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O socialista de iPhone quer falar. E você precisa ouvir

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Luciano Lozano via Getty Images
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De: Socialista de iPhone
Para: Você que só olha para o próprio umbigo


Oi, você que só olha para o próprio umbigo.

Um leitor das minhas crônicas neste jornal foi às redes sociais me chamar de "petista imundo". Outro de "Socialista de iPhone". O primeiro, além de mal educado, não me conhece e é equivocado: nem a força-tarefa da Lavo-Jato vai conseguir encontrar algum voto meu para o PT. Mas é para falar do segundo que estamos aqui. O que me conhece.

E é bem verdade: uso iPhone e troco todo fim de ano. É sempre o presente de Natal que ganho do meu pai. É também verdade que o carro que dirijo foi comprado pela minha mãe. Eu estudei em uma das escolas mais caras da cidade. Minhas duas últimas editoras me chamavam, vez ou outra na redação, de "menino John John" por causa da grife.

E eu sou de esquerda. É, você que só olha para o próprio umbigo, nem todo mundo da esquerda guarda foice na mochila, usa camisa vermelha, carrega uma 3x4 do Fidel Castro na carteira e é pobre. Ele pode até ser pobre, andar com a foice, camisa vermelha e 3x4 do Fidel. Mas ela pode usar iPhone, morar no Leblon e jantar no Aprazível.

Escrevo para dizer, você que só olha para o próprio umbigo, que a esquerda vai além de CEP e da conta corrente. Ela não é só redução das desigualdades econômicas. E muito menos um mantra anticapitalismo utópico. Até porque isso não é ser de esquerda. É ser burro. E viva o iPhone, a Osklen, a TAM, a Adidas e o MasterCard.

Olha, você que só olha para o próprio umbigo. Eu te entendo. Deve ser difícil entender como quem mora em Ipanema também pode se preocupar com o de menor da Parada de Lucas. Que não é o Jeep Renegade na garagem ou o TAG Heuer no pulso que definem seus ideais de uma sociedade mais igualitária.

Vem com a gente, você que só olha para o próprio umbigo. Vem comigo, com o Kleber Mendonça Filho, a Anna Muylaert, a Tiê, o Wagner Moura, o Xico Sá, a Leandra Leal, o Emicida, a Marieta Severo, o Tico Santa Cruz, o Juca Ferreira, o João Vicente de Castro e o Lenine.

Vem com o Gregório Duvivier, que sempre teve piscina em casa e quer a legalização da maconha e do aborto. Vem com a Maria Ribeiro, que é consumista de marca maior do Fashion Mall, mas que quer mais é ver beijo gay na televisão. Vem com o Caetano, que é milionário, mas sabe que o Temer é golpista.

É bem verdade, você que só olha para o próprio umbigo. Eu não sei quanto tem na sua conta corrente, onde seus pais trabalham, quanto cômodos tem sua casa e se a TV à cabo está pegando bem aí. É verdade. Mas não importa, meu amigo. Indignação não precisa ser seletiva. Solidariedade e liberdade também não.

Deixa o negro, com histórico de escravidão, da favela, que leva sacode da milícia todo dia, usufruir do sistema de cotas na universidade pública. Já pensou, que lindo, ele sendo o primeiro da família com canudo na mão? Que orgulho a mãe dele vai ter em falar, lá na venda, que o filho virou doutor?

Deixa o gay dar o que ele quiser a quem bem entender. Ou comer. Deixa transex usar o banheiro que preferir e o nome social na chamada da aula. Deixa a lésbica andar de mão dada no Village Mall, adotar uma criança abandonada no abrigo e dar um sobrenome, garantido em certidão, a ela. Deixa, vai.

Você que só olha para o próprio umbigo, posso te pedir também para deixar a mulher abortar? O corpo é dela e o Estado tem coisa mais importante para resolver. É que, não sei se te contaram, mas o Estado é laico, amigo. E também deixa o maconheiro apertar um. Essa guerra foi vencida e tem escola sem merenda precisando de atenção do Estado.

Já pensou como o Bolsa-Família, aquilo que você chama de Bolsa-Pobre, salva o aflição de uma mãe no fim do mês? Daquela mãe que ou compra arroz ou compra feijão. E que o filho dela nunca teve Natal ou viu o coelhinho da páscoa. Meritocracia no Brasil, amigo? Mais fácil o Cunha ser preso.

Eu sei que não vou fazer revolução com essa crônica, nem o Gregório na Folha, o Kleber com um filme a cada semestre, quiçá a Maria no Saia Justa. Mas se eu estou te fazendo refletir, você que só olha para o próprio umbigo, eu já venci a minha revolução diária. E sem foice e camisa vermelha. Nem 3x4 do Fidel.

Você que só olha para o próprio umbigo, não se importe com meu iPhone, com o carro da minha mãe que eu uso, nem com a minha vida de esquerda caviar. Eu prefiro que você se importe com a família do Amarildo, com o Escola Sem Partido e com a mãe do gay que morrerá nas próximas 28 horas.

Enviado do meu iPhone.

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