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'O Brasil de Michel Temer não é o mesmo que o meu'

Publicado: Atualizado:
MICHEL TEMER
Xinhua News Agency via Getty Images
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Acordo, abro o Facebook, que está desejando "a todos uma estação divertida e revigorante". Zuckerberg fala, suponho, da primavera, que o solzinho quente e maroto do começo da manhã e o jardim tinindo de verde da minha vizinha de frente avisam que chegou. Aí lembro que tem o Temer fazendo tudo parecer inverno. Ele teve, com a cara de pau que lhe é peculiar, coragem de dizer em Nova York que o Brasil vive uma "estabilidade política extraordinária".

Talvez só o Temer não tenha ouvido centenas de civis pedindo sua saída semanalmente. Talvez para o Temer não exista a Avenida Paulista, o Largo da Batata e a Cinelândia. Talvez o Temer não tenha acesso à pesquisa que informa que ele já passou a Dilma em achincalhamento na internet. Talvez o Temer não saiba que um presidente da Câmara dos Deputados teve seu mandato cassado por mentir em uma CPI. E ele era de sua base aliada.

Talvez o Temer não lembre que ele mesmo pediu para não ganhar notoriedade na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Porque o Temer sabia que seria vaiado. Talvez o Temer estivesse com otite quando não ouviu gritos de golpista no sete de setembro em Brasília. Talvez o Temer tenha realmente esquecido que foi pego na Ficha Limpa por irregularidades na Justiça Eleitoral. Será que o Temer sabe que é o primeiro presidente oficialmente ficha suja?

Talvez o Temer tenha déficit de atenção. Ou Alzheimer. Isso talvez explicaria. Só o Temer não está sabendo que a votação no Congresso para a reforma da presidência ficará para o ano que vem por pressões e falta de coesão na base aliada do governo. Talvez o Temer não tenha se dado conta de que foi só ele assumir o executivo que, 32 anos depois, o grito de "Diretas Já!" voltou a ecoar nas ruas. Só ele não viu pelo menos seis países se levantam e deixam o plenário da ONU durante seu discurso.

Estabilidade política extraordinária de traidor é outra coisa. O Brasil de Temer não é o mesmo que o meu. Ou talvez porque o Temer é assessorado de perto por José Serra. E o Serra não sabe contar. Ele vê 40 onde são 100 mil. O Serra deve ter estudado em alguma das escolas do Geraldo Alckmin, aquelas em que os professores recebem uma miséria e não tem merenda. Porque o Alckmin desviou o dinheiro. Porque o Alckmin é alvo do Ministério Público. Mas não tem Moro para tucano.

Power Point é seletivo. E o Moro também. Mas Moro, como bom juiz messiânico, deveria ter lido mais sobre Antônio Conselheiro, messias de marca maior, lá da Revolta de Canudos, nos cafundós da Bahia. Faria menos feio. Mas o frio pode acabar. E aí eu vejo a Jandira Feghali, rodeada de mulheres carregando flores, no centro do Rio, lutando por uma cidade menos misógina, machista, patriarcal, homofóbica, racista e desigual. Me desculpe a parcialidade, é que eu gosto de gente que redigiu a Maria da Penha. Gosto de gente que luta pelas minorias.

Então eu lembro que não muito longe dali tem o Marcelo Freixo, com uma campanha acompanhada do Chico Buarque, do Gregório Duvivier, do Wagner Moura e da Marieta Severo. E eu peço desculpas novamente, mas, sabe como é, ele foi protagonista da CPI da Milícias, colocou dúzias e mais dúzias de safados ligados ao PMDB na cadeia, ajudando a livrar o sistema estatal da pandemia. Hoje o Freixo precisa andar com seguranças e não pode frequentar qualquer lugar da cidade. Gosto de gente que tem coragem.

E a Erundina também está na luta, junto do Ivan Valente, em São Paulo, querendo uma cidade com passe livre ao invés de mandar bater em que vai para a rua pedindo melhoria no transporte público. Indo contra as privatizações que permeiam a mente do Dória e as taxas da Marta, que atingem periferia. Porque Erundina, como boa nordestina, gosta de igualdade. Então, viva o IPTU progressivo. Caro leitor, desculpe a parcialidade, é que eu admiro mulher que, aos 81 anos, luta para voltar ao posto que ocupou quando aumentou salários da educação e diminuiu o déficit habitacional. Gosto de gente justa.

Então eu tenho esperança que a flor vai desabrochar, que o bem tem seus guerreiros e entre uma espada e outra a luta vai sendo travada. A primavera vai dar suas caras. Após uma trincheira aberta de suor e dor, é bem verdade, mas aí eu lembro que essa crônica nascendo sendo chamada de Coração Valente, que nem a Dilma, então tudo faz sentido.

Inclusive o Zuckerberg com aquele papo de revigorante.

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