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Crise na Venezuela preocupa brasileiros de Roraima

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Acompanhar a convulsão socioeconômica por que passa a Venezuela é muito preocupante para nós que vivemos aqui em Roraima, na fronteira. Os relatos são os mais assustadores sobre atos de violência e perseguição do governo. Para Roraima, o bem-estar da Venezuela é particularmente importante, afinal, o estado é abastecido pela energia daquele país por meio do Linhão da Hidrelétrica de Guri.

Se o presidente Nicolás Maduro decidir cortar a energia que nos abastece, estaremos em maus lençóis porque as Centrais Elétricas de Roraima (CER) não tem a mínima estrutura para manter o estado aceso e em funcionamento. Seria o caos.

Mas este não é o único motivo da nossa preocupação. Há muito tempo nós que vivemos em Roraima temos uma convivência muito próxima com o país vizinho. Santa Elena de Uairén, a cidade venezuelana que faz fronteira com Pacaraima, do lado brasileiro, há muito era ponto de encontro dos jovens roraimenses que iam se divertir em boates e famílias que viajavam fazer compras para abastecer a dispensa. A Ilha de Margarita era -- e ainda é, apesar dos perigos -- o destino preferido dos endinheirados roraimenses e manauaras, que iam passar férias por lá.

Com a instabilidade social e econômica que corrói a democracia na Venezuela, as pessoas estão buscando outras alternativas de diversão. O bolívar, moeda venezuelana, está quase sendo dada de graça. Mas de nada adianta, pois não há mercadorias nas prateleiras dos supermercados para comprar. Troca-se o bolívar no câmbio paralelo por valores que variam de 34/1 real, 40/1 real e até 77/1 real. Os venezuelanos enfrentam racionamento.

Como já se sabe há algum tempo, falta farinha de mandioca, polvilho de milho, papel higiênico e todos os demais itens de primeira necessidade no mercado local. Por muitas vezes saí de Boa Vista, capital de Roraima, para fazer compras em Santa Elena. Atualmente em qualquer supermercado da Venezuela nos deparamos com filas enormes para comprar frango, leite e outros produtos. São dias difíceis para os hermanos.

Os turistas brasileiros estão assustados com a situação. Um amigo meu, que esteve em Margarita por esses dias, me disse trocou R$ 2 mil por 58 mil bolívares, o que ainda foi caro, segundo os últimos relatos que me chegaram na última semana. Agora os militares venezuelanos estão pedindo a nota fiscal que comprove o câmbio oficial, coisa que nunca foi cobrada dos viajantes.

É uma verdadeira maratona para quem sai de carro de Manaus ou Boa Vista para a Ilha de Margarita. No caminho existem 15 alcabalas (postos de fiscalização) até Puerto la Cruz, onde é a travessia para a ilha. Os turistas ainda sofrem com a cobrança de propina por parte de militares corruptos. Queixas como essa são constantes.

"Venho aqui desde 1996. De lá para cá, ocorreram muitas mudanças. Hoje a Venezuela está passando por uma crise econômica muito grande e a nossa moeda está valorizada em relação ao bolívar, mas não tem nada para comprar. Muitas lojas não tem vendedores. O próprio dono atende e recebe o pagamento. Grandes lojas estão fechadas ou sem mercadorias e não há perspectivas de novos produtos nas prateleiras". Este é o relato de Francisco Eugênio, que passou duas semanas em Margarita, sempre temeroso de que a situação se complicasse ainda mais durante a sua estadia lá.

A classe empresarial venezuelana está agonizando, pois as dificuldades são tremendas. Os empresários reclamam de que o governo quer que eles comprem mercadorias pelo preço oficial do dólar e que eles vendam suas mercadorias por um valor mais barato, o que do ponto de vista financeiro significa a bancarrota.

Quando estive na Venezuela, antes da situação se deteriorar tanto, um empresário me disse que já não era possível encontrar mais nada no mercado, inclusive automóveis, mas no mercado negro é possível se achar qualquer coisa que se queira, mas a preços estratosféricos. Do lado brasileiro, só nos resta torcer para que nosso vizinho encontre um rumo e que sua população pare de sofrer. "Desde Chávez, nosso país tem sofrido muito. Não sei onde vamos parar", queixa-se Francisco Eugênio.

Uma das coisas que mais me entristece ao assistir tão de perto a derrocada da Venezuela é ver a democracia ferida de morte. O presidente, que trata os manifestantes descontentes com seu governo como fascistas, fechou veículos de comunicação e tem imposto censura aos demais. Fotos de manifestações foram proibidas pelo governo nos meios de comunicação que ainda trabalham, apesar de estarem sob o olhar censor de Maduro.

Lembro-me que a primeira vez que estive na Venezuela foi para fazer a cobertura do referendo convocatório de 2004 que permitiu a Hugo Chávez terminar seu mandato. Eu era repórter do jornal Folha de Boa Vista. Fazia apenas um ano que eu havia chegado a Roraima para me estabelecer como jornalista. A situação era de tensão, mas bem longe da realidade de hoje. Nos anos seguintes fui muitas vezes a trabalho e como turista. É lamentável ver como governos são capazes de destruir a estabilidade de um país que tinha tudo para ser muito rico.