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O impeachment nunca foi uma solução para a crise política

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IMPEACHMENT
ASSOCIATED PRESS
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O trauma que a sociedade brasileira está vivendo com o enfraquecimento da democracia no País e o luto com a recente perda de significativas conquistas institucionais da última década, deixam claro que o impeachment nunca foi uma solução para os nossos problemas, pois o mesmo serve apenas para esconder ainda mais a verdadeira crise estrutural que estamos vivendo neste início de século XXI.

É absolutamente necessário lutar pela preservação das conquistas sociais e institucionais neste grave momento da nossa história, mas simultaneamente, quero utilizar esta coluna para alertar sobre a emergência das revoluções que estamos vivendo em escala global e que, com a volta ou não de Dilma Rousseff, os verdadeiros desafios para o desenvolvimento do Brasil já estão definidos e são os mesmos para todos os outros países daqui pra frente.

Quero compartilhar aqui, o tema de uma palestra que fiz a convite do Banco Mundial, em que abordei pela primeira vez o que defini como "As cinco grandes crises" que, a partir de 2008, mudaram significativamente o rumo de nossa civilização.

A primeira e principal delas foi deflagrada com a crise financeira nos Estados Unidos, invertendo os rumos da economia mundial e transferindo o poder de Wall Street para o Vale do Silício. A influência que grandes bancos e fundos de investimento exerciam sobre os corações e mentes brilhantes de jovens executivos do mundo todo foi substituída pelo entusiasmo e criatividade das empresas de tecnologia que lideram os processos de inovação mais sofisticados do mundo.

No mesmo período, a segunda grande crise está associada com as mudanças climáticas, amplamente divulgadas pelo documentário "Uma verdade inconveniente" que venceu o Oscar de melhor documentário, dando a Al Gore o Nobel da Paz e ajudando a trazer, anos mais tarde em Paris, as duas principais potências mundiais para o mesmo lado do debate com o intuito de reduzir o impacto da ação humana no aquecimento do planeta.

A terceira grande crise está relacionada com uma previsão da ONU afirmando que, a partir de 2008, mais da metade da população mundial estaria vivendo em aglomerados urbanos. Isso acabou se tornando realidade em 2012 quando 3,6 bilhões de pessoas passaram a residir em centros urbanos, o que acelerou o surgimento de graves problemas como a mobilidade urbana, segurança e acesso aos serviços públicos ao redor do mundo, trazendo as cidades para o centro da agenda de governos e organizações não-governamentais ao redor do mundo.

Paralelamente a isso, em 2012, a revolução digital, nossa quarta grande crise, alcançava dois marcos que mudariam o mundo para sempre. Tanto o Facebook, a maior rede social do mundo, quanto a venda de smartphones alcançavam a marca de 1 bilhão de usuários. Assim, com mobilidade e conectividade, a sociedade em rede passava, definitivamente, a orientar o futuro da economia e da cultura.

Com isso, chegamos a nossa quinta e última grande crise que determinaria a partir de então, os novos rumos da civilização. Com a chamada Primavera Árabe, a onda de protestos, revoltas e revoluções populares contra governos árabes eclodiria em 2011, e mostraria ao mundo que mais profunda do que qualquer um das quatro grandes crises anteriores, a crise institucional passaria a orientar o debate sobre representatividade, poder e o futuro da democracia.

Com a repressão de governos, a Primavera Árabe serviria de inspiração para movimentos ao redor do mundo em países em desenvolvimento e mostraria, claramente, que comunidades do mundo inteiro vivem, desde então, a sensação de que as instituições não representam o espírito do tempo. Esse sentimento generalizado de que ninguém nos representa, de que não podemos confiar em governos e instituições é um caminho sem volta, definido pela urgência por transparência e pela nova era da informação. Assim, uma nova geração de líderes precisará alcançar seu lugar para construir as novas bases dessa sociedade.

O que estamos vivendo hoje no Brasil é resultado dessas cinco grandes crises com alguns ingredientes tropicais.

Por isso tudo, acredito que nós estamos vivendo uma grande revolução cultural, econômica e social muito mais profunda do que imaginamos. Uma revolução que, simultaneamente, abre oportunidades para protagonistas, empreendedores e líderes criativos e que dá voz a pessoas inconformadas do mundo inteiro testarem e validarem alternativas, conceitos e modelos inovadores capazes de reorganizar comunidades e indústrias inteiras tendo a criatividade e o empreendedorismo como suas principais ferramentas.

Inspirados por essa nova era, faço minha aposta nos jovens. Afinal, são eles que estão sonhando, desenhando e empreendendo o futuro. Minha aposta é que os jovens devem estar no comando dos principais processos de inovação. E é a partir do incentivo aos jovens (não necessariamente de idade, mas de mentalidade) que querem criar, sonhar e construir novas referências institucionais, culturais, econômicas e sociais é que seremos capazes de produzir as saídas para um novo desenvolvimento que nos tire dessa grande crise existencial que gira em torno do próprio rabo chamado passado.

O mundo já mudou e somente a energia e o entusiasmo dos jovens conseguirá recuperar o tempo perdido.

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