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O dia que o Velho Chico quis fazer novela

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VELHO CHICO
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Os ribeirinhos acharam que era ensaio. Ouviram Camila gritar por socorro. Pensaram ser Santo, mas era Domingos. E eu, que sempre ouvi que a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios, penso: que falta fez Luiz Fernando Carvalho aparecer gritando, dando choque de claquete, findando aquela tragédia - como Antônio Pitanga recebeu a notícia, ainda por telefone. Podia ser ensaio. Mas a ribalta do cotidiano me leva a outro ditado: viva o hoje intensamente. Você não sabe o dia de amanhã.

Ou podia ser Vale a Pena Ver de Novo. Domingos realmente poderia ser Santo de Grotas de São Francisco, levado pelo leito do Velho Chico, socorrido por índios curandeiros e voltado à vida pronto para acertar o texto sem ensaio. Podia. Mas a vida não é romance que passa depois do jornal. E tenho cada vez mais certeza que a gente é mocinho tentando vencer uma tragicomédia. A gente tá mais para mulher de Almodóvar que para roteiro de Mônica Martelli. Podia ser ensaio.

Mas nem toda história é feita por Benedito. Nem sempre a vida imita a arte. Os ditados são seletivos. Dessa vez, o leito não ajudou. O mocinho não sobreviveu. E a mocinha tentou ajudar. Os coadjuvantes viraram protagonistas da salvação. E esse enredo nem o mais marginal dos escritores quer contar. O rodamoinho e a correnteza levaram o palhaço de circo que virou galã tardio, que já foi presidente e cangaceiro, agricultor e navegador. O Velho Chico também é escritor. Podia ser ensaio.

O rio que venceu a transposição, que guarda carrancas e águas turbulentas, o rio que muitos creem abrigar espíritos, um velho caboclo, um guardião. O rio que tem até nome de santo, mas é chamado de velho. O rio que mata e dá vida. O rio que quis ser Benedito, mas alterou o fim da novela da vida real. Levou o protagonista. Porque aqui, do lado de fora da tela, a novela tem dessas coisas. Ela, sem intervalo, faz a gente virar ator do Projac, enfrentar coronéis Saruê e amar feito Santo e Tereza. Mas o final não tem dia marcado que nem na Globo.

E assim, aquele rio que, para entrar, toda licença é pouca, se mostrou um escritor. Tomou para si o comando do roteiro, deixou um Leo, um Dante e um Antonio órfãos. Uma Luciana sem enxergar até a mais doce das comédias românticas. Um país triste. Nas águas do Velho Chico, as lágrimas. Um rio que, até para tomar as rédeas do futuro, faz poesia. Levou o Domingos nas águas do Santo. Dias depois dele vencer seu leito. Quis ele contrariar o roteiro que a gente gosta.

O Gaiola Encantado, barco dos mortos que atravessa o São Francisco levando tristeza e ao mesmo tempo esperança, não cruzou aquelas águas ontem. Camila não conseguiu, dessa vez, repetir talvez a fala que mais quisesse de sua Tereza: "Santo está vivo". Podia ser ensaio. A novela do Velho Chico é meio torta, difícil de assistir, inesperada. É que nem a vida, onde a gente pouco entende, muito chora. Quis o rio ficar com o protagonista só para si, nos tirar o fim da novela perfeita. Esperto, esse tal de Velho. Sabe quem é de boa companhia.

E, se como reza a lenda, há mesmo um minhocão submerso naquele rio, que o faz agitado onde não deveria, e revolto quando bem quer, ai, ai. O Velho Chico não é tão bom como Benedito. Levou nosso protagonista, um Santo dos Anjos, um homem do circo, um rei do cangaço, um Presidente da República. O homem de mil faces. Levou pai de três. Estão contados os dias daquelas lendas. Há por lá, um novo centro das atenções, um novo guardião das águas, um novo herói, um galã.

A novela das águas não tem fim. E nem ensaios. Eu avisei no começo, meu Velho Chico: a gente não sabe o dia de amanhã.

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