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A hipocrisia vagueia na escuridão

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HYPOCRISY
erhui1979 via Getty Images
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Final de tarde de sexta-feira (2.09). Eu saia de Caracaraí rumo aos municípios do sul de Roraima (São Luiz, Baliza e Caroebe) quando a energia foi embora. Um blecaute geral deixou Roraima inteiro às escuras por cerca de duas horas. Seguir pela BR 174 no breu absoluto de carro, vendo vilas, sítios, fazendas, casas, postos de combustível, tudo, absolutamente tudo, engolido pela escuridão me deu a noção exata do quanto nós, população, eleitores, pagadores de impostos, estamos fragilizados nos quesitos desenvolvimento, representatividade política e integração nacional. Somos o estado de menor população do Brasil, de menor PIB, de menor tudo. Temos de maior apenas a esperteza dos nossos políticos.

O mais influente dos nossos representantes, "o fodão dos fodões" que ajudou a derrubar Dilma é incapaz de encontrar solução para nosso martírio energético. Talvez essa situação miserável seja boa para ele! Pois enquanto houver problemas haverá promessas e enquanto houver promessas haverá um fio de esperança por parte daqueles que ainda acreditam nelas.

Mesmo assim, cortamos - eu e o Osmar Morais - a 174 e por volta das 20h20 chegamos a São Luiz. A energia havia retornado, iluminando a cidade cerca de 20 minutos antes. Ao que parece, em todo o estado. O problema é que nas cidades do sul de Roraima ela veio apenas dizer "oi" e foi embora novamente. Aliás, ficou brincando de esconde-esconde indo e voltando por diversas vezes, nos fazendo dormir no calor dos infernos. A situação só não estava pior porque havia chovido horas antes na região.

Depois da noite com o liga e desliga do ar condicionado, por causa da inconstância da energia, acordamos novamente com o efeito vagalume que a instabilidade energética causa nos equipamentos eletroeletrônicos. A televisão do restaurante do Hotel Veneza parecia conversa de gago, com as frases de Sandra Annenberg entrecortadas pelas quedas na força elétrica. Tomamos café e zarpamos para nossa viagem em busca de fatos e versões para as matérias do jornal.

Chegando em Baliza, hora de abastecer para continuar a viagem pela 210 até Caroebe, conversar com os candidatos a prefeito e ouvir a população com o objetivo de termos um termômetro da campanha. Essa etapa já havia sido vencida em São Luiz. A moça do posto de combustível disse que não poderia abastecer, pois não havia energia para fazer a bomba funcionar. Eu explico: a energia foi embora em São João da Baliza no começo da manhã e até por volta das 13h00 ainda não havia voltado. O proprietário do restaurante onde almoçamos - o Tricolor - disse que estava faltando energia desde às 5h da manhã.

Seguimos viagem pela vicinal 26 (aquela mesma que foi o ponta pé inicial do programa de asfaltamento de vicinais do governo de José de Anchieta, mas que até hoje não foi concluída). Depois da parte esburacada da estrada asfaltada em Baliza, mergulhamos no trecho de terra batida, de trafegabilidade difícil, até chegarmos em Nova Colina, município de Rorainópolis. Fazemos esse trajeto todos os meses, mas é sempre como se fosse a primeira, tamanha é a surpresa que o descaso do poder público para com a população me causa.

De Nova Colina retomamos a 174 e fomos bater em Equador, a vila dos abandonados. Lá ouvi relatos de revolta, de sentimento de desamparo. Uma população inteira que vive sem segurança pública, com energia instável (blecautes várias vezes por dia todos os dias), ausência de sinal de telefonia celular, ruas sem asfalto e inundadas de lama, mato, mosquito, sujeira... Enfim, abandono.

Enquanto isso, carros de som passeavam pelas ruas lamacentas da vila, chamando a população para uma reunião política logo mais à noite. Candidatos pedindo voto. Uma senhorinha entrevistada por mim resumiu tudo numa frase: "eu estou com nojo desses candidatos". Disse que este ano se recusa a votar. "Não vou perder tempo com quem não presta". Vendo o que eu vejo todos os meses nessas vilas e povoados, a revolta dessa mulher faz todo sentido.

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