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'Chega de chacina. Quero o fim da PM assassina'

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MICHEL TEMER
Nacho Doce / Reuters
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Chorei, chorei, chorei, tal qual Janaína Paschoal na defesa da tese - mais torta que as curvas da estrada de Santos - de que Dilma Rouseff cometeu crimes de responsabilidade fiscal, quando li e assisti o depoimento do colega Felipe Souza, da BBC Brasil, agredido por covardes fardados em São Paulo. Com uma diferença, diga-se de passagem: minhas lágrimas foram sinceras, cara Doutora. Aos desavisados: Felipe ganhava seu pão cobrindo as manifestações que pediam a saída do presidente Michel Temer e a convocação de novas eleições (evoé, Diretas Já!), no último domingo, em São Paulo, quando, mesmo que identificado como membro da calejada e suada imprensa tupiniquim, foi atingido com golpes de cassetete.

Ele, com câmera e crachá. Os policiais, de colete à prova de balas, capacete, escudo, balas de borracha, bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e spray de pimenta. Não, não foi uso desproporcional de força. Não, a polícia militar não é despreparada. Não, eles só vão às ruas garantir a ordem pública. E salve Geraldo Alckmin, o senhor governador da Paulicéia, que diz que "querem passar que a polícia é culpada". Oh, santa das santas. Hosana nas alturas! Ora, meu nobre leitor: o que esperar do homem que desvia dinheiro até de merenda escolas de escola pública, segundo o Tribunal de Contas da União, e que desviou recursos em obras de linhas metroviárias?

Deixemos os corruptos fora disso. O fim de Felipe Souza foi feliz. Ainda pôde contar a história de próprio punho. Mas e Giuliana Vallone, da Folha de São Paulo, que ficou por um tempo sem enxergar após ser atingida por uma bala de borracha lançada por um policial militar durante os protestos contra o aumento da passagem de ônibus em 2013? Tem ainda Gabriela Biló, do Estadão, Marcelo Campos, da TV Globo, André Lucas Almeida, da Futura Press. Todos com algo em comum: foram agredidos pela Polícia Militar durante o exercício da comunicação nesta leva de protestos pedindo a saída de Temer. Não, não foi uso desproporcional de força. Não, a Polícia Militar não é despreparada. Não, eles só vão às ruas garantir a ordem pública.

Ah, se o drama só atingisse aos operários da notícia. E os 100 mil que tomaram as ruas de São Paulo no último domingo? Eu disse 100 mil, senhor presidente e corpo ministerial. Repetindo, a nível de clareza: 100 mil. Cem mil pedindo a cabeça de um só homem. Eu que não dormiria tranqüilo depois disso se comigo fosse. Haja estômago. E os 100 mil que gritaram, no ritmo e em coro uníssono: "Ai, ai, ai, ai, se derrubar o Temer cai"? Esses, que sem uso de força e violência, seguiram um caminho pacífico - como bem narra os veículos de comunicação sérios desta nação. Até que, na volta de suas casas, se depararam com a Polícia Militar lançando bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha a fim de dispersão? Um protesto de estudantes, de mulheres, crianças, idosos, trabalhadores e pessoas de bem.

Não, não foi uso desproporcional de força. Não, a polícia militar não é despreparada. Não, eles só vão às ruas garantir a ordem pública. Mas que polícia é essa? Polícia que afirma, querendo desmentir dezenas de jornalistas - testemunhas oculares da livre manifestação desenhada nas ruas -, que agiu na tentativa de reagir a atos de vandalismo. Ora, corporação. E se os mesmos tivessem ocorridos, eu quero saber: não há outra forma de contornar a situação? Estudantes, mulheres, crianças, idosos, trabalhadores e pessoas de bem vão continuar levando bombas de gás e balas de borracha? A resposta, chegou, pasmem. E veio do comandante do policiamento da capital, Dimitrios Fyskatoris. Ele disse que "não reconhece nenhum excesso".

Ora pois, comandante. Os cassetetes em Felipe Souza não são excessos? As agressões sofridas Gabriela Biló, Marcelo Campos e André Lucas Almeida não são excessos? A estudante Deborah Fabri, que perdeu a visão do olho esquerdo depois de se deparar com um membro da sua corporação, não sofreu com excessos? Este que vos fala, que já teve anotações rasgadas, celular recolhido e afastado com gás lacrimogêneo enquanto cobria uma manifestação, não sofreu com excessos? Eu e outros tantos, civis, que estão no seu livre direito de ir às ruas? Ah... mas não, não foi uso desproporcional de força. Não, a polícia militar não é despreparada. Não, eles só vão às ruas garantir a ordem pública.

Fico então pensando: se o que se viu até agora não foi excesso, como bem diz o senhor comandante, o que será dos manifestantes quando aí sim, um dia, quiçá, o excesso de força for usado. Agora, mais que nunca, ficou tão clara quanto as tentativas sucessivas de criminalização dos atos por parte da Polícia Militar, o motivo dos manifestantes ecoarem pelas ruas o grito que intitula este texto: "Chega de chacina. Quero o fim da PM assassina". Ou se preferir: "Não acabou, vai acabar. Eu quero o fim da Polícia Militar".

LEIA MAIS:

- Quero viver em um País onde a polícia não trate manifestações de forma tão diferente

- De quem apanham os manifestantes contrários ao governo Temer?

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