que posteriormente viraria hit e mexeria com o imaginário de milhões de brasileiros, foi criada por Hans Donner, um designer alemão, que, coincidentemente, é casado com Valéria Valenssa, a primeira Globeleza interpretada por mais de uma década.

Após sua gravidez ela ainda ainda continuou por mais algum tempo encarnando a personagem, mas em 2005 Giane Carvalho assumiu o posto do símbolo do Carnaval.

Daí em diante outras três atrizes interpretaram o papel: Aline Prado, Nayara Justino e Erika Moura.

Eu gostaria muito de acreditar que vivemos em novos tempos. Tempos de empoderamento da mulher negra e de resistência à cultura hegemônica.

O ano de 2015 foi muito especial para as mulheres negras, pois presenciamos a realização da Marcha das Mulheres Negras, um ato que configura a luta diária contra racismo, o machismo e o eurocentrismo, além de um forte protagonismo de mulheres negras em diversas áreas.

Porém infelizmente, a mídia brasileira ainda consegue nos surpreender nos apresentando às mesmas velhas imagens de mulheres negras nas mesmas velhas posições.

E o carnaval continua sendo o ápice desse fenômeno.

Em meio a toda a eloquência do carnaval, a Globeleza insiste em representar as mulheres negras como meros objetos sexuais.

E, quando pensamos na realidade da população brasileira, percebemos o quanto isso é perverso.

As mulheres negras são a maioria nos trabalhos domésticos, maioria na população carcerária, sofrem as maiores violências obstétricas, são minoria nas universidades públicas, minoria no Parlamento, e de quebra, sofrem a tão temida solidão da mulher negra.

E o que a Globo e a Mulata Globeleza ainda teimam em nos mostrar?

1) Que a Globeleza carrega uma tonelada de estereótipos.

O que é a Globeleza se não uma mulher negra nua, dançando de forma sensual, sem nenhuma fala, nenhuma conexão com o espectador, além da sua imagem? É impossível assistir a uma de suas vinhetas e não perceber que não se trata da mulher Valéria Valenssa, mas apenas do seu corpo, sua sensualidade e sua força sexual. A Globeleza é apenas um corpo que samba, faz sexo e nada mais. Ah, claro, também é uma mensagem muita clara de qual é o papel da mulher negra na sociedade brasileira.

2) Que é OK ser chamada de "Mulata Globeleza".

O termo "mulata" é algo extremamente violento. Sua origem vem de Mula, que é o cruzamento do jumento com a égua, ou seja, um animal híbrido e estéril. No tempo da escravidão, por volta do século XVI, a palavra foi utilizada para chamar os filhos dos homens brancos portugueses com as mulheres negras escravizadas. Por mais que hoje em dia muitas pessoas não se sintam incomodadas com o uso desse termo, acredito que considerando a condição da população negra brasileira, em especial a das mulheres negras, termos pejorativos como esse não colaboram em nada com a melhoria da condição de vida dessas pessoas.

3) Que a Globeleza não é uma manifestação popular, mas um produto da Rede Globo.

A cultura popular brasileira é riquíssima. Existem diversas manifestações populares que possuem uma carga cultural poderosa e que poderiam com facilidade fazer parte do imaginário do Carnaval. Porém a Mulata Globeleza não tem origem na cultura popular. Ao contrário; ela é fruto da imaginação de um designer alemão, naturalizado brasileiro: o Hans Donner. É fácil perceber que é essa a imagem que muitos estrangeiros têm do Brasil. O problema é nós aceitarmos passivamente essa imagem.

4) Que o corpo nu das mulheres negras está sempre à disposição dos prazeres dos homens.

Uma mulher negra, nua, com apenas algumas poucas tintas cobrindo suas partes sexuais, sempre sorrindo e dançando. Isso está mais próximo de um desejo sexual retirado da cabeça de um homem branco europeu do que a expressão sincera de felicidade durante o carnaval. A imagem construída por Hans Donner está bem enraizada na história do Brasil colonial. É só parar para pensar: no Brasil Colônia as mulheres negras eram separadas de suas famílias, levadas para trabalhar nas Casas Grandes e durante a noite acabavam sendo obrigadas a terem relações sexuais com os senhores das Casas Grandes. A Globeleza acaba sendo um personagem simbólico de tudo que aconteceu na História brasileira e que continua acontecendo ainda hoje.

5) Que a beleza da mulher negra só tem espaço no Carnaval.

É fato... Na época de carnaval, todos querem ser como ela, saber sambar, ter o corpo e o porte de uma verdadeira passista. Em fevereiro, a mulher negra é tida como uma referência, um verdadeiro modelo a ser seguido. Porém, no resto do ano, não se vê mais o mesmo. Os espaços das novelas são sempre papéis subalternos, nunca papéis principais. Elas não têm espaço nos filmes, não têm espaço nos programas de auditório. Quando aparecem em programas humorísticos como o Zorra Total, são ridicularizadas. O que quero dizer é, segundo a lógica da Televisão brasileira, as mulheres negras só são belas no Carnaval; nos outros dias do ano, como num passe de mágica, elas deixam de ser belas.

6) Que a Mulata Globeleza dita o padrão da mulher negra aceitável.

Magra, alta, esguia, peitos grandes, bunda grande, cabelo encaracolado e com algumas mechas loiras e, principalmente, negra com a pele clara. Esse é o padrão da mulher negra aceita (como objeto sexual, mas aceita). O problema é que a grande maioria das mulheres negras não se encaixa nesse padrão. Mulheres negras de pele retinta, gordas, com lábios mais grossos, feições mais fortes e que não saibam sambar ou que não desejem ser vistas apenas como objetos sexuais. Essas não têm vez.

7) Que a Mulata Globeleza pode causar depressão.

Esse ponto tem ligação com o anterior. Em 2014, atriz Nayara Justino foi eleita Globeleza por voto popular. Porém o público não a acolheu bem, principalmente, devido ao fato de ela ser mais escura do que as Globelezas anteriores. Quando foi noticiado que a Globo a trocaria, vários internautas fizeram ataques racistas tendo como alvo principal sua cor de pele. Por conta desses acontecimentos, acabou entrando em depressão profunda. Essa doença também acometeu Valéria Valenssa, quando ela soube que seria substituída em 2005. Após sua gravidez, seu corpo mudou bastante, e ela acreditou que a substituição se devia à mudança.

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