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Desculpe o transtorno, precisamos falar do Brasil de Jair Bolsonaro

Publicado: Atualizado:
JAIR BOLSONARO
Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Apesar do título, não. O cronista não beberá da água de Gregório Duvivier. A seguir, uma crônica-delírio. Um devaneio público. O cronista recebeu um passe e acho, por erro de cálculo das entidades, baixou o espírito-vivo de Jair Bolsonaro, deputado federal eleito pelo Partido Progressista - sabe-se lá o que o termo significa no dicionário do nobre parlamentar. O resultado, sinto adiantar, não é nada animador. Desculpe o transtorno.

Sem delongas: "O erro da Ditadura Militar foi torturar e não matar".

Sabe Caetano, o Veloso, aquele que caminha contra o vento, sem lenço e sem documento? E o Gil, o Gilberto, que achava que o verdadeiro amor é vão, estende-se infinito? E Chico, o Buarque, o galã dos olhos azuis? Deveriam estar mortos. Lembra da Dilma, a Rousseff? Também. Assim nem impeachment sofreria.

Que grande falha, coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Mas ao menos tentou. "Viva Ustra!". Sabe aquele seu avô que foi torturado com pau de arara na mão dos militares, lá em 64, mas sobreviveu?

E aquela sua tia veterana, militante, que recebeu banhos de jato d'água seguidos de choques elétricos, mas está aí, do seu lado, contando a história sempre que pode? Também estariam a sete palmos debaixo da terra. É que você sabe, né..."o objetivo era fazer o cara abrir a boca", "ser arrebentado para abrir o bico." Tudo em nome da ordem e do progresso.

Falando nisso, que saudade dos presidentes Médici, Geisel e Figueiredo. Os mandatos deles não foram essa tal "ditadura militar" que falam por aí. Bons tempos onde não se podia confrontar, ler o que bem entendesse, assistir o que bem quisesse. Bons tempos onde a desigualdade social imperava, a cultura era amordaçada e a comunicação censurada.

Mas nada disso importa perto de geração de empregos e carros abastecidos de etanol até o talo, certo? Prioridades, meu caro. Era época "do respeito, da família, da segurança e da ordem pública e das autoridades que exerciam autoridade sem enriquecer". E antes que alguém da Anistia Internacional venha me criticar, auto lá! Bando de "canalhas e idiotas". E digo mais: estamos em 2016 e ainda não estamos desenvolvendo uma bomba atômica que se preze nesse País? É uma bagunça só esse tal de Brasil.

Que nem o Massacre de Carandiru. Mataram só 111 presos. "A PM deveria ter matado mil!" Oi? Discorda? É porque eu ainda não comecei a falar dessa raça de homem que beija homem, de mulher que beija mulher. Tem até uma raça aí que beija os dois, acredita? Mas..."não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater."

Tempos atrás uma tal de Preta Gil, filha do Gilberto, aquele que ousou discordar dos militares, veio perguntar o que eu faria caso tivesse um filho gay. Eu? "Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo".

Está passando por isso, leitor? "Se o filho começa a ficar assim, meio gayzinho, [ele] leva um couro e muda o comportamento dele". Vai por mim. Mas não esquece do aviso que até já dei em um jornal: "Maioria" dos homossexuais são "fruto do consumo de drogas".

Mas quem dera se fossem só esses os problemas desse Brasil. Tem ainda as mulheres. Ai, ai. "Mulher deve ganhar salário menor porque engravida", vocês não concordam? "Entre um homem e uma mulher jovem, o que o empresário pensa? 'Poxa, essa mulher tá com aliança no dedo, daqui a pouco engravida, seis meses de licença-maternidade...'. Bonito pra c..., pra c...!

Quem que vai pagar a conta? O empregador. No final, ele abate no INSS, mas quebrou o ritmo de trabalho. Quando ela voltar, vai ter mais um mês de férias, ou seja, ela trabalhou cinco meses em um ano. Por isso que o cara paga menos para a mulher!". Ah, e vem cá...dá tempo ainda de falar dos índios? Cambada de "fedorentos e não educados"...

Jair Bolsonaro vai pleitear o cargo de Presidente da República em 2018. Seu filho, Flávio, luta para ser prefeito do Rio de Janeiro nas eleições de outubro próximo. Você que chegou até essas linhas, por favor: faça com que esse texto fique sendo apenas um delírio desse pobre jornalista.

*As aspas acima reproduzidas foram ditas por Jair Bolsonaro, em algum momento da vida, para veículos de comunicação, em redes sociais ou em discursos.

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